Cartão postal

Em 13 de julho de 2016 às 08:00, por Gilson Gil.

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Sempre pensando no ponto de vista do turista que caminha pela cidade de Manaus, tentando aproveitar ao máximo as belezas do município, há um local que oferece uma excelente fotografia ou selfie, típica de cartão postal, sem ser o já consagrado Teatro Amazonas – a Arena da Amazônia.

Uma selfie belíssima pode ser tirada da rua Constantino Nery. Se o caminhante for mais inovador, ainda pode pegar um bom ângulo e captar os aros olímpicos, de quebra.

Entretanto, a Arena, infelizmente, é isso, apenas: um cartão postal (sei que os mais jovens nem sabem o que é isso. Recomendo consultarem o “professor” Google). A foto só pode ser tirada da rua, pois uma cerca impede o acesso às suas dependências. Se o turista estiver acostumado a frequentar estádios modernos pelo mundo, como o Nou Camp ou o Santiago Bernabeu, provavelmente irá querer tomar uma cerveja, comprar uma camisa dos clubes locais ou assistir a um show ou devorar uma peixada. Porém, em nossa Arena, voltará sem realizar tal desejo. Não há uma loja, um restaurante, uma peixaria, uma boite, uma loja de material esportivo ou qualquer tipo de visitação guiada que permita ao animado turista gastar seu dinheiro por aqui e não nos cofres de Barcelona ou Real Madrid.

E que não digam que aqui é diferente da Europa. O Monumental de Nunez, em Buenos Aires, ou o Pacaembu, em São Paulo, possuem visitas agendadas, lojas, restaurantes, bares e museus que rendem muito dinheiro e geram centenas de empregos. O próprio Centenário, em Montevidéu, e o Mário Filho (Maracanã), estádios antigos, que foram reformados recentemente, possuem seus museus, lojas e visitações pagas (bem pagas, por sinal).

Enfim, em um momento tão sem recursos, no qual os governos buscam fórmulas criativas para equilibrar suas contas, Manaus possui um tesouro em plena Constantino Nery, sua Arena, mas não o explora, deixando-o fechado e imobilizado. Sei que podem falar dos shows que lá podem ser realizados, mas isso não é nada especial. Lembremos que o velho Maracanã assistiu shows de Frank Sinatra e Madonna, sem precisar levar o nome de Arena. E isso sem falar do desperdício de espaço no entorno. A Arena possui uma ampla área ao redor que fica parada, sem ocupação, cercada pela sua grade de cartão postal.

Finalizo dizendo que pensar a cidade é refletir também por suas lacunas e possibilidades. A Arena é uma lacuna. Ela é um vazio em Manaus. Um vazio de empregos, de renda e de vida. Um espaço imenso de uma das principais vias urbanas fica imobilizado, com cercas e concreto. Quando falo em ocupar as ruas, preencher de vitalidade nossas avenidas e praças, ocupando de fato a cidade, estou pensando em evitar tais hiatos urbanos. A Arena é uma realidade. É um lindo cartão postal, é fato. Porém, é somente isso, infelizmente. Revitalizar a cidade é dar vida aos seus espaços e evitar a desagregação e a criação de desertos nas ruas. Revitalizar essa área é uma tarefa urgente e necessária, a fim de manter viva a cidade, incluindo seus habitantes e visitantes. Se a Arena (e seu entorno, incluindo os outros prédios públicos ao redor) é hoje um vazio, ela é também uma possibilidade. Basta criatividade, coragem e vontade. Sei que não é simples, mas, enfim, as oportunidades estão aí para isso, para as realizarmos e concretizarmos.

 

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.