A prática do arrocho desertifica o Rio Jary

Em 26 de julho de 2016 às 08:00.

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No relatório apresentado em 1855 à Assembleia Legislativa Provincial, o presidente da Província, doutor João Pedro Dias Vieira, denunciava que o emprego do “arrocho” na extração do leite da seringa havia se generalizado na Província, repetindo o que já ocorria no Pará. Esse hábito, assim entendia, era nociva e em breve espaço de tempo estragaria os seringais.

A despeito dessa prática perniciosa, que mais tarde traria consequências lutuosas, ano após ano a arrecadação da Província só aumentava.

Junto com o crescimento da arrecadação, também crescia a necessidade de iluminação a gás na capital. Diante desse quadro, ainda que insuficientemente para atender a demanda do momento, 25 lampiões foram adquiridos pelo governo Provincial.

A 04 de setembro de 1856, a Assembleia Legislativa Provincial sancionou a Lei nº 68, que mudava o nome da localidade de Barra do Rio Negro para Manaus. O fato foi motivo de comemoração para a população, tanto que o periódico Estrela do Amazonas destacou: “todos acham o nome Manaós mais nosso, mais significativo”. Isso porque o novo nome distinguia os grupos indígenas que ali habitavam: Barés, Passés, Banibas e Manaós.

A catequese e civilização dos índios na Província – papel pedagógico desempenhado pelos jesuítas – que tinha como finalidade a conversão dos indígenas para a fé católica e a intenção do poder real e da Igreja de unificar a fé e a consciência, como uma garantia da unidade política, continuavam em atraso. Homens para as obras públicas eram escassos, em geral ébrios, desordeiros e preguiçosos, a prova disso é   que a serraria e a olaria de Itacoatiara, pertencentes à Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas, dispunham em seu quadro funcional, segundo seu relatório, de 34 africanos livres.

Diferente de todas as regiões do Brasil Império, a presença de escravos africanos na Amazônia era escassa, muito provavelmente pelas peculiaridades da atividade econômica, baseada no extrativismo e coleta de produtos que a natureza oferecia o que se constituía num fator complicador para o controle da mão de obra de negros escravos. Daí se explica a presença de escravos livres no quadro de pessoal da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas ou nas atividades voltadas para a agricultura e não para atividades coletoras. Os trabalhadores nacionais livres e, principalmente, os nordestinos, esses sim, se encarregavam do trabalho de extração e coleta do látex.

Entre 1861 e 1864 o quadro de exportação de café e fumo começava a apresentar decréscimo, enquanto a borracha saltava de 16.777 para 35.625 arrobas.

Entretanto, paralelo ao crescimento de exportação da borracha, em 1863, oito anos após a denúncia apresentada no relatório do presidente da Província, doutor João Pedro Dias Vieira, o emprego da técnica de arrocho transformava o rio Jary, antes pujante centro de produção da borracha, em área de desertificação.

Identificava-se àquela altura a imprescindibilidade do uso de processo racional, menos nocivo e padronizado, a tigelinha. A necessidade de regularidade industrial supunha, cada vez mais, o uso de braços.