Logística no exército: passado, presente e futuro

Em 6 de setembro de 2016 às 07:00.

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Marco Antônio de Farias em seu artigo conta como era organizada a logística para as ações de combate nos campos de batalha a partir do século XVII, no Brasil. O histórico da logística no exército brasileiro é contado desde a chegada da Família Real ao Brasil, passando pelos principais eventos bélicos ocorridos até a atualidade.

Por Marco Antônio de Farias

A organização da logística para as ações de combate nas guerras e nos conflitos militares adquiriu crescente importância a partir do século XVII, a ponto de constituir um dos sistemas operacionais mais complexos para as Forças Armadas atuais, cuja eficácia contribuirá de forma efetiva para o sucesso das operações militares.

O princípio da concepção do apoio logístico em apoio às operações militares teria sido implementado na Suécia, pelo rei Gustavo Adolfo (entre 1611 e 1632), como forma de sistematizar o abastecimento das tropas com a criação dos chamados “trens de guerra”.

Também o czar Pedro I da Rússia pode ser considerado um dos precursores da implementação de estruturas logísticas no âmbito dos exércitos da Europa. Baseado nos ensinamentos colhidos por ocasião da Grande Guerra do Norte, contra a Suécia (de 1700 a 1721), Pedro I determinou que as experiências relativas ao abastecimento das tropas, e que haviam provocado enormes dificuldades para o desencadeamento das operações, vivenciadas ainda nos primeiros anos do referido conflito, fossem juntadas e consolidadas.

Esse trabalho deu origem ao inovador Regulamento Militar de 1716.

Napoleão Bonaparte, um dos generais da história-também emprestava grande atenção aos planejamentos logísticos de suas campanhas militares. Ele se debruçou pessoalmente sobre os aspectos logísticos relativos aos preparativos para a campanha destinada a derrotar o exército do Império Russo. Questões como o transporte, o apoio médico e o suprimento receberam atenção especial nos planejamentos realizados, pois o imperador da França antevia as dificuldades que lhe reservaria o deslocamento de um exército de quase 500.000 homens, combatendo a distâncias continentais de suas bases, e em condições inóspitas. No caso da Campanha de 1812, Napoleão procurou, ainda, obter o máximo de informações sobre o dispositivo russo, particularmente sobre a localização dos depósitos de suprimentos, cuja captura era um dos objetivos essenciais para viabilizar o avanço previsto pelo interior do vasto território russo. Embora tenha elaborado um belo plano logístico, foi a logística que o arrastou para a derrota.

O termo “Iogística”, hoje largamente aceito e difundido, aparece pela primeira vez no trabalho Précis de Lart de La Guerre (Compêndio da Arte da Guerra, 1836), de autoria do barão Henri Jomini, que apresentou a seguinte definição:

Logística é a arte de mover exércitos. Ela compreende as ordens e os detalhes das marchas e dos estacionamentos, assim como do abastecimento das tropas. Em outras palavras, é a base para a execução dos planejamentos estratégicos e táticos. (JOMINI,2015)

No âmbito do Exército Brasileiro, desde suas origens em Guararapes e até meados

do século XX, as referências mais próximas e mais empregadas para definir as “atividadeslogísticas” envolveram os seguintes termos:

  • “socorro de guerra” e “provimento” (séc. XVII e XVIII);
  • “quartel-mestre”, “intendência de guerra”, “organização militar” e “economia de guerra” (séc. XIX);
  • “intendência” e “administração militar” (início do séc. XX).

Histórico da logística no Exército Brasileiro

Buscar a origem do conceito de logística militar terrestre no Brasil nos levará certamente à geografia histórica dos Montes Guararapes.

Tal busca deverá, também, acompanhar a evolução de toda a estrutura militar, em sua transição da força colonial portuguesa para as Forças Armadas do Brasil independente, a partir de 1822.

Para o desenvolvimento deste trabalho serão destacados os seguintes eventos:

  • Guerra de Pernambuco (1630-1654);
  • Chegada da Família Real ao Brasil;
  • Guerra da Tríplice Aliança;
  • Campanha de Canudos; e
  • Segunda Guerra Mundial.

A referida seleção, portanto, considerou eventos ocorridos no período colonial, no período monárquico, na fase de consolidação da República e na Segunda Guerra Mundial. Com isso, se buscou obter uma visão abrangente de como se deu o desenvolvimento do sistema logístico do Exército Brasileiro.

Guerra de Pernambuco (1630-1654)

Muito já se falou sobre a heroica resistência de brancos, negros e índios, que resultou nas gloriosas páginas da nossa história militar, traça das nos Montes Guararapes, onde a célula mater do Exército Brasileiro derrotou por duas vezes as tropas holandesas, selando definitivamente o domínio luso-brasileiro sobre o Nordeste.

Sob o aspecto logístico, muito pouco pode ser encontrado na literatura atual. Entretanto, algumas fontes primárias nos apontam para o fato de que a logística pode ter sido o fator determinante para o sucesso da causa patriota.

De acordo com o relato do padre Manoel Calado (2004), o domínio da região do Cabo de Santo Agostinho era essencial para o recebimento de meios e abastecimento por parte das forças luso-brasileiras. Em duas fases distintas da guerra, a posse do Porto de Nazareth e das instalações militares ali localizadas representou a garantia do fluxo logístico, importante marco para a mudança de superioridade nas operações.