As revistas e gibis que tínhamos em casa

Em 7 de junho de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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No texto anterior fiz menção às revistas que sempre tínhamos em casa: O Cruzeiro e Manchete, mas havia outras. Minhas irmãs liam fotonovelas, uma espécie de revista em quadrinhos, só que ao invés de desenhos eram fotos em branco e preto. O enredo eram lacrimosos casos de amor, onde o mocinho e a mocinha, sempre mais bonitos que os demais personagens, sofriam pra cacete antes de serem felizes para sempre. As páginas de anúncios de langerie eram as que mais atraíam minha atenção. ”Grande Hotel” e “Capricho” são os únicos títulos de que me recordo. Manuseávamos freneticamente “gibis”. Meu predileto era “O Zorro”. Afirmo peremptoriamente que o fato dele andar de máscara, seu cavalo “Silver” sempre esperar por ele atrás de um morrinho, sua intimidade com o índio ”Tonto” e suas roupas apertadas, jamais amassadas, nunca me fizeram duvidar (como queriam e ainda querem alguns despeitados) de sua virilidade e elevado apreço pelos melhores valores morais da cultura civilizada cristã.

“Mandrake”, “O Fantasma” (também de máscara, roupa apertada, seu amiguinho chamado “Guru”, seu cachorro “Capeta” e uma namorada que ficava sozinha com ele na caverna, mas a quem, respeitosamente, ele só dava umas bitocas de vez em quando!) ”Super-Homem”, ”Capitão Marvel” e os diversos títulos de Walt Disney eram comuns em nossas mãos.  E os trocávamos com os colegas vizinhos ou os levávamos para a porta do cinema para trocar com garotos de outros bairros. Meus irmãos mais velhos manuseavam um outro tipo de revistinha, essa eles não me deixavam ter acesso. Se estavam a lê-las e eu me aproximava, me enxotavam com aquelas frases relativas ao que minha idade permitia ou não. Um dia ouvi dizerem que eram suecas. Nunca descobri onde as escondiam.

Ir ao cinema era coisa muito rara e, portanto, muito especial. O único cinema de Piquete pertencia (adivinhe!) à “fábrica”. O primeiro filme que pude assistir chamava-se “Marcelino pão e vinho”, um filme espanhol em branco e preto. História de um moleque pobre e sua família, num vilarejo pobre. Acho que não chorei, provavelmente porque, naquela época, pobreza não me impressionava muito. Os seguintes foram predominantemente de “cowboys”.

Gostava muito dos cinejornais e seriados que antecediam ao filme principal. Estes se caracterizavam pela possibilidade de o herói morrer por tiro, faca, atropelamento, queda, envenenamento, serra circular, paredes móveis ou surra, mais ou menos a cada três minutos. Sempre era salvo na última hora ou tinha sua salvação protelada para o próximo episódio. Entre um domingo e outro ficávamos dando tratos à bola, tentando adivinhar como ele iria se safar no próximo episódio. Eu mesmo, várias vezes, jurava que daquela vez não tinha saída. Penso que, talvez, meu, às vezes contestado, otimismo, tenha se originado no escurinho do cinema em Piquete.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.