O sonho de Ford chega ao fim

Em 17 de agosto de 2017 às 08:00.

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Na mesma época as seringueiras adoeceram, a plantação foi atacada pelo mal-das-folhas, fungo que reduzia a produção de látex e acabava até por matar a árvore, apesar de os estudos anteriores à implantação da Fordlândia indicassem o contrário, pois levava em consideração que a floresta era capaz de proteger a árvore dessa praga, uma vez que a distância entre uma seringueira e outra diminuía a intensidade do ataque.

“Fato é que o Microcyclus praticamente dizimou o seringal implantado nos primeiros anos, obrigando que em 1934 a Companhia formalizasse com o Estado a permuta de uma área de 281 mil hectares, localizada nos fundos da gleba anteriormente adquirida, por outra de igual tamanho, no município de Santarém, margem direita do Rio Tapajós, onde edificaram outra cidade, Belterra, e começaram novo plantio racional de seringueiras. Seis anos depois de ter chegado a Fordlândia, a Companhia reiniciava do zero seu projeto de produzir borracha na Amazônia”.

Foi o botânico James R. Weir Weir, contratado em 1932, um especialista no cultivo de borracha que havia trabalhado na American Rubber Mission, quem sugeriu que a área da Fordlândia fosse trocada por outra em Belterra. “Lá, o terreno era mais bem drenado, com mais vento e menos umidade – condições desfavoráveis à propagação do mal-das-folhas. Um outro núcleo urbano foi construído e alguns erros, reparados. O traçado das plantações ainda era retilíneo, mas as mudas não eram locais, e sim trazidas do antigo Ceilão (atual Sri Lanka). O projeto ganhou novo fôlego. Mesmo assim, a produção era baixa, os trabalhadores reclamavam da alimentação e da falta de liberdade” e a falta de mão-de-obra permanecia sendo um problema.

Mas a verdade é que os dados do ritmo da implantação dos seringais eram baixos, nada animadores, “em 1929, havia 400 hectares de plantação. Em 1931, o volume cresceu apenas para 900. Muito inferior ao planejamento inicial: 200 mil hectares de seringueiras e rendimento médio de 1500 quilos de borracha por hectare”, paralelo a isso, as plantações encontravam-se tomadas por fungos. Dessa forma, a Fordlândia, que já havia recebido investimento de 7 milhões de dólares, acabou por tornar-se um centro de pesquisa e de viveiros para híbridos.

Ford logo exigiu que Belterra fosse erguida o mais rapidamente possível, assim, “em 1936 já havia uma praça com igreja, salão de recreação, cinema ao ar livre, campo de golfe, piscina, caixa d’água, geradores de eletricidade, bangalôs para moradia, jardins e um moderno hospital. Vargas (presidente Getúlio Vargas) visitou-a em outubro de 1940, quando pronunciou um discurso afirmando que “se houvesse neste mundo mais homens como o sr. Ford, não seria necessária nenhuma legislação social”. Durante o período da guerra, os presidentes brasileiro e americano assinaram um tratado garantindo a venda de toda a borracha brasileira para os EUA. No entanto, àquela ocasião, os custos operacionais de Belterra e Fordlândia continuavam muito altos, apesar de estarem ali cultivadas, com sementes trazidas do Acre e do Ceilão, quase 4 milhões de árvores do tipo hevea”.

Entretanto, a sugestão do botânico especialista de abandonar a Fordlândia e fundar outra cidade revelou-se desastrosa, as práticas de plantação continuavam a favorecer a disseminação dos fungos e insetos nas seringueiras e o resultado permaneceu sendo a baixa produtividade das árvores e até mesmo a devastação de muitos hectares. Ainda se utilizou a técnica de enxerto e o seu aperfeiçoamento para que se fortalecessem as seringueiras, contudo, a permanência do plantio de árvores, umas próximas às outras, tornava o combate às pragas uma luta onerosa e constante, inviabilizando-a e acumulando enorme prejuízo desde a sua fundação, em 1928.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, veio o fim do sonho de Ford no Brasil: o surgimento da borracha sintética que tornou a borracha natural menos interessante. Além disso, Estados Unidos e Inglaterra tornaram-se parceiros, o que fez com que os ingleses derrubassem o cartel da borracha no Sudeste Asiático.

Coube ao novo dirigente da empresa e neto do fundador, Henry Ford II, a decisão de vender a Fordlândia. Vendeu-a ao governo brasileiro pela bagatela de USD 244.200,  valor correspondente às indenizações devidas aos trabalhadores – o empreendimento talvez valesse mais de USD 8 milhões, isso sem considerar os USD 20 milhões investidos. “As plantações e benfeitorias foram entregues ao Instituto de Pesquisa Agrária do Norte (atual Embrapa) chefiado pelo progressista agrônomo Felisberto Camargo, que sugeriu a criação de cooperativas de seringueiros, ideia retomada bem depois por Chico Mendes. Hoje, as terras de Fordlândia fazem parte da Floresta Nacional do Tapajós”.

“Hoje, Fordlândia está praticamente abandonada, tomada pelo mato. Belterra, pela proximidade com Santarém, tornou-se um município um tanto maior, com cerca de 17 mil habitantes”.

Apesar dos convites dos governos brasileiros e do apelo dos brasileiros, Ford jamais pisou em suas terras na Amazônia, mas “sua presença podia ser sentida em qualquer lugar do país, nas ruas, nos carros, nos jornais ou na caixa d’agua da cidade que construiu”.

“O governo federal adquiriu as benfeitorias e as plantações de seringueiras, porém não impediu a degradação de Fordlândia que viu seu patrimônio material ser dilapidado, ficando prédios em ruínas e lembranças de moradores remanescentes do tempo do fastígio da borracha”.

“Por esse valor simbólico, o Governo Federal recebeu seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia), dois hospitais, patrulhas sanitárias, captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades, usinas de força, mais de 70 quilômetros de estradas bem conservadas; dois portos; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; departamento de pesquisa e análise de solo. Além de mais de cinco milhões de seringueiras plantadas: 1.900.000 em Fordlândia e 3.200.000 em Belterra”.

 

Fontes:

Revista de Estudos Urbanos e Regionais

Aventuras da História

Revista Uel

Cadernos de História da Ciência

Estado em Minas

Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais