AS AVENTURAS DE ÁLVARO CAPIROTO (Parte II)

Em 18 de julho de 2018 às 14:00, por Lúcio Menezes.

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Os escritores d’Espanha do século XVI ambientavam para o Novo Mundo o que os poetas e escritores gregos historiaram na Antiguidade Clássica. Os relatos de Frei Gaspar de Carvajal até descrevem detalhes criveis do encontro com os índios, mas depois, quem sabe por influencia grega ou resultado da experimentação de algum chá de erva amazônica, começa a “viajar” jurando de pé junto e sem qualquer cerimônia ter contatado com as índias amazonas: “Vinieron hasta diez o doce, que éstas vimos nosotros”. Não sou celibatário, escritor, bebedor de chá e nem espanhol, por isso afirmo: “quero morrer de parto se as presepadas do Álvaro Capiroto  não são reais”.

Medalha de Ouro no campeonato de maldades realizado no prédio do antigo IAPETEC ganhou com o insuperável “suco de bichanos”, uma receita simples. Ingredientes: três colheres de açúcar, 250 ml de água e dois gatinhos vivos.  Modo de preparar: ponha 250 ml de água no copo do liquidificador, acrescente dois gatinhos vivos; tampe e liquidifique por três minutos; acrescente três colheres de açúcar e liquidifique novamente até obter uma papa em ponto de coar. Rendimento: três copos de 200 ml. Grau de dificuldade: capturar dois gatinhos vivos.

Ele foi ovacionado pelos participantes, todos com o DNA do capeta. Álvaro Francisco Silva de Oliveira e sua fertilidade fabular, contou-nos que bebeu um copo da macabra receita, pulemos essa parte que é tão inverossímil quanto o encontro de Frei Carvajal com as índias amazonas.

No dia 21 de junho de 1970, a seleção brasileira sagrou-se tricampeã mundial de futebol, éramos parte dos milhares de aficionados (ou não) em êxtase nacional, uma euforia que transformou a verde oliva predominante em amarelo canarinho a inundar as ruas das cidades brasileiras de norte a sul. Como ele não tinha a camisa do escrete nacional para trajar entendeu-se estranho e tratou de improvisar.  O avô de quem herdou o nome guardava a sete chaves, limpa, cheirosa, engomada e envolta em capa plástica da LAVATEX, sua sagrada Opa, aquele traje litúrgico que distingue os ministros extraordinários da comunhão, usado somente em ocasiões especialíssimas como páscoa, natal ou festa do Santíssimo. Por devoção visceral a vestia, tão somente, na festa do Santíssimo. Era vermelha, cor que desde o século XII Roma determinara que simbolizasse as línguas de fogo em Pentecostes e o sangue derramado pelo Altíssimo e mártires, além de representar a caridade inflamante. Ah, como tinha ciúme daquela Opa vermelha o seo Álvaro!

Inconsequente, o neto não pensou duas vezes, queria ir pra rua, trajar algo que não fosse o calção e a camiseta com seus primeiros experimentos de arte em silk screem, que hoje, com tremenda qualidade profissional lhe garante notoriedade e sustento em plena Copacabana, no Rio de Janeiro.

Trajou a veste sagrada, maculou-a com um berrante amarelo a registrar um exagerado número 10 nas costas e saiu de braços abertos a correr, saltar, abraçar a todos e a proferir palavrões de desabafo, característica do fanático torcedor brasileiro (peeeeega fdp!). Desnecessário dizer a imundície e o estado de imprestabilidade que a Opa voltou pra casa; impossível prever o castigo que lhe seria imposto por tamanha capirotice. Desastroso foi o choque tomado pelo seo Álvaro (parece que baixou hospital). Decisão tomada: reclusão domiciliar até o dia que começasse a prestar o serviço militar obrigatório.

Contumaz arrotador de bacaba – eufemismo para o mito maníaco – dizia-nos que quando incorporasse as fileiras do exercito brasileiro iria fazer e acontecer, que o Sargento Ritta se lascaria em suas mãos e o Tenente Cavalcante teria que ficar pianinho senão levaria porrada e coisa e lousa.

As mentes brilhantes da Rua, tripulantes heróis da nau Argos, ouviram aquilo tudo atentamente, armazenaram a informação e partiram para o projeto Velo de Ouro. Não há registro histórico de quem tenha sido o Jasão nesse episódio, o certo é que às 23 horas em ponto do dia planejado, os argonautas da zombaria estavam todos concentrados. Robertinho Caminha e Arnaldo Melo, cujas casas ladeavam a do nosso endiabrado, concentrados cada qual na sua, aguardavam o resultado do arquitetado. Sai o trote: Bosco Spener liga para a casa do seo Álvaro e se passa pelo Tenente Cavalcante; Otávio Rocha reforça a troça e faz às vezes do Sargento Ritta (ambos usaram vozes de comando firmes e ordenatórias).

A convocação do soldado Álvaro para se apresentar na Base Aérea de Manaus deveria ser imediata, o Hércules C-130 E já estava na pista com as palhetas a girar pronto pra decolar rumo a Tabatinga. Para maior veracidade, a ameaça: caso não se apresentasse em trinta minutos a PE (Polícia Estadual) o arrancaria de casa sob as bordoadas inclementes dos cassetetes.

Robertinho e Arnaldo foram testemunhas auditivas dos gritos e “corre-corre” nas casas do seo Álvaro e do seo Ilmar, pai do capiroto, também vizinho na Rua Epaminondas. Depois brecharam das frestas das suas janelas a calorosa despedida dos familiares, lágrimas de alívio rolaram na face do seo Álvaro, suores frios minaram dos poros do futuro militar. E lá foi ele em desabalada carreira, o tempo urgia, a Base Aérea era distante, táxi àquela hora só por milagre do Criador ou dos santos milagreiros; como milagres são restritos aos eleitos…

Assim que os familiares se recolheram, Arnaldo e Robertinho se mandaram para o Restaurante Central, na Rua José Clemente, juntaram-se ao Bosco, Otávio e outros. Comemoraram a peça pregada em alto tom, tanto e mais pra acordar quem ainda contava carneirinhos (quiçá de lãs de ouro como a do carneiro alado Crisómalo da mitologia grega do Jasão).

Capiroto retornou pra casa às seis da manhã do dia seguinte, triste e puto com o golpe recebido, mas não perdeu a pose nem a mania. Na noite seguinte contou que passara um trote pro seu avô e esse quase dera certo, disse que só não embarcou pra Tabatinga porque o avião lotou (?????). Pegou um sabacú – tapas dados por muitos, ao mesmo tempo, por razão que mereça na cabeça do merecedor – pra deixar de ser metido a Carvajal.

Antes de se apresentar oficialmente, servir e posteriormente ser expulso do Exercito, ele ainda esfolou, produziu e vendeu, em larga escala, couros de gatos para tamborins.

Insofismável: na era capirotesca, em Manaus, as sete vidas desse felino ou ganharam um ponto parágrafo ou ficaram confinadas entre parênteses. Égua do capiroto!


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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.