Benedita, minha mãe

Em 6 de setembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

compartilhe

Segundo relatou meu pai, Piquete tornou-se deserta da noite para o dia, com a proximidade das tropas federais. Contrariando (de novo!) a opinião geral, que recomendava a fuga, ele (solteiro) e mais uma única família resolveram ficar e ver no que daria tudo aquilo. Esta família tocava uma pensão e meu pai parece ter ficado amigo do dono (senhor Acácio). Não sei se para ter facilidades relativas à sua dieta em tempos de guerra ou porque se enamorou perdidamente da cozinheirinha da pensão, Benedita, uma menina de 16 anos de idade, que viria a ser minha mãe. O amor nos tempos de guerra sempre me pareceu um tema a merecer uma abordagem investigativa mais ampla e profunda. Coisa para Humberto Eco, em parceria com Gabriel Garcia Marques, sob supervisão de Guimarães Rosa, no mínimo.

Minha mãe era, antes de tudo, uma cuidadora. Cuidou de meu pai, cuidou de nós, cuidou da casa, da horta e dos bichos. Exigia de todos nós absoluto acatamento às deliberações de nosso pai. Nunca a vi levantar a voz. Raramente adoecia. Mas sabia um monte de chás, que preparava para combater os mais diferentes males que acometiam a prole. Cozinhou, lavou e passou para 14 pessoas por décadas a fio. Nunca a vi reclamar de nada. Tudo estava conforme a vontade de Deus. Nunca a vi manifestar mais apreço por um filho em detrimento de outro. Aliás, éramos tão iguais aos seus olhos que, frequentemente, trocava nossos nomes. Assim, quando queria ME chamar, por exemplo, saía na porta da cozinha e gritava os 4 ou 5 primeiros nomes (ou apelidos, o meu era Zeca) que lhe vinham na cabeça. Ao se apresentarem todos, ela pinçava o que queria.

Minha mãe jamais soube ler ou escrever, seu universo era o da pia, do tanque, fogão, vassouras e varais. Sei que me contou estórias para que adormecesse, mas miseravelmente não consigo me recordar de nenhuma delas. Cantava, principalmente músicas sertanejas que ouvia no rádio. Recordo-me, sabe-se lá porquê, de “Maringá” e “Chuá Chuá” de Joubert de Carvalho. Os clássicos paraguaios “Índia” e “Ypacaraí”, nas versões em português por “Cascatinha e Nhana”. Vicente Celestino com “O ébrio “e “Coração Materno”. Também compunha seu repertório: Inezita Barroso (…” nesta casa tem goteira, pinga ni mim, pinga ni mim…”), Catulo da Paixão Cearense (“Eu nasci naquela serra num ranchinho beira-chão…”), Luís Gonzaga (“Quando olhei a terra ardendo…”) e até uma americana com Paul Anka, que cantava assim: “ô quérol, lá,lá,lá ,lá,lá a lá!”) chegaram por primeiro aos meus ouvidos por sua voz. Foge-me à lembrança tê-la visto dançar, diferente de meu pai que era um verdadeiro pé de valsa. Às vezes me pergunto “…the answer my friend, is blowing in the wind” se a minha insuperável incompetência para qualquer modalidade de dança, freudianamente interpretando, estaria relacionada com estes meus antecedentes.

 

Comentários:

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.