Henry Wyckham, o contrabandista de 70.000 sementes de seringueira

Em 28 de março de 2017 às 08:00.

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Seis dias depois, o cônsul da Inglaterra no Pará, Thomas Shipton Green, disse ao Foreign Office que pedira a Wyckham que fizesse uma estimativa de custo. O viveiro de seringueira seria exatamente onde Henry estava fazendo uma plantação de café, na margem direita do Amazonas, abaixo da cidade de Santarém, local perfeito para por a planta a bordo de uma embarcação.

Entre o final de 1873 e o início de 1874, Henry e Violet rumaram por vários dias, em uma canoa, ao longo do rio Tapajós, de onde se acreditava vir a Pará fine, a borracha de melhor qualidade.

Chegaram a uma fazenda de propriedade de um português. Lá ele deixou Violet e seguiu viagem mais 24 horas rio acima, até o Curupari. Enquanto Henry procurava pela borracha, também plantava, pois nunca trabalhou como empregado, coletou ou vendeu nada a não ser a borracha. No verão ou outono de 1874 o casal voltou ao ponto de partida.

As negociações para a “oficialização” do contrabando foram retomadas quando Henry voltou para Santarém, àquela altura ainda não havia encontrado as lendárias árvores. Em dezembro ele foi autorizado a coletar 10 mil sementes ou mais, pelo preço de dez libras por mil unidades.

Em 1876, decidido a ele próprio coletar sementes, voltou, na companhia de  Violet, a subir o rio Tapajós até Boim, vila comercial na margem oeste do Tapajós. Instalam-se na fazenda de um inglês, no rio Tapajós, local onde, aparentemente, fizeram sua base. Henry deixava Violet no sítio e se embrenhava na mata para coletar semente. Partia às segundas-feiras, só retornando aos sábados. Recolhia-as de todas as maneiras: nas casas comerciais de Boim, comprando e com suas próprias mãos, o que não era garantia de qualidade.

O principal centro de coleta era uma vila chamada  Agumaita. As árvores de lá eram grandes e retas, perfeitas. Lá ele trabalhou com índios tapuias e todos os dias percorria a floresta, de lá trazia balaios indígenas cheios de sementes. Por sorte ou cálculo, foi nessa região que ele coletou as melhores sementes. Em meados de maio ele já tinha coletado 70 mil sementes,  algo improvável se considerarmos as condições adversas que enfrentou.

Mas, como embarcar 70.000 sementes da árvore da borracha para a Inglaterra, se as autoridades brasileiras o haviam advertido para não fazê-lo? Pior, quem o faria?

O vento da sorte soprou em seu favor. O transatlântico SS Amazonas, que estava fazendo a segunda viagem de Liverpool para o alto Amazonas, havia sido despojado por seus comissários que fugiram com a carga que trouxeram. Venderam-na toda, mas não compraram o carregamento de borracha fresca que deveriam levar para a Inglaterra. O capitão da embarcação, Murray, ficou esperando no Rio Negro até o momento em que entendeu que havia sido ludibriado. Esse acontecimento desastroso por certo culminaria com a sua dispensa da empresa proprietária do navio.

Antes de chegar a Manaus o navio parara em frente a Santarém, na oportunidade o transatlântico ofereceu um jantar a bordo da embarcação para a elite de Santarém. Assim, Henry e Violet jantaram no suntuoso salão do navio, ocasião em que conheceram o capitão Murray.

Henry percebeu que o fretamento do SS Amazonas era mais que oportuno. O que parece provável, conforme Warren Dean, é que Henry tenha conseguido convencer o capitão Murray não só a levá-lo, junto com a esposa e a bagagem, acredito. Sabe-se que mais tarde ele pagou a empresa com o dinheiro  que recebeu do Índia Office pelas sementes.

Henry embarcou deixando para trás todos os familiares que ele trouxera. A família de desintegrou por completo e nunca mais voltou a se reunir. John Wyckham sua esposa e filho deixaram o Brasil dois anos depois, foram para o Texas, lá ele se tornou fazendeiro de gado. O viúvo de sua irmã voltou para Londres e retomou a profissão de advogado.

Henry embarcou as sementes no porão do transatlântico, fora da vista de Santarém, na confluência do Tapajós e do Amazonas, nessa operação contou com a ajuda fundamental do cônsul da Inglaterra no Pará, Thomas Shipton Green. Henry e Violet partiram com as sementes escondidas. O casal passou pela alfândega de Belém com as “amostras botânicas delicadas destinadas ao jardim da rainha Vitória”.