Três Pracinhas

Em 22 de novembro de 2016 às 07:00.

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Artigo escrito por Flávia Ribeiro, em homenagem aos três pracinhas que embarcaram para lutarem na Itália em 16 de julho de 1944,   contra as tropas do Eixo na Segunda Guerra Mundial.

Por Flávia Ribeiro

Quando terminou de contar suas aventuras na Segunda Guerra Mundial, o dentista e pracinha da FEB Israel Rosenthal, 93 anos, fez uma mágica, usando apenas papel laminado de embalagem de bombom e, segundo ele, o poder da mente: dobrou o papel várias vezes, o colocou na palma da mão da repórter e se concentrou até o papel esquentar a um ponto que queimou a mão. O veterano Dálvaro José de Oliveira, de 94, recebeu a repórter com coxinhas, risoles e empadas, que encomendou justamente para a ocasião. E o ex-combatente Soterval Correa Porto, de 92, fez questão de mostrar todas as suas medalhas, diplomas, fotos de filhos, netos e bisnetos e, por fim, seu altar lotado imagens de santos.

Em 16 de julho, completam-se 70 anos da chegada de Soterval à Itália. Ele fez parte do primeiro dos cinco grupos de pracinhas brasileiros, como eles eram chamados, que formaram a única frente de batalha da América do Sul durante a Segunda Guerra Mundial. Dálvaro, que antes mesmo de ir para a Itália havia sobrevivido ao torpedeamento de dois navios brasileiros pelo submarino alemão U-507, e Israel, judeu que se sentiu na obrigação de combater o nazifascismo, embarcaram em levas seguintes.

Os três estiveram entre os 25.445 soldados brasileiros que participaram de campanhas como a da retomada de Monte Castello, até então nas mãos dos alemães. O Brasil abandonou a neutralidade e declarou seu apoio aos Aliados em 1942, e mandou suas tropas a partir de julho de 1944, sendo incorporadas ao 4º Corpo do V Exército Americano. Tenentes da reserva, Soterval, Dálvaro e Israel mantêm viva a memória da participação nos esforços de guerra, sem perder a gentileza e o prazer em receber quem quer que esteja disposto a ouvi-los contar suas histórias.

Lembram que, em Monte Castello, por exemplo, foram necessários três meses e seis investidas para que os alemães fossem derrotados. Que em Montese a batalha durou apenas quatro dias, mas foi de enorme ferocidade e resultou em 426 baixas, entre mortos e feridos. E que os pracinhas brasileiros estiveram em campanha de sul a norte da Itália, conquistando localidades como Massarosa, Camaiore, Monte Prano, Barga, Monte Castelo, Montese, Fornovo di Taro, Zocca, Collecchino, Soprasasso, Marano Su Panaro, Castelnuovo, La Serra.

No saldo final, 457 pracinhas morreram e cerca de 3 mil ficaram feridos. Por outro lado, houve conquistas históricas, como a rendição, diante dos brasileiros, de 14.779 inimigos da 148ª Divisão Alemã inteira, de parte da 90ª Divisão Panzer e de remanescentes da Divisão Bersaglieri Itália em Fornovo, em abril de 1945. Entre setembro de 1944 e maio de 1945, os brasileiros enfrentaram, no total, nove divisões alemãs e três divisões italianas, capturando 20.573 inimigos. Nas próximas páginas, Soterval, da infantaria, Dálvaro, da artilharia, e Israel, oficial-dentista, contam sua experiência na mais sangrenta guerra do século XX.