O aviamento

Em 21 de maio de 2016 às 07:00.

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Os financiamentos ou aviamentos feitos aos seringalistas no preparo de uma safra eram, em geral, recuperados somente ao se aviar a safra seguinte, isto é, nove meses a um ano depois, quando o financiado trazia a borracha da safra passada para vender e liquidar suas contas.

Muito embora tal sistema não deixasse de revestir certa beleza moral pela significação que nele encontra a confiança pessoal no homem, ressalta desde logo os seus inconvenientes do ponto de vista do progresso comercial, sobretudo no que diz com o encarecimento da produção.

Mas não havia que procurar subvertê-lo radical e prontamente, sob pena de desorganizar por completo a indústria extrativa. Esse mecanismo, a despeito de suas deficiências, foi o único que pôde funcionar na Amazônia. “É tradicional. Acha-se enraizado nos hábitos locais. Sua substituição por métodos mais consentâneos com o progresso, capazes de maior flexibilidade e de melhores resultados, dependerá de uma transformação gradativa, subordinada ao desenvolvimento econômico geral da região”, conclui Cassio Fonseca.

Miyasaki e Onu descrevem o aviamento como “a instituição que se consolidou a partir do contato da sociedade amazônica com um sistema altamente monetizado, qual o capitalismo industrial europeu”. Funcionava onde a área econômica tivesse as seguintes características: (a) base de recursos; (b) atraso das técnicas de produção; (c) índice de participação do dinheiro nas trocas nulo ou muito baixo; (d) presença de lideranças mercantis locais – autóctones ou estrangeiras – ou de agentes capazes de virem a exercê-las; (e) ligação dessas lideranças com um mercado monetizado em pleno funcionamento e que, de fora, subministra crédito; (f) demanda externa ativa sobre um ou mais produtos dessa área.

Quando concorrem essas condições, parece impor-se uma verdadeira imperatividade técnica de aviamento, levando as lideranças mercantis locais a se aliarem aos interesses do mercado externo, gratificando-se duplamente – com os preços que cobram fora e com o peculiar sistema de exploração de mão-de-obra. Aumenta o índice de monetização das trocas na área, mas o escambo continua a dominar, porque é a melhor modalidade de disfarçar a usura e outros meios de exploração exercidos pela liderança sobre os nacionais. Pode o aviamento prescindir do caráter policialesco que experimentou décadas a fio na Amazônia, evoluindo para uma fase mais “pura”, isto é, mais estritamente econômica, aí ele se assemelhará, sem muitos acréscimos, ao truck-system (sistema de caminhão) comum, ou mais ainda ao shikomi (fornecimentos) praticados na indústria pesqueira do Japão. (O Aviamento na Amazônia – Miyasaki e Onu).