A água e o verde na cidade de Manaus: uma breve história

Em 9 de agosto de 2016 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Manaus é uma cidade cercada por elementos da natureza por todos os lados, portanto é surpreendente descobri-la como uma clareira árida situada no meio da exuberante floresta amazônica. A região é caracterizada pelo grande manto verde, recortado pela sinuosidade dos muitos rios e habitada por uma rica diversidade de etnias indígenas.

A beleza e a originalidade destes elementos são evidências incontestáveis e bastante valorizadas pela sensibilidade humana. Entretanto, o ritmo de crescimento da cidade parece fazer questão de apagar estas referências belas e naturais, próprias de uma situação privilegiada e a cidade cresce insistindo em se distinguir e se afastar destes elementos naturais. Assim, se constrói uma imagem bastante distanciada da realidade circundante, como se a aparência desta imagem, por si só, se constituísse garantias de civilidade.

Grande parte das transformações processadas na cidade foi justificada como exigências naturais do crescimento populacional e das novas necessidades decorrentes da vida urbana atualizada. Assim, as intervenções priorizaram, sobretudo, aspectos da circulação, segurança e o comércio para atender a ampliação da malha urbana, assim como a intensificação do trafego de veículos e transporte de pessoas, bem como a ampliação das atividades comerciais e do consumo diário. Sem dúvida, estas atividades de subsistência são significativas para o bom uso dos espaços urbanos. Entretanto, o processo de atualização não atentou aos aspectos comprometidos com o meio ambiente, que são igualmente importantes para a manutenção da qualidade de vida da população que usufrui da cidade.

As necessidades de ampliação dos espaços habitacionais e da expansão do comércio e da indústria levaram a reduzir as áreas verdes, não somente nas áreas centrais, mas também nas periféricas. Em virtude da ausência de uma política pública aplicada na preservação do patrimônio histórico e natural, permitiu que os espaços públicos localizados no centro da cidade ficassem praticamente despido de verdes, com exceção de poucos espécimes, ainda mantidos, em algumas praças centrais, quintais e vias públicas, cujo processo de manutenção é ineficiente.

A intensidade com que ocorreram ocupações irregulares e em áreas de risco foi proporcionalmente semelhante a ampliação das áreas urbanas como um todo. Infelizmente, a primeira característica destes espaços é a retirada da camada vegetal, que funciona como um marco de garantia de posse da terra e a demarcação de vias para a circulação de pessoas e veículos motorizados. Inicialmente estas áreas não apresentam os serviços de infraestrutura necessários, mas a primeira reivindicação a ser feita é o asfaltamento das vias principais, delimitando assim a ocupação. Em torno destas pistas negras e quentes emergem, rapidamente, construções em concreto. Em formatos de gostos estético duvidosos, se multiplicam com seus telhados de amianto e quintais cimentados.

O processo de atualização produziu necessidades e fez muitas exigências como o uso intenso de veículos motorizados para quase todos os deslocamentos, assim como a instalação de aparelhos de refrigeração em grande parte dos espaços de trabalho e habitação. Além disso, podemos observar que nos últimos anos, as cheias dos rios se tornaram mais provocativas, como se as águas insistissem na tentativa de recuperar os espaços que lhe foram subtraídos.

A legislação da província, sobretudo do conteúdo veiculado nos códigos de posturas, demonstravam grande atenção em manter as condições ambientais da povoação. A partir de uma regulamentação que procurava impedir a degradação dos igarapés pelo uso indevido, assim como a retirada de materiais como areia, pedras e a vegetação das matas ciliares.

Contudo, podemos constatar que tais objetivos se perderam perante a pressão de outras exigências e com a ausência de profissionais especialistas nas repartições que deveriam regular e fiscalizar tais políticas. Sob a pressão do crescimento repentino e a falta de resistência não foi possível preservar as três bacias de igarapés que recortam área urbana de Manaus. Ainda que grandes financiamentos tenham almejado a recuperação de suas fontes, isto não ocorreu. Foram todos degradados com dejetos domésticos e industriais, apresentando atualmente suas águas totalmente poluídas.

Além da falta de manutenção destes cursos d’agua, pela ausência de uma política de preservação ambiental, pode-se constatar que a aplicação do projeto em curso, contraria as tendências mundiais de empreender esforços para recuperar a paisagem natural. Partes destes igarapés estão desaparecendo, ao serem aterradas ou modificadas por intervenções embelezadoras para a criação de novos espaços de lazer, e mesmo canalizados para dar espaço para construção de conjuntos habitacionais populares.

Sem dúvida ainda são bastante discutíveis as razões que levam ao aquecimento global do planeta, portanto, não temos como afirmar taxativamente as razões que tornaram a cidade de Manaus um lugar tão quente e inóspito para os transeuntes que circulam por suas ruas. O calor registrado nas últimas décadas, certamente não se deve somente ao seu acelerado crescimento desencadeado pela implantação da Zona Franca de Manaus no final dos anos de 1960. Posteriormente o processo se intensificou com a consolidação do Distrito Industrial de Manaus, cujos ganhos pretendiam se propagar além do setor econômico, atendendo a segmentos sociais.

A tentativa de compreender estes problemas contemporâneos nos remete a buscar fundamentação na própria história da cidade, na tentativa de identificar e evidenciar indícios significativos ocorridos em seu processo de transformação urbana. Além disso, pretendemos desenvolver uma reflexão do ponto de vista memorialista deste processo relativamente recente, acreditando que assim possamos contribuir para com a discussão do problema e elucidação de alguns pontos.

 

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.