As perguntas que não fiz, as respostas que não tive

Em 13 de setembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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À bem da verdade, ao longo do tempo, acabei sabendo mais coisas da vida de meu pai do que da de minha mãe. E como isso dói hoje! Que falta me faz as repostas às perguntas que não fiz! Contrariando a canção de Bob Dylan, o vento nunca quis me soprar as respostas. Se pudesse voltar no tempo ou encontrá-la de novo em outra dimensão ou universo paralelo, deitar minha cabeça no seu colo e desembestar a fazer perguntas, começaria querendo saber de sua infância. Houve uma? Ou, a exemplo de milhares de filhas de famílias pobres daquela época (e de hoje, ainda, infelizmente!), cedo teve que se tornar uma serva em residência estranha à de seus pais. Sem bonecas ou cantigas de roda. Sem pega-pega ou comidinhas de barro. Em seus lugares, vassoura, esfregão, sabão em pedra e barriga no tanque de lavar roupas. Limpar a imundície dos outros, preparar a comida deles, prosseguir pelo resto da vida fazendo as mesmas coisas que fazia na casa do Acácio, só que agora para seu marido e seus próprios filhos. Foi uma forma de progressão? O desvelo incansável e permanente com que nos brindou era sua resposta ao servilismo medieval de sua infância e adolescência? Como era tratada pelo patrão e os seus? Teria sido desrespeitada por algum deles ou seus clientes? Sonhava? Com o quê? Tinha algum interlocutor? Um ombro amigo?

Sei que para várias de minhas perguntas ela daria a sua resposta característica: -“Ara! Deixa di cunversa besta, muleque!”. Mas acabaria contando tudo, nos mínimos detalhes. Contar-me-ia como foi com o Júlio; o clima na pensão; os habitantes da cidade e os clientes fugindo apavorados pela proximidade da batalha que não houve. Teria o Acácio dado a ela a opção da fuga? Ou nem foi consultada? Teve medo da guerra? Como foi a aproximação com aquele tropeiro entroncado, de cabelos negros penteados para trás que também não quis fugir? Falava-lhe das vantagens que ele tinha? Teria lhe prometido proteção? Teria aí vislumbrado a possibilidade de libertar-se do Acácio? Houve namoro? Noivado? Casamento de papel passado, com vestido branco, véu e flores na capela?  O que sentiu quando adentrou pela primeira vez uma casa que, enfim, podia dizer ser sua? Como era a casa? Que cheiros? Que cores? Certamente respeitaria seu pudor e não tocaria nos detalhes picantes da primeira noite. Mas…teriam sido picantes?

 

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.