Argumentação dos discursos na construção da cidade

Em 5 de julho de 2016 às 08:00, por Otoni Mesquita.

compartilhe

Ao entrar no século XX, a cidade de Manaus já era descrita como uma cidade graciosa, moderna e saudável, pois as obras públicas haviam transformado seu aspecto, vestindo-a com avenidas calçadas, dotando-a com sistemas de iluminação elétrica, distribuição de água potável, instalação do serviço de transporte coletivo feito através de bondes, além do moderno porto flutuante que se encontrava em construção e tendo como destaque um teatro grandioso e ornamentado que se destacava sobre as demais construções recentes e modernas.

Naquele ano de 1900, ao despedir-se da administração pública, o governador José Ramalho Junior, em sua Mensagem de despedida, justificava que dotar a capital de melhoramentos era “trabalhar pela causa pública”, e afirmava que as despesas “consagradas ao embelezamento de Manáos não haviam sido improdutivas”, e complementava seu argumento, dizendo o seguinte:

“o extrangeiro julga sempre um paiz pela sua capital”: se esta o attrahe, está sempre disposto ou a consagrar-le à sua patria, fazer-lhe referências que determinem que compatriotas seus a emigrarem para o paiz assim enaltecidos. Tudo que se faça pelo embellezamento da capital do Amazonas, a primeira vista parecendo obra superflua, é de resultado praticamente immediato.” (Ramalho Jr. 1900. p. 7).

Outro dos muitos discursos que explicitam as verdadeiras intenções das reformas e melhoramentos implementados pelos administradores em Manaus, foi emitido pelo governador Silvério Nery em sua Mensagem de 10 de julho de 1902 ao tratar dos assuntos “Hygiene e Migração”:

“Não se pode pensar em attrahir para nós os braços e o espírito emnprehendedores e bem intencionados, enquanto não lhe podermos offerecer com absoluta segurança um habitat conveniente e liberto de todas as suspeitas que um espírito de prevenções, nem sempre injustificada, gera.”

Reforçando a concepção da administração pública e a tendência ufanista que caracterizou a historiografia do período pode-se destacar a descrição da cidade de Manaus feita em 1904, pelo senador Lopes Gonçalves:

“o aspecto é nobre, de uma cidade moderna, na qual as casas são altas, as ruas bem traçadas e largas, excetuando na parte mais antiga que vae soffrendo modificações e desaparecendo pela substituição dos seus novos prédios, sem belleza, nem higiene, por outros elegantes e confortáveis”.

No mesmo ano de 1904, quando esteve no Amazonas o escritor Euclides da Cunha, com sua visão crítica, ressaltou o mesmo aspecto contrastante que Avé Lallemant notara em 1859 e apontou uma incômoda artificialidade que o levou a descrever Manaus, como uma “cidade meio caipira, meio europeia”, na qual o tejupar se achatava ao lado dos palácios e o “cosmopolitismo exagerado” punha ao lado do “Yankee espigado” o seringueiro “achamboado” deixando a impressão que era uma maloca transformada em Gand”.

As imagens de uma cidade embelezada e moderna talvez não fossem assim tão convincentes, pois outro autor a observar estes aspectos é o antropólogo Gilberto Freyre, na página 408 de Ordem e Progresso, uma de suas obras de referência, publicada em 1959. Freyre destacou o artificialismo do lugar ao apontar alguns aspectos que considerou em “desproporção com a paisagem agrestemente tropical que rodeava a um tanto postiça capital do Amazonas”, segundo ele, continuando sua crítica alegava que resultado de um “ambiente de economia de aventura e de uma ‘civilização’ antes cenográfica do que autêntica”.

Percebe-se que parte dos projetos de embelezamento realizados naquela época, muitas vezes não passavam de “obras de fachadas” para impressionar os visitantes e iludir a população local. As inovações adotadas nem sempre eram assimiladas pela população, sendo, portanto, interpretadas como recursos artificiais, uma vez que seus resultados, muitas vezes, pareciam simplesmente buscar efeitos cenográficos.

As fachadas atualizadas e decoradas, as praças ajardinadas, as avenidas calçadas e com grande movimento comercial, plenamente utilizadas para o lazer da população, conseguiam imprimir uma imagem de progresso compatível com as aspirações da época, e concentravam grandes esforços no sentido de reforçar esta imagem, como se o principal objetivo das obras de melhoramentos fosse a confecção de uma vitrine.

Projetos para a execução das obras públicas eram aprovados a partir de longos discursos e relatórios que justificavam a necessidade dessas obras apoiados nas ideias de pensadores consagrados com Leibniz ou referências a obras realizadas na Europa ou na Capital Federal. Sob a ótica de “preconceitos europeus” os serviços eram apontados e recomendados como essenciais na busca da melhoria do nível de civilização e garantir a segurança dos cidadãos, mas também se constituíam numa pressão, nem sempre velada, para a aquisição de materiais produzidos pelas indústrias europeias.

Comentários:

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.