Alexandre Pereira da Silva, o Alex

Em 8 de novembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Chamava-se Alexandre (Alex) Pereira da Silva e foi uma das personalidades mais importantes em minha formação adolescente. Tínhamos a mesma idade e nos conhecemos no primeiro ano de São Joaquim. Morava em uma casa elegante da Av. Peixoto de Castro. Seu pai era um sargento reformado do Exército, do qual nunca ouvi a voz, ou nunca a dirigiu a mim. Já sua mãe, era um esplendor. Judia alemã, tinha conseguido evadir-se do nazismo às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial. Dava aulas de alemão. Permitia-se conversar comigo às vezes. Seu humor era imprevisível. Tinha numa pequena estante, em sua sala de estar, uma ampla coleção de pensadores, principalmente seus compatriotas Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Arendt, Adorno, Brecht e Heidegger. Ligava uma pequena vitrolinha (“Sonata”), colocava um clássico (de novo os alemães: Bach, Brams, Beethoven ou Wagner) e desaparecia do mundo mergulhada nas páginas de um livro. Com discretas lágrimas nos olhos traduziu-me as palavras de Schieller, cantadas no último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven (“Oh, Alegria! Centelha do divino ser…”), falou-me dos mitos nórdicos narrados nas óperas wagnerianas, da religiosidade de Bach em suas cantatas e me fez ouvir cravo. Nunca tive coragem de perguntar-lhe de sua jovem vida judia no inferno nazista e como conseguiu sair dele. Meu amigo tampouco. O tema parecia ser tabu, em sua presença. No entanto ele mostrou-me uma carteirinha de estudante que tinha encontrado. Via-se o retrato, amarelado pelo tempo, de uma jovem de pele sardenta e cabelos algo encaracolados, óculos fundo de garrafa, aluna da universidade de Leipzig. Datava 1936.

Nunca a vi fazendo um gesto afetuoso, um carinho, em meu amigo ou suas irmãs. Às vezes me ignorava total e completamente. Parecia viver apenas para suas lembranças, fossem quais fossem.

Penso hoje, que vivi, nesta época, o melhor de dois mundos. Em casa com meus pais e irmãos, líamos e falávamos sobre o melhor da cultura brasileira, principalmente literatura. Minha irmã mais velha já havia concluindo sua graduação em Língua Portuguesa. As duas irmãs do meio, leitoras vorazes e poetizas incipientes. Os demais, como eu, líamos de tudo. Fernando Pessoa ,Eça de Queiroz, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Mário Palmério, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto ( até minha mãe sabia de cor alguns versos de “Morte e Vida Severina”), Jorge Amado e o muito amado João Guimarães Rosa. Recordo-me de ter lido, num Suplemento Literário do “Estadão”, um ensaio de cinco páginas sobre o significado da palavra “travessia” na obra do gênio de Cordisburgo. Entendi pouco, mas o ídolo merecia o esforço.

Na casa do Alex o dialeto mudava. Suas irmãs e colegas de faculdade discutiam apaixonadamente Sartre, Simone de Beauvoir, Camus, Marcuse, McLuhan, Kerouac, Ginsberg, Nabokov, Debray, Mao e Guevara. A Editora Abril, catapultada pelas vendas de Mickey, Pato Donald, Zé Carioca e Almanaque do Tio Patinhas (que líamos com sofreguidão também!) começou a lançar, nas bancas de revista, em fascículos mensais, obras de filosofia (“Os Pensadores”),de música erudita (“Os Clássicos”) e pintura (“Gênios da Pintura”), que minha irmã mais velha comprava regularmente. Os devorávamos. Meu irmão mais velho, retornado de uma missão no exterior (Canal de Suez), trouxe um aparelho gravador de música em rolos de fitas magnéticas (alemão, marca Gründig). Cada rolo – e eram várias dezenas deles, que ele já trouxe gravado – continha cerca de seis horas contínuas de música. Creio que até hoje o acervo não foi totalmente explorado. Óperas inteiras, árias líricas, música napolitana, sinfonias e concertos, sem fim.

 

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.