O carro de combate está morto! Vida longa ao carro de combate!

Em 14 de junho de 2016 às 07:00.

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Artigo de Marcus Vinícius de Andrade Gama sobre o uso de carros blindados em larga escala pelas super potências imperialistas em front de batalha. Aborda ainda, as consequências e as vantagens de sua utilização  em regiões de conflito armado.

Por Marcus Vinícius de Andrade Gama

O trocadilho é secular, pois a origem vem do francês “Le roi est mort, vive le roi!”, sentença esta que foi proferida por ocasião da ascensão do rei francês Carlos VII, que sucedeu seu falecido pai Carlos VI em 1422. Mas o tema não poderia ser mais atual. O momento econômico vigente tem levado diversas nações a questionar os recursos dependidos na manutenção de suas forças armadas. Em períodos de escassez, normalmente os sistemas de armas mais custosos são os primeiros a sofrer com cortes orçamentários, o componente terrestre, despontam as forças blindadas como alvo em potencial para reduções e contingenciamentos.

Além disso, o cenário dos conflitos mais recentes, caracterizado por ações de amplo espectro e de baixa intensidade, tem contribuído para a valorização das operações especiais e de tropas leves ou médias, em detrimento das tropas mais pesadas. No curto prazo, não se esperam mudanças significativas no quadro atual, E o carro de combate principal? Ainda possui um papel a desempenhar? O carro de combate está morto?

O último conflito em que foi registrado o largo emprego de blindados foi a 1 ª Guerra do Golfo, em 1991, há mais de duas décadas. No início do século atual, teve início a denominada “Guerra ao Terror”, empreendida pelos Estados Unidos da América (EUA) contra um inimigo difuso e adepto de táticas não ortodoxas de combate. A combinação de operações de inteligência com operações especiais foi a principal responsável pelos maiores sucessos midiáticos das Forças Armadas estadunidenses, como no episódio da captura e morte do terrorista Osama bin Laden. Mas o combate blindado nunca deixou de existir.

De 2001 para cá, talvez a ação de maior sucesso com emprego de carros de combate em um conflito assimétrico e de amplo espectro tenha sido a 2ª Batalha de Fallujah, ocorrida nos meses de novembro e dezembro de 2004, no contexto da 2ª Guerra do Golfo ou Guerra do Iraque. Nessa batalha, o carro de combate foi empregado como arma decisiva no combate urbano desenvolvido na localidade de Fallujah. A cidade, com população estimada de 300 mil habitantes, encontrava-se majoritariamente evacuada (cerca de 70 a 90% da população haviam abandonado a região), mas com uma força adversa, constituída de cerca de 3.000 a 4.000 insurgentes, que tinha o controle da área urbana. Apesar da evacuação parcial, todo o emaranhado urbano permanecia lá. Os carros de combate foram usados como elementos-chave para avançar pelas ruas e vias, protegidos pela infantaria e apoiados diretamente pela engenharia para a retirada de obstáculos à mobilidade. Caçadores ou snipers no alto dos prédios guiavam os carros para posições de tiro, de onde designavam pontos fortes do inimigo a serem reduzidos com o emprego do armamento principal (canhão 120mm, com o uso de munição HEAT pelo seu menor dano colateral).

Os relatórios e artigos produzidos sobre o conflito ressaltaram o valor de contar com o carro de combate no complexo ambiente urbano enfrentado em Fallujah. O emprego da infantaria em apoio ao carro de combate não teve nada de revolucionário, não sendo muito diferente da atuação das tropas Panzergrenadier, na Segunda Guerra, com as adequações decorrentes da evolução do material de defesa. A Batalha de Fallujah mostrou o valor do carro de combate no enfrentamento urbano, assimétrico, de amplo espectro, mas com considerável liberdade de ação da tropa atacante. Ainda assim, o emprego dessa arma de choque buscou baixo dano colateral (munição de energia química com carga direcionada), particularmente se comparado ao dano causado por outras opções disponíveis, como mísseis disparados de plataformas aéreas ou até mesmo artilharia.

O emprego em um conflito externo pode não ser um cenário provável imediato para a Força Terrestre brasileira. No entanto, a busca pelo protagonismo político pode exigir a eventual participação em forças de coalizão, o que inevitavelmente exigiria uma tropa blindada em condições de ser empregada.

Além disso, o carro de combate não está limitado a esse cenário. Com a desativação do segundo Batalhão do Haiti e a expectativa de retirada total de nossas tropas da ilha caribenha, surge a necessidade, caso o país deseje continuar presente em missões dessa natureza, de encontrar outra frente para emprego de nossa tropa. O Haiti, como missão de paz, é uma grande exceção no contexto das demais missões conduzidas pelas Nações Unidas. Grande parte das missões em curso, nos dias de hoje, está situada no continente africano, onde a realidade é bastante diferente da haitiana. As missões de paz contam com a presença de forças oponentes, que, muitas vezes, dispõem de blindados, artilharia, até mesmo aviação, impondo às tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) outras necessidades de equipamento.

O emprego, sob a égide da ONU, de carros de combate em operações de paz é fato recente. O primeiro registro ocorreu na Força de Proteção das ações Unidas (UNPROFOR, sigla em Inglês), desdobrada durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. Em abril de 1993, o Parlamento Dinamarquês autorizou o envio de veículos blindados para o seu contingente de força de paz na referida missão, incluindo um total de dez carros de combate Leopard IAS (o efetivo de uma subunidade daquele Exército). Em menos de um mês, no dia 29 de abril do mesmo ano, em um episódio que ficou conhecido como Operação Bellebank, os carros de combate dinamarqueses chegaram a disparar 72 tiros de 105mm, contra tropas, depósitos de munição e até mesmo carros T-55 sérvios. A proteção blindada, mobilidade e poder de fogo do Leopard, na versão que, aliás, mobília a nata de nossas forças blindadas na atualidade, cumpriu plenamente seu papel no contexto daquela missão de paz.

Essa não seria a única vez em que carros de combate receberiam a pintura alva da ONU. Em setembro de 2006, a França enviou uma subunidade de carros de combate para reforçar seu contingente na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL, sigla em Inglês). O desdobramento foi uma resposta à Guerra do Líbano, ocorrida entre julho e agosto do mesmo ano, quando quatro peacekeepers foram mortos em meio ao fogo cruzado, a região do oriente médio, essa não seria a primeira, nem tampouco a última vez em que tropas da ONU se veriam em tal situação. Para pegar origens remotas, o valoroso Batalhão Suez brasileiro encontrava-se em plena operação, quando eclodiu a Guerra dos Seis Dias, que resultaria no encerramento prematuro da Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF, sigla em Inglês), desdobrada no local. Voltando à UNIFIL, o veículo francês enviado foi o carro de combate principal Leclerc, espinha dorsal da força blindada daquele país, com desempenho semelhante aos dos congêneres estadunidenses (M 1Abrams), britânicos (Challenger) e alemães (Leopard 2). Os carros permaneceram na missão até dezembro de 2010, quando finalmente retornaram para a França. Apesar de não terem registrado incidentes significativos, o emprego desses meios propiciou mais segurança para as forças francesas desdobradas na região, com base nas suas características típicas de mobilidade, proteção blindada e potência de fogo.

Ao acompanhar a literatura especializada sobre assuntos militares, particularmente os periódicos das Forças Armadas dos EUA. observa-se que o questionamento sobre a necessidade de tropas pesadas é constante. A revista Annor publicou, em seu último volume do ano passado (2014), um artigo que descreve como empregar uma subunidade de carros de combate como tropa de infantaria, em uma alusão a procedimento realizado, em treinamento, na Operação Sponan Shield, no Kuwait. Para o Exército Brasileiro, que, ainda hoje, mantém pelotões de operações especiais mobilizados em regimentos de carros de combate, isso eventualmente não causaria tanta surpresa. Com certeza, o mesmo não pode ser dito das guarnições blindadas estadunidenses. Tal procedimento impõe uma quebra de paradigma considerável e eventuais questionamentos sobre a validade de tal “adaptação”. Por outro lado, inúmeros artigos foram escritos sobre a necessidade das tropas pesadas em conflitos de qualquer natureza. O “enterro” do carro de combate vem sendo vaticinado há algum tempo. O Conflito do Yom Kippur, em 1973, talvez tenha sido o primeiro grande combate que levou diversos analistas militares a decretar o fim da arma blindada. O largo emprego dos mísseis que finalmente se tornava uma ameaça a ser considerada, após anos de desenvolvimento, infligiu pesadas baixas às forças blindadas israelenses. No entanto, o fato é que, até hoje, Israel tem em alta conta seus carros de combate, que continuam sendo empregados em apoio às suas tropas no característico e constante conflito de amplo espectro vigente em suas fronteiras.

Adaptações vêm sendo feitas para que a tropa blindada responda de maneira adequada a cada nova ameaça surgi da, e as blindagens dos carros de combate mais modernos têm apresentado considerável resistência às munições de carga dirigida, típicas dos mísseis e lança-rojões anticarro (como bem provam as ações do MIA1 Abrams nos conflitos no Iraque e Afeganistão). Com a diminuição da ameaça dos mísseis, parece voltar a velha máxima de Guderian, que dizia, já na década de 1930, que a maior ameaça de um carro de combate é outro carro de combate. Isso pode ser particularmente verdadeiro no conflito de amplo espectro e baixa intensidade atualmente vigente, no qual, pelo menos até agora, as forças oponentes não possuem acesso às armas anticarro mais sofisticadas ou vetores aéreos que possam ser considerados uma ameaça.

Conclusão

A evolução do material de emprego militar é uma constante na história militar. A cada novo armamento, surgirá outro que se contraponha, impulsionando assim o desenvolvimento de nova tecnologia, que reiniciará o ciclo indefinidamente. Não é menos verdade que o combate, seja qual for sua natureza, sempre exigirá um elemento de choque, que será empregado no momento decisivo da batalha.

Desde Cambrai, na dimensão terrestre, esse elemento tem sido o carro de combate. Apesar da predominância atual do combate assimétrico, de amplo espectro e de baixa intensidade, a aptidão para o combate convencional permanece perene nos principais exércitos domundo. Os recentes investimentos de países como a Rússia e a China em suas forças blindadas comprovam essa assertiva. A despeito de eventuais prognósticos do sempre próximo fim da arma blindada, os fatos parecem discordar consistentemente dessas previsões.

Esse cenário evoca com mais força o debate em torno do questionamento se o carro de combate está morto. Será que podemos prescindir, nos dias de hoje, do meio que, historicamente, propicia potência de fogo e ação de choque às forças de manobra? Acredito que não. Vida longa ao carro de combate!