Isabel: uma princesa de carne e osso

Em 30 de agosto de 2016 às 07:00.

compartilhe

Artigo que aborda sobre a vida da princesa Isabel, a libertadora dos escravos. Neste, é contado como ocorreu o processo de libertação do elemento servil no Brasil pouco antes de 1888, como a princesa era retrata pela imprensa em uma sociedade dividida à época da abolição e, também, mostra imagens fotográficas que revelam um pouco mais de uma senhora quase reclusa.

Por Roderick J. Barman

Para uns, ela é “A Redentora”, uma Virgem Maria de segundo escalão, por ter abolido a escravidão. Mas, por causa do seu catolicismo fervoroso, outros a consideram uma beata ignorante e reacionária. A verdade é que ideias tão diferentes a respeito da princesa Isabel dificultam a tarefa de dar vida à herdeira do trono que por tantos anos pertenceu a Pedro II.

Se D. Isabel estivesse viva hoje, não seria uma mulher de chamar atenção na rua. Não era nem bela nem sedutora, longe disso. Era baixinha e atarracada, com um rosto comum, e, para piorar, não tinha sobrancelhas e seu cabelo era ralo, provavelmente em consequência de uma doença durante a juventude. “Ela certamente não é bonita”, admitiu o futuro marido, após o primeiro encontro entre os dois. A idade piorou ainda mais sua aparência, ao engrossar seu corpo e inchar seu rosto. “Aquela medonha condessa d’Eu” foi o comentário de um observador, em 1891. Os vestidos elaborados e os chapéus elegantes, que tanto enfeitavam as mulheres da época, tornavam sua aparência ridícula. No entanto, nas palavras do marido de uma tia, era muito distinta, aristocrática até a raiz dos cabelos. Era também desembaraçada, fluente tanto no português quanto no francês, ambos falados com o sotaque da Casa de Bourbon-Nápoles, a família de sua mãe.

Quanto à personalidade, D. Isabel era direta e enfática. Sabia o que queria e não tinha medo de expressar suas opiniões. Como disse seu pai em 1863, “a Izabel parece que ha de ser imperiosa” – previsão que não se cumpriu, pois suas atitudes não correspondiam às suas opiniões. De natureza convencional, faltava-lhe a determinação e a firmeza de vontade necessárias para que pudesse desconsiderar as normas sociais da época. Como por instinto, ela se dobrava às normas vigentes, permitindo de bom grado que sua vida fosse moldada por dois homens: o pai e o marido.

O relacionamento entre D. Isabel e o pai era complexo. Por um lado, discutiam com frequência, e ela o desafiava com uma audácia que encantava o imperador, já que de todos os demais ele podia esperar obediência e respeito. “Eu adoro a minha filha”, disse em certa ocasião. Por outro, ele sabia que numa situação de confronto, ela acabaria por ceder e obedecer. Em 1864, Isabel casou-se com o marido escolhido pelo pai. Também sob suas ordens, voltou ao Brasil em 1873 para o nascimento de seu primeiro filho, tristemente natimorto. Nos anos seguintes, a relação entre os dois se modificou, mas D. Isabel nunca procurou afirmar uma presença pública independente de seu pai, nem mesmo em 1888, quando os problemas de saúde de Pedro II ofereceram oportunidade e justificativa para que ela assim procedesse. A postura de filha devota jamais foi abandonada.

Completamente diferente foi o relacionamento de D. Isabel com o marido, Gaston d’Orléans, o conde d’Eu. Apesar do mito de que o casal escolhera um ao outro, cartas particulares do período mostram que o casamento foi arranjado segundo a vontade do imperador. A cerimônia ocorreu apenas seis semanas após o primeiro encontro dos dois, mas, ao que parece, eles se apaixonaram rapidamente, e assim permaneceram até a morte de D. Isabel, 55 anos mais tarde. Suas personalidades eram complementares e garantiam o equilíbrio do casal. O conde d’Eu era um marido tradicional, mas tratava D. Isabel com um carinho e um cuidado que não dedicava a mais ninguém. Ela, por sua vez, nunca contestou a supremacia do marido e rapidamente aprendeu a lidar com ele, que passou a depender do apoio e do conforto da esposa durante suas constantes crises de depressão e doenças, todas possivelmente causadas por sua dificuldade em lidar com o estresse.

Dois fatores explicam a submissão da princesa a esses dois homens exigentes. O primeiro desses fatores ela confiou a seu sogro em 1876. Segundo suas próprias palavras, ela nunca tendia “a ver as coisas totalmente pretas”, e não sabia se esse era um bom ou um mau hábito. No entanto, considerava uma sorte ter conseguido conservá-lo. O segundo fator está ligado às crenças religiosas da princesa, que era devota de uma forma bastante convencional até que trágicos acontecimentos tornaram a religião o centro de sua existência.

Em fevereiro de 1871, a princesa Leopoldina, a única dos irmãos de D. Isabel que ainda estava viva, morreu de febre tifoide. Isabel estava presente no momento da morte, e escreveu para a mãe: “Basta-me a desgraça horrível por que passei, a maior que tenha tido até agora.” Em agosto do mesmo ano, a princesa sofreu o primeiro de uma série de abortos naturais que, durante os seis anos seguintes, amarguraram sua vida. Em julho de 1874, depois de uma gravidez bem-sucedida, um trabalho de parto de 50 horas resultou na morte do primogênito. Em 1875, ao dar à luz seu segundo filho, os músculos do ombro esquerdo do bebê foram tão danificados durante o parto que o braço esquerdo da criança ficou completamente inutilizado. Após tantos abortos e dois partos com sérias complicações, D. Isabel precisava do consolo e do conforto encontrados na religião. O segundo e o terceiro filhos do casal real nasceram em 1878 e 1881, mas em nenhum dos casos a gravidez foi livre de complicações.

A falta de sucesso de D. Isabel como herdeira do trono e regente durante os três períodos de permanência de seu pai no exterior pode ser parcialmente explicada por todas essas desgraças. Além disso, a educação que ela receberia, nas palavras do próprio Pedro II, “não deve diferir da que se dá aos homens, combinada com a do outro sexo, mas de modo que não sofra a primeira”. Essa educação, tão grandiosa em sua extensão quanto confusa em seu conteúdo, reforçou em D. Isabel as normas que determinavam o papel da mulher naquela época. Ela enxergava o mundo do conhecimento como território dos homens, em geral, e de seu pai, em particular. Outro agravante foi o fato de o imperador jamais tomar qualquer medida para educar sua herdeira nos assuntos de Estado, fossem eles políticos ou administrativos, postura que só foi mudada após o casamento da princesa com o conde d’Eu.

O que aumentava a alienação da princesa em relação ao mundo das questões públicas era o fato de que, embora não fosse burra, tampouco podia ser considerada uma intelectual. Ideias abstratas não tinham o menor interesse para ela. O que despertava sua atenção era o mundo visual, principalmente o das plantas. À época de seu casamento, ela colecionava variedades de orquídeas, que costumava retratar em pinturas. Juntamente com o marido, foi responsável pela organização de diversas exposições botânicas em Petrópolis, a capital de verão do Império, onde o principal legado do casal é o Palácio de Cristal, concebido para abrigar as exposições. O que D. Isabel provavelmente mais sentiu no exílio foi a distância das plantas e da paisagem do Brasil. Em sua primeira viagem à Europa, em 1865, escreveu: “Ainda não vi nada de semelhante ao Brasil quanto à natureza”. Sua predileção por assuntos tradicionalmente femininos – os filhos, a casa, a música, as campanhas de caridade – era coerente com sua visão das questões públicas e do mundo intelectual como prerrogativas masculinas.

A ideia de governar o Brasil não empolgava D. Isabel, que considerou suas três regências mais como um favor ao pai do que como uma preparação para seu futuro reinado. Durante a primeira regência (1871-1872), o visconde do Rio Branco tomou as rédeas. A segunda regência (1876-1877) foi um enorme fardo, especialmente por causa do ressurgimento da Questão Religiosa e dos horrores causados pela Grande Seca no Nordeste. Foi somente durante sua terceira regência (1887-1888), já causada pela enfermidade de seu pai, que D. Isabel assumiu de fato a liderança política esperada de um chefe de Estado. A causa da abolição foi abraçada principalmente porque a escravidão lhe parecia contrária às doutrinas da Igreja Católica. Em março de 1888, ao forçar a renúncia do barão de Cotegipe, presidente do Conselho dos Ministros, e substituí-lo por João Alfredo, a princesa abriu caminho para a Lei Áurea.

A vitória da abolição marcou o fim do seu interesse e do seu envolvimento em questões do Estado. Satisfeita, pôde finalmente retornar à vida privada. O golpe de 15 de novembro de 1889 exilou a princesa de sua terra natal, mas também a liberou de ter que exercer uma função para a qual tinha pouquíssima aptidão.

Roderick Barman é professor catedrático aposentado da University of British Columbia (Canadá) e autor de Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX (Unesp, 2005).