Laboratório da revolução

Em 24 de setembro de 2017 às 07:00.

compartilhe

Contra a política de conciliação do PCB, esquerda radical defendia ruptura com o sistema, mas foi silenciada peIa história.

Por Nashla Dahás

HÁ QUEM DIGA QUE A COERÊNCIA É ARTIGO RARO NO MUNDO político. Tão logo as ideias são postas em circulação e se tornam práticas sociais, fogem do alcance de seus autores e se tornam meros objetos de disputa política. Por outro lado, distintas apropriações podem também tornar mais complexa a primeira forma, constituindo histórias próprias.

Caso emblemático da dificuldade de seguir o traçado político de urna ideia-força é o fenômeno do comunismo no Brasil. Revolucionário, reformista, entreguista? Em cada período histórico são diferentes as condições e as possibilidades políticas, influenciando novos arranjos entre tradições, urgências e expectativas de futuro.

Revolução foi a palavra-chave na política da segunda metade do século XX latino-americano. No Brasil, grupos, partidos e movimentos como a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (ORM-Polop), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a Ação Popular (AP) ligada à Igreja Católica e as Ligas Camponesas lideradas pelo advogado Francisco Julião se constituíram em nome de transformações radicais. Na maioria dos casos, criaram a especificidade da defesa revolucionária em meio a um governo de esquerda que, de forma inédita, havia alcançado o poder de Estado.

De forma retrospectiva, é possível afirmar hoje que o governo de João Goulart, entre 1961 e 1964, mobilizou perspectivas populares como a reforma agrária, que tinha o objetivo de criar uma numerosa classe de pequenos proprietários no campo, a reforma urbana, que deveria planejar o crescimento das cidades, a reforma eleitoral, na qual a questão mais polêmica era a inclusão do voto dos soldados e dos graduados das Forças Armadas e, principalmente, dos analfabetos, que constituíam mais da metade da população. E, ainda, a reforma do estatuto do capital estrangeiro, para regular as remessas de lucros para o exterior, e a reforma universitária, para evitar que o ensino e a pesquisa se voltassem para interesses privados, concentrando-os nas necessidades sociais e nacionais. Apesar disso, o governo Jango foi considerado pelas organizações de esquerda radical como meramente “reformista”. Sua aliança com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) fez com que ambos fossem tachados de traidores, em razão das tentativas de conciliação política com a oposição, a “burguesia”.

Mesmo antes do golpe civil-militar de 1964, esses grupos já buscavam alternativas no cenário das esquerdas, praticamente monopolizado pelo PCB – fundado em 1922 sob a influência da Revolução Russa de 1917, e de orientação ideológica alinhada com Moscou. Há pelo menos três décadas a União Soviética vinha sendo o modelo dominante para a esquerda brasileira, e o PCB, o único partido comunista a disputar o apoio popular. Dissidentes ou independentes, as novas organizações abriam possibilidades institucionais e extrainstitucionais à esquerda da esquerda existente no Brasil. Em grande medida, consideravam burguesa a democracia dos anos 1960 e 1970, ou seja, parte do sistema de dominação capitalista. A ela opunham a revolução socialista imediata, priorizando a construção de sua justificativa intelectual e produzindo densa avaliação teórica e críticas ao reformismo de esquerda. A preparação militar para a revolução ficou em segundo plano. Não foi a violência armada que marcou suas trajetórias como organizações revolucionárias, mas a convicção da necessidade de ruptura radical com o pensamento político dominante entre as esquerdas de seu tempo.

Os desdobramento s dessa investida na radicalidade causaram impacto para além daquela conjuntura. Parte da historiografia brasileira ainda afirma que, em tempos de Guerra Fria –   que incluíam a pregação anticomunista e a radicalização política – a fragmentação causada pelas esquerdas radicais resultou em uma fragilidade histórica intransponível. Mas o que se observa ao analisar as ideias e as trajetórias da Polop ou das Ligas Camponesas, por exemplo, é o trabalho de suas militâncias no sentido de avaliar aquela realidade e apontar um caminho político em sintonia com seu próprio tempo – que incluiu a revolução chinesa em 1949 sob a liderança de Mao Tsétung, a Guerra do Vietnã a partir de 1955 e sua vitória sobre a intervenção norte-americana no conflito, a morte e a mitificação de Che Guevara em 1967, as guerras anticoloniais travadas na África, especialmente a libertação da Argélia do domínio francês entre 1954 e 1962, e a revolução cubana em 1959, o acontecimento que mais influenciou as esquerdas na América Latina . Na prática, essas organizações demonstraram a urgência de se lidar com certas causas, como a reforma agrária e a questão do imperialismo.

Quando se concretizou o diagnóstico das esquerdas e a reação das forças conservadoras redundou no golpe anunciado, a memória dos radicais ficou relegada a um lugar tão marginal quanto o da autocrítica das esquerdas destituídas do poder – o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de João Goulart, e claro, o PCB. O golpe interrompeu tanto o fluxo de ideias que dividia aquelas esquerdas quanto a trajetória acadêmica e política de seus intelectuais e militantes, perseguidos, torturados, exilados e, em muitos casos, eliminados. A violência dessa interrupção dificultou (e dificulta ainda hoje) a discussão sobre as memórias revolucionárias, não apenas porque uma geração de políticos desapareceu, mas também porque a responsabilização pelo golpe foi atribuída, sobretudo, aos radicalismos tanto de direita quanto de esquerda, no período da transição para a democracia.

Assim como a violência da ditadura – perpetuada pela impunidade dos agentes que praticaram terrorismo de Estado à época, e pela ausência de reformas na estrutura das Forças Armadas desde então – a dificuldade de lembrar criticamente a radicalidade da esquerda nos anos 1960 divide academia e sociedade quanto à atualidade das ideias comunistas e revolucionárias. Em parte isto ocorre porque os grupos vencidos permaneceram divergentes na memória, tanto quanto o foram na história da derrota de 1964. Segundo o historiador Marcos Napolitano, para o PCB, as causas da derrota foram o aventureirismo radical de algumas correntes, especialmente aquelas lideradas por Brizola. Enquanto isso, o trabalhismo brizolista culpou a hesitação do presidente João Goulart pela derrota, primeiro, ao não reforçar a política de massas em nome da conciliação, e depois, ao não resistir à rebelião militar iniciada pelo general Olímpio Mourão em Minas Gerais. Os grupos marxistas adeptos da luta armada culparam o pacifismo reformista do PCB, que o distanciou do suposto “ímpeto revolucionário” dos operários e camponeses, e selou a derrota diante dos golpistas. Além disso, nos anos 1980, a nova esquerda reunida no Partido dos Trabalhadores apontou literalmente para todos os lados, explicando 64 pelo autoritarismo e vanguardismo das esquerdas comunistas, trabalhistas e radicais, que supunham falar em nome do povo, mas não organizavam efetivamente as suas bases sociais nem lhes propiciavam a formação de uma consciência advinda ela autonomia.

No universo da Polop, organização que mais frontalmente se opôs à conciliação do PCB com setores da “burguesia progressista brasileira”, a revolução socialista significava a possibilidade de eliminar a contradição fundamental da sociedade brasileira: o choque de classes. Seria o único processo capaz ele subverter as estruturas consolidadas elo país, organizando-as de acordo com as necessidades históricas, marxistas. As críticas aos pecebistas insistiam na inviabilidade de uma inserção global subalterna e dependente, restando como alternativa apenas a ruptura total dos laços políticos e econômicos com o imperialismo norte-americano e com a classe que o representava internamente.

Na revista Política Operária ele julho de 1963, a Polop explicou seus motivos: “ao fortalecer João Goulart na luta contra o grupo direitista, a esquerda reformista comete dois erros fundamentais. Em primeiro lugar, deixa intacta a força do grupo direitista, pois o centro só pretende derrotá-lo e não destruí-lo como é de interesse do proletariado, com o objetivo de enquadrá-lo no seu esquema. Em segundo lugar, a eterna concepção reboquista de fortalecer um grupo para derrotar outro sempre leva ao próprio enfraquecimento”. Dez anos depois, do exílio no Chile, o militante polopista Eder Sader escreveu artigo que ficou conhecido entre as esquerdas da época sobre o caminho pelo qual acreditava que as classes operárias e as massas de trabalhadores poderiam criar seus organismos de luta para além de críticas ideológicas e de concepções oportunistas do Estado. A plataforma da esquerda radical de Sader incluía a formação de cordões industriais, comitês coordenadores de lutas e comandos comunais que pudessem dar os primeiros passos no sentido da democracia direta, do controle operário da produção, da organização proletária da distribuição, da formação de uma aliança exclusiva entre as classes exploradas: “(…) esses organismos despeitam as mais profundas energias revolucionárias do proletariado e abrem uma perspectiva real para a luta pelo poder. Os reformistas, ao quererem enquadrar esses organismos no interior das instituições estabelecidas, mostram-se incapazes de dirigir o exército mais poderoso das massas populares no enfrentamento social atual”, afirmou o militante.

Da perspectiva radical. o “povo” – incluindo as massas que formavam as Ligas Camponesas – foi frequentemente visto a partir da tutela construída pelo Estado varguista nos anos 1930: imaturo em relação à luta política e enganado por reformistas, populistas e nacionalistas, como João Goulart e os comunistas do PCB. Dedicado s à compreensão teórica do que seria a revolução socialista no Brasil, movimentos como a Organização Revolucionária Marxista deixaram em segundo plano os problemas básicos que mobilizavam a população. Seus militantes e intelectuais costumavam considerar a massa trabalhadora alienada em relação aos seus problemas cotidianos, como as condições injustas de habitação e transporte. Essa desconexão fez nascer entre os radicais de esquerda um discurso de superioridade sobre a consciência do conflito de classes no Brasil –  o que impediu qualquer relação de confiança e identidade com os mais pobres, aos quais conclamavam para a revolução operária.

A acusação de reformismo significa a negação radical de toda a tradição historicamente considerada de esquerda – sobretudo varguista – até então uma tradição bem vista pela população, especialmente a pa1tir da legislação trabalhista promovida na década de 1930. O maior exemplo dessa ligação entre a população e a política varguista foi o movi­ mento queremista, que ocorreu ao longo do ano de 1945, exigindo nas ruas a permanência de Vargas no poder mesmo após a ditadura do Estado Novo.

O exílio e a dispersão de muitos militantes levou para longe discussões originais à época, como a teoria da dependência, logo apropriada por novos grupos como o da Escola de Sociologia Paulista, sem que os créditos intelectuais fossem rendidos às organizações radicais. O dogmatismo de muitas delas, entretanto, contou para o seu quase desaparecimento como referência para a história das esquerdas brasileiras. A transição pactuada para a democracia cumpriu o papel de colocar os radicalismos numa zona de esquecimento, como parte de uma memória incômoda que, em outras sociedades como a chilena e a argentina, há algum tempo vem encontrando espaços de combate na historiografia. As histórias e as memórias dos dissidentes comunistas inserem-se numa longa empreitada, e conhecê-la se faz ainda mais necessário no momento em que os processos democráticos latino-americanos lidam com graves impasses neste início de século XXI.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional.