A primeira guerra do Rio

Em 14 de março de 2017 às 08:00.

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Tamoios contra tupiniquins, portugueses contra franceses… assim nasceu a Cidade Maravilhosa.

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Por Agnes Alencar

OUVE-SE PRIMEIRO APENAS O MAR, suas ondas que batem contra as rochas e as brumas espumam em areia. Quase repentinamente o silêncio é preenchido por grunhidos, poucos no princípio, mas transformam-se em berros cada vez mais altos à medida que mais e mais vozes se unem em urros que anunciam o combate prestes a começar.

São os tupinambás avistando inimigos. Começam então as cornetas, e o som mais e mais ensurdecedor dita o ritmo dos gestos que virão a seguir. Os braços se levantam para mostrar ossos e dentes que enfeitam os corpos desses guerreiros indígenas — são os inimigos mortos e devorados sacrificialmente em outras batalhas. A coreografia faz parte do assombroso preâmbulo de combate, introduz o que se seguirá: primeiro, a saraivada de flechas que atravessa a praia em busca do inimigo, depois, os homens que se encontram em combate corpo a corpo e já não hesitam, não cessam, não retornam. Iniciada a peleja, espera-se a vitória, e não há trégua.

Assistimos a esta luta através dos olhos assustados de um calvinista francês. Jean de Léry conta que, diante de tão espantoso espetáculo, sua curiosidade venceu o medo e ele ficou para ver a batalha. Os franceses chegaram à Guanabara em 1555, mas Jean de Léry não estava com eles. Quem veio na primeira comitiva foi André Thévet, seu rival intelectual. Villegagnon foi o chefe da expedição. O alcance da participação régia nessa empreitada ainda é incerto, uma vez que apenas Thevét menciona um suposto apoio de Henrique II. A expedição se instalou em uma pequena ilha onde hoje fica a Escola Naval. O pedaço de terra foi fortificado com a ajuda de indígenas aliados aos franceses. Na região que hoje conhecemos como Rio de Janeiro não havia, naquela época, nenhum movimento português de colonização ou de sedimentação urbana. A Coroa portuguesa manteve distintas administrações espaciais no início da ocupação, de modo que essa região passou longos anos sem receber grande atenção.

Todo o litoral da América era densamente povoado por grupos indígenas – alguns estudiosos estimam que eles somavam cerca de 1 milhão de indivíduos. Infelizmente as informações sobre essa diversidade são limitadas às fontes da época, que em sua totalidade foram produzidas pelos europeus. Mesmo as nomenclaturas com que os indígenas são identificados é difusa. Nem sempre um grupo é distinguido da mesma maneira.  Os franceses, por exemplo, chamam seus aliados de tupinambás, ou “nossos selvagens”, já a documentação lusa nomeia esses indígenas de tamoios.

As alianças entre ameríndios e europeus eram necessárias para a permanência no continente e pautaram grande parte dos conflitos nos primeiros tempos coloniais, sobretudo nos séculos XVI e XVII. Essas relações de amizade eram interessantes para os indígenas também, e costumeiras segundo o modo de proceder guerreiro dos tupinambás, podendo se expandir ou se retrair de acordo com o uso e a intenção que os indígenas atribuíam a elas. Do ponto de vista dos franceses aliados aos tamoios, a estratégia garantia acesso à água potável e aos alimentos. Para os portugueses – ainda que os discursos nem sempre valorizem a força indígena com a qual contavam – as alianças com os tupiniquins permitiam a manutenção de seus domínios e a expansão da ocupação. Para os indígenas, tamoios ou tupiniquins, as alianças faziam parte das transações de guerra e eram meios de dar continuidade à sua guerra própria, anterior à chegada dos europeus ao continente. Presentes e agrados recebidos eram símbolos de poder com alto valor de troca. Em meio a tudo isso, os padres jesuítas viam nesses indígenas as almas que a eles caberia converter, redimir e salvar.

Em um primeiro momento, a ocupação do Rio de Janeiro não pareceu tão relevante. O monarca português D. João li recebeu alguns avisos da presença de corsários franceses nas proximidades do recém-descoberto continente, mas isso não alterou de imediato as diretrizes de colonização. Quando em 1555 a Guanabara foi ocupada, o rei novamente foi avisado e, no ano seguinte, quando a nova frota chegou para unir-se a Villegagnon – trazendo Jean de Léry – mais uma vez D. João III foi notificado. Somente em 1558 o fidalgo português Mem de Sá recebeu ordens de vir para o Brasil assumir o governo geral, mas ainda levou dois anos para enfim descer pela costa para expulsar os franceses. Nem por isso constava na agenda lusa um plano de fundação de cidade.

Em 1560, Mem de Sá encontrou um forte francês quase inabitado. Parte dos integrantes da frota de Villegagnon estava vivendo no continente junto aos índios, e o próprio comandante tinha retorna­ do à França por motivos não muito claros. O relato de André Thévet afirma que dentro da fortaleza havia apenas 10 homens, sem armas, sem mantimentos, enquanto outros estavam em terra com o comandante Bois-de-la Conte. É bem diferente o cenário descrito por Mem de Sá à regente de Portugal, D. Catarina: em carta, ele afirma que se tratava de cerca de 120 homens apoiados por mais de mil indígenas, “tão bons espingardeiros quanto os franceses”. Os portugueses, por sua vez, eram poucos e, segundo Mem de Sá, os escassos indígenas aliados eram preguiçosos e não tinham vontade de guerrear – o que parece pouco provável considerando a ferocidade da luta narrada por Léry.

A tomada cio Forte Coligny, em 1560, não foi o mote para a fundação da cidade, mas deu lugar a uma nova fase da guerra. Os franceses remanescentes se espalharam pelo território (alguns subiram para Cabo Frio) e deixaram de ser centrais no conflito. Os anos que se seguem colocam em confronto colonos portugueses e indígenas tamoios, que anteriormente contavam com a força ele seus aliados franceses. Ao mesmo tempo, desencadeia­se uma pressão de colonos sobre jesuítas em favor cio estabelecimento de uma cidade que permitis se melhor defesa do território e a catequização sistemática dos indígenas que aqui se encontravam. Independentemente cio número exato de indígenas envolvidos, a aliança francesa com os tamoios era uma ameaça real à manutenção das forças colonizadoras e cristianizadoras no território. Toda e qualquer nação aliada aos indígenas inimigos dos portugueses oferecia perigo real aos colonos. Entre 1560 e 1567, a guerra de tupinambás, portugueses e alguns franceses ainda presentes no território teve poucas tréguas.

Com a chegada da Armada de Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, foi fundada a cidade do Rio de Janeiro, em 1565. Afastava-se ainda mais o fantasma de uma retomada francesa do território. Dois anos depois, nova esquadra foi enviada para reforçar o exército que Me m de Sá comandava, formado por colonos e indígenas. Foi nessa época que, subindo para Cabo Frio, os portugueses e os aliados indígenas já treinados pelos portugueses exterminaram grande parte dos tamoios que lá se encontravam e escravizaram os sobreviventes.

Séculos mais tarde, esta batalha seria revisitada e os tamoios transformados nos brasileiros originais em luta contra os invasores portugueses. Relatos como o do poema épico “Confederação dos Tamoios” (1856), de Gonçalves de Magalhães, caracterizaram o episódio como um conflito ele nações, conferindo-lhe uma motivação e um sentido que não existiam no século XVI. Os indígenas tamoios teriam, de acordo com o poema, se sacrificado em nome do Brasil – como retratado na pintura O último tamoio (1883), de Rodolfo Amoedo, que ilustra a morte do chefe Aimberê nos braços de um padre que lhe ampara a cabeça.

Esta versão romântica dos fatos é ainda reproduzida em livros escolares e em alguns trabalhos acadêmicos. Em outros meios, é o heroísmo português que fica em evidência, a bravura com que expulsaram os franceses e os aliados indígenas de um território que seria seu por direito adquirido. E persiste um relativo silêncio sobre o sem-número de indígenas mortos ou escravizados em nome da proteção da América lusa.

A comemoração pelo aniversário do Rio de Janeiro é mais uma oportunidade, 450 anos depois, para uma reflexão crítica a respeito daqueles eventos inaugurais, em um país no qual os direitos indígenas, reconhecidos pela Constituição de 1988, continuam sendo constantemente ignorados.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional.