AGENDA URBANA

Em 6 de fevereiro de 2020 às 14:32, por Gilson Gil.

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Ano de eleição municipal sempre atrai a atenção para os problemas urbanos. O foco dos analistas e da população, em geral, acaba recaindo sobre a cidade, seus dilemas e necessidades. Não poderia eu fazer diferente. Começarei o ano refletindo sobre Manaus e suas demandas.

Em primeiro lugar, é bom refletir que a Manaus das cadeiras nas calçadas e do bate papo descontraído nas portas acabou. Ficar insistindo, como alguns fazem, que esse tempo será retomado é irreal. A modernidade acabou com esse tempo. Uma cidade com quase três milhões de habitantes, com o terceiro polo industrial do país e uma arrecadação de nível dos bilhões, não tem mais espaço para isso. Os problemas das grandes metrópoles chegaram a Manaus há vários anos. Entre eles, posso citar a mobilidade urbana, a violência, o saneamento e o desemprego. São questões que afligem todas as grandes cidades mundiais e que, inevitavelmente, acabaram por nos atingir.

Neste momento, penso ser interessante falar da mobilidade. Há uns sete anos que o BRT virou centro das especulações políticas, inclusive sendo o centro de eleições e reeleições locais, apesar de nunca ter sido executado. Na linha das promessas não realizadas, já tivemos o monotrilho, o metrô de superfície, a navegação de cabotagem e o uso dos igarapés no Nova Veneza também como opções sugeridas em outros pleitos. A realidade é que há um monopólio, na prática, do sistema de ônibus. Outros modais, tais como o táxi de motocicleta ou as empresas de aplicativos, são pontuais e pouco impactam no sistema em geral. O povo trabalhador, que mora, em sua maioria nas zonas leste  e norte, precisa mesmo é de transportes de massa. Precisa chegar cedo ao trabalho e, muitas vezes, volta altas horas da noite para casa. Isso, quando não vai para a faculdade noturna, chegando quase de madrugada em casa, para, no dia seguinte, repetir todo o ciclo. Transportes rápidos, baratos e intermitentes são uma necessidade urgente. 

Em Manaus, o ônibus é o pesadelo do cidadão. Demoram a chegar, quando chegam, quebram constantemente, pegam fogo, são inseguros e a frota é reduzida. Sem falar dos percursos que são irregulares e atingem os bairros de maneira desigual. O sistema dos terminais não funciona a contento, sem falar que são sujos, desorganizados e inseguros. As experiências mal sucedidas, como o Expresso, deixaram marcas negativas no imaginário popular. E isso sem tocar na questão das paradas do lado esquerdo, que se alternam com as do lado direito, atrapalhando projetos como o Faixa Azul, que precisam de avenidas uniformes e regulares.

Certamente, que esse problema aparecerá ao longo dos debates. Projetos, como o BRT, serão cobrados. Algumas utopias, como o metrô de superfície, serão ventiladas. Porém, acima de tudo, é pensar que algo precisa ser feito, planejado e executado. Sem arroubos futurísticos, como o monotrilho, com estudos transparentes e realistas de execução e de viabilidade econômica, é mais do que hora de os governantes priorizarem a população que trabalha, estuda e busca o lazer através do transporte coletivo público. Seja pela melhoria do sistema de ônibus, ou pela criação de outro modal com igual alcance, é a hora exata de se considerar seriamente este impasse.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.