As festas juninas

Em 24 de junho de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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As festas juninas – Hoje é o dia de São João, o “Santo festeiro” e, caramba, quantas festas juninas eu vivi!

Na brincadeira de quadrilha de 1967, no Grupo Escolar Princesa Isabel, eu fui par da Rosa, irmã do Flávio, pernambucanos que meteoricamente por aqui passaram. Ela era alva, loura cacheada, simpática e linda. Eu, tímido, vivia a primeira paixão um mês antes de completar onze anos. O que marcou aquele folguedo foi o detalhe de que, na coreografia ensaiada, todos deveriam ter uma flor de plástico consigo. Meninos para um lado meninas para o outro a uma distância provável de quatro metros. Quando olhei Rosa estava a segurar a ponta da saia com uma das mãos e a outra vazia, sem a necessária flor. Num ato de impulsividade e cavalheirismo precoce joguei-lhe a flor que foi girando, girando, até alcançar a sua mão. O sorriso que ela abriu me deixou pávulo. O beijinho de gratidão que recebi no rosto foi tão impactante que pensei estar impregnado de toda a energia do universo, até a oculta que mora dentro de nós. O praná dos indianos havia se apoderado do índio Manaó.

Era quase que hipnótica as labaredas das fogueiras gigantes; excitante as latas de leite em pó subindo após o papoco do catolé; hilariantes os sustos que os adultos tomavam com os “peidos de velha”; provocante o percurso imprevisível do busca-pé; arriscadas as fagulhas que a palha de aço queimada soltava, quando presa por um fio e em movimento manual giratório; disputadas as corridas de saco de estopa, individuais ou por equipes; idem as corridas do Saci-Pererê (com uma perna); frustrantes as escorregadelas dos paus de sebo que nunca consegui subir; animadas as corridas do ovo posto sobre a colher de sopa e presa a boca, (haja equilíbrio!). O quebra-pote contendo doces e balas provocava alvoroço tanto quando o participante queimava suas tentativas de acertar o alvo – de olhos vendados e com um pedaço de madeira na mão a tentar quebrar o pote -, quanto quando o acertava e espalhava as guloseimas pelo chão.

Levava-se a sério as simpatias e adivinhações, as meninas queriam saber se iam casar? Com quem? Quando? Pra funcionar os objetos utilizados tinham que ser virgens. A faca virgem era enterrada na bananeira, depois a moça rezava uma Salve Rainha e voltava para casa sem olhar para trás. No dia seguinte ia conferir se, na faca, estava a inicial do nome daquele que seria seu noivo. Se a faca nada revelasse não casaria e repetiria no ano seguinte até surgir uma letra, caso contrário, a pobrezinha era candidata certa ao caritó.

Receber o pãozinho de Santo Antônio, ofertado tradicionalmente pela igreja católica, é crendice de que nunca faltará alimento.

Quer saber quanto tempo levará para se casar? Amarre um fio numa aliança, ponha-o sobre um copo com água, segure-o sem mexer a mão e conte quantas vezes balançará. O resultado será o número de anos que você levará para se casar.

Quer arranjar marido ou mesmo namorado? Devia ter feito isso no dia de Santo Antônio, agora se programe para o ano que vem, é assim: amarre com nós bem apertados duas fitas no pescoço da imagem de Santo Antônio, uma branca outra vermelha. Se as deixas frouxas o santo não age, se o castigas ele avia rapidinho.  Milagre realizado a compensação deverá ser um rosário sem fim.

Hoje é dia de colocar duas agulhas numa bacia com água e guardar distância entre elas, se uma juntar-se a outra o casório estará garantido.

Tá com medo da morte e quer saber quem morrerá primeiro? Recolha dois pedaços de carvão da fogueira de qualquer um dos santos, os pedaços devem ser desiguais, um maior e um menor, o maior representa seu marido ou namorado. Ponha-os numa bacia com água e aguarde. Se os dois boiarem vocês viverão juntos para sempre, se afundarem morrerão juntos, o que afundar primeiro morrerá primeiro. Eu hein!

Tá doida pra saber o nome do pretendente? Escreva os nomes dos meninos, objetos dos seus desejos, em pequenos pedaços de papel. Dobre-os e ponha-os dentro de uma bacia com água. Aquele que amanhecer aberto será o cara. Outra: se ficar quietinha atrás da porta, o primeiro nome que ouvir é ele, o cobiçado. Mais uma: vela nova e bacia nova com água, o lugar não pode ser agitado, reze uma Salve Rainha (sempre ela), acenda a vela, mantenha a mão imóvel e deixe a vela pingar na água da bacia, a letra que se formar será a primeira letra do nome do encantado.

Aliete do Carmo Parente Salles, tia do Dedé da Cachaçaria, a mão mais abençoada para a arte culinária que eu conheço, preparava as comidas típicas do mês de junho: bolo podre, rabanada, bolo de milho, canjica, mungunzá, pé de moleque, paçoca, banana frita, vatapá, caruru, pirarucu de casaca, tacacá, aluá e o escambau. Sua casa era vizinha ao Caiçara Clube, hoje TVlandia Mall, o terreno era tão grandioso quanto a fogueira que queimava minhas fabulações infantis, a fartura era tamanha que me fazia cometer o pecado da gula, os sabores eram tão especiais que viravam inquilinos das minhas papilas degustativas por muitos dias.

As festas de São João patrocinadas pela família Coutinho, donos do estaleiro com o nome do mesmo santo – dos amigos Danilo, Haroldo e Daniel -, acontecia num lugar chamado Caxangá, hoje Travessa do Caxangá, entre a Jonathas Pedrosa e a Visconde de Porto Alegre, entrando pela Rua 5 de setembro, hoje Candido Mariano. Eram festas realmente concorridas. A salva de fogos iluminava o céu por tanto tempo que dava até torcicolo.

Ah, as festas juninas na casa do Dino e da Vovó Belmira, na Vila Martins! Avós, tios, pais e primos reunidos a desfrutar das músicas, comidas, brincadeiras e da atmosfera que só o mês de junho proporciona, inesquecíveis! Sem contar que os quitutes eram de primeira. O vatapá da Nazaré, minha tia, é de comer até passar mal e os quitutes da Dindinha, saborosíssimos e com gosto de quero mais. Além do aluá tinha a gengibirra, delícia! Faz tempo, muito tempo que não bebo essa bebida que é cara da família Meirelles, do mês de junho, do meu avô Dino, da minha infância, das páginas da minha história escrita com o doce sabor do pirulito, rala-rala, algodão doce, quebra queixo, rebuçado… Tempo em que o açúcar, no máximo, dava cárie.

Mas o melhor mesmo era o Festival Folclórico no campo do General Osório, hoje Colégio Militar, na ilharga da minha Rua. Os bois, os garrotes, as tribos, as danças… Valha-me meu São João! O que aconteceu com o mês de junho?

 

Articulista Lúcio Menezes

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.