Liderança de Caxias e Osório na Guerra do Paraguai

Em 17 de maio de 2016 às 07:00.

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Sobre

O artigo aborda a questão da liderança do comandante geral das forças brasileiras, Duque de Caxias e do General Osório, nas batalhas ocorridas durante o maior conflito armado internacional do século XIX na América do Sul, a Guerra do Paraguai.

Ambos, foram personagens importantes que, com o espírito de liderança e características próprias, comandaram nossos exércitos superando as adversidades nas batalhas.

Por Guilherme Bottrel Carvalho

Os modernos estudos da psicologia social indicam que é possível adquirir conhecimentos úteis para a liderança de grupos militares em combate ou em situações de paz. Essa possibilidade reforça a importância do estudo e do conhecimento das características marcantes dos grandes líderes de nossa história.

É nesse sentido que descrevemos a participação de Caxias e Osório nas batalhas da Guerra do Paraguai, buscando os fatores que os destacaram dos homens comuns. Seguindo essa direção, ressaltamos os atributos que foram importantes para que exercessem uma efetiva liderança na guerra, conduzindo os homens pelo caminho do sacrifício, da honra e do dever.

Analisando as exigências para a liderança nos dias atuais, e comparando-as com as características demonstradas por Caxias e Osório à época delimitada, identificamos competências e valores essenciais da liderança, que não se alteraram significativamente ao longo dos tempos.

Dessa maneira, entendemos que os feitos de nossos heroicos comandantes transcenderam o tempo e continuam atuais, pelo autêntico exemplo de liderança demonstrado, carregado de competência profissional, crença nos valores morais e plena convicção das suas responsabilidades e do seu espírito de soldado.

Desenvolvimento

Não é possível ter um Exército pronto para cumprir as respectivas missões constitucionais sem comandantes, em todos os níveis, que possuam desenvolvida capacidade de liderança. (AMAN, 20 10a, p. 4)

Infere-se, portanto, que se tornou imperioso desenvolver nos oficiais e sargentos atributos e valores que facilitem o desempenho da liderança militar. Com o intuito de melhor investigar esses atributos e valores que caracterizam os líderes, vamos analisar a atuação de dois de nossos maiores exemplos de liderança duque de Caxias e marechal Osorio, nas batalhas da Guerra do Paraguai, conflito indelevelmente marcado por atos heroicos e vivas demonstrações de liderança.

A liderança de Caxias na Guerra do Paraguai

A nomeação de Caxias para o comando-geral das forças brasileiras, terrestres e navais, em outubro de 1866, teve o objetivo de buscar soluções para alguns impasses do conflito. Tal providência centralizou ao máximo o comando das ações, favorecendo o aumento do poder de combate das forças brasileiras.

O princípio da decisão, acompanhado de profundo conhecimento da sua profissão e do interesse inesgotável por tudo o que se passava no campo de batalha, foi atributo marcante de Caxias. Nosso patrono percebeu, rapidamente, que ordem e disciplina eram fundamentais.

“Dentro da desordem não poderia haver disciplina. Sentia-se, entre aqueles homens mal preparados, mal vestidos, mal alimentados e mal equipados, profunda depressão. (PEIXOTO, 1973, v. 2, p. 113)”.

Episódio marcante da liderança de Caxias foi a execução da marcha de flanco, em Piquiciri. A surpreendente manobra revelou a capacidade, visão e poder de decisão desse brilhante líder. Em ação contínua e em atos sucessivos, Caxias encurralava os paraguaios, sem qualquer reverência aos seus fortes e às barreiras que haviam acumulado, enquanto tiveram tempo. Caxias conduzia a guerra acompanhando de perto as operações, “porque não transferia o dever de tudo ver e tudo planejar, para levar, aos subalternos, um plano que queria íntegro” (PEIXOTO, 1973, v. 2, p.188). Externando sua serenidade, era o comandante em chefe, integral, sem hesitações nem restrições.

Segundo o historiador americano Michael Lee Lanning (1999, p. 136), a manobra de flanco foi “uma das mais ousadas operações militares de todos os tempos, em que os fatores da decisão e a maioria dos princípios de guerra e dos fundamentos da ofensiva foram empregados”.

Em dezembro de 1868, as forças brasileiras desembarcaram na retaguarda paraguaia, dando início à brilhante série de vitórias que passaria à nossa História Militar como “Dezembrada”. No prosseguimento do conflito, assistimos a mais uma notável demonstração de coragem e liderança de Caxias, que interveio pessoalmente no combate e influiu nos seus resultados.

“[ … ] depois, (Caxias) deixa aquele ponto, ao alto, de onde comandava, sob tempestade de balas e, seguido de seu estado-maior, passa a mais dramática das revistas ao seu Exército desalentado. Fala aos válidos, incitando-os. Aos feridos, confortando-os. A todos, em palavras candentes, desperta, de passagem, para que a luta não se arrefeça. Entra, de espada na mão, no redemoinho do combate. Ali, reúne, sob ferro e fogo, as dispersadas forças. Congrega-as, forma-as, assume-lhes o comando direto, torna-lhes a frente e grita-Ihes, num sublime desafio:

– Sigam-me os que forem brasileiros. A espada recurva, que empunha com a destra, rebrilha como um sol. Lança aos seus, voltando a cabeça ágil, um olhar varonil, que queima como fogo. Esporeia o cavalo e parte paI-a a sinistra ponte do Itororó. Instintivamente, perfilam-se os combatentes, eletrizados pela grandeza do gesto. Os oficiais apertam os punhos das espadas. E, da tropa, sobe aos ares um murmurado clamor. À frente da tropa, que o contempla va, fremente de emoção, Caxias fez ligeira saudação com a espada. E, a seguir, arroja-se pela ponte. Arrastado pelo exemplo, o Exército o segue de perto. (PEIXOTO, 1973. v. 2, p. 197)”.

Transposta a ponte, Caxias organiza carga maciça contra o inimigo. O entusiasmo que transmitira aos seus comandados deu ao ataque a força moral que era necessária, naquela situação desigual. Aquela nova força dos brasileiros não pôde ser contida. Os paraguaios vão cedendo, recuam, fogem, deixando seus canhões e seus feridos. Está aberto o caminho para a vitória. Caxias, que fora meticuloso e paciente na guerra de posições até a conquista de Humaitá, revelou-se audacioso, porém seguro, na dura e decisiva guerra de movimento que se inaugurou depois da vitória de Itororó. Esse episódio, demonstrou a todo o Exército que sua presença na margem inimiga era definitiva e vitoriosa, levando ao colapso toda a resistência paraguaia.

Caxias era soldado e cidadão do Império. Acumulavam-se nele as mais positivas virtudes cívicas, essencialmente a vocação de servir. Militar, ministrou, pelo exemplo e pela ação permanente e convicta, as lições que correspondem às virtudes do soldado. De bravura, com relevo em ltororó. De abnegação, nos pântanos paraguaios, vencendo distâncias com os pés na lama, com vontade férrea. De disciplina, acatando as resoluções e autoridade dos seus superiores.

De autoridade, pela firme condução das campanhas, sem que jamais germinassem indisciplinas ou restrições, sempre preservando a autoridade alheia. De camaradagem, ao colocar nos ombros de antigos adversários, mas valorosos companheiros de armas, comandos e missões de guerra externa. De humanismo, pelo empenho em economizar o sangue do próprio adversário ou inimigo.

Pelo seu espírito objetivo, foi grande organizador e administrador. Nenhuma força ou obstáculo perturbava-lhe a clara visão das coisas e dos homens nem o desviava do melhor caminho da solução dos problemas que tinha a resolver. (PEIXOTO, 1973, v. 1, p. 35).

Essa objetividade e capacidade de mobilizar os recursos disponíveis não amorteciam nele a virtude da bravura. Sua vida militar está cheia de episódios heroicos. Em todos os grandes lances das lutas que comandou, Luís A1ves de Lima e Silva enfrentou, em arremetidas deliberadas, quando sentia a necessidade de levar coragem e entusiasmo aos seus comandados. Não cedia a simples impulso, mas o fazia conscientemente, no momento próprio, influindo nos rumos da batalha.