Henry Wickham, o cavaleiro do Império Britânico

Em 4 de abril de 2017 às 08:00.

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Em 10 de junho de 1876, o transatlântico SS Amazonas chegou a Liverpool. No dia 14 do mesmo mês, levando consigo uma pequena sacola com sementes, Henry chegou ao Royal Botanic Gardens de Kew, a famosa instituição britânica com 250 anos de história no estudo da botânica. Lá foi recebido por Joseph Hooker, diretor da secular instituição, para quem contou sua aventura na Amazônia e sobre as 70.000 mudas de semente que havia trazido.

Em 19 de junho os primeiros brotos germinaram, em 7 de julho, mais de 2.700 grelaram e foram plantadas em vasos. Em 20 de agosto, o jornal Evening Herald noticiou, sem alarde, que “uma boa quantidade deles começou a crescer imediatamente, e muitos atingiram a altura de 45 centímetros em poucos dias”.

As árvores de Wickham foram enviadas de Kew para o Ceilão (atual Sri Lanka), Cingapura, Malásia, Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia), Indochina (região que hoje corresponde ao Vietnã, Laos e Camboja) e outras regiões mais. Em 1882 a Hevea começou a produzir sementes no Ceilão. Em 1893, 91.000 sementes foram vendidas a cinco rupias o milheiro e, em 1898, 434 quilos de semente foram exportados pelo Ceilão.

No fim da década de 1890, não pairavam mais dúvidas sobre a Hevea brasiliensis. Plantar em solo encharcado, por exemplo, comprovou-se ser um erro e o espaçamento inicial de 350 árvores por hectare, revelou crescimento mais rápido. Os métodos de extração foram aprimorados e, iniciar a extração aos sete anos, revelou-se possível e mais lucrativo. A machadinha foi substituída por facas que cortavam a casca em finas porções e a repetida excisão da mesma porção da casca resultava em maior fluxo de preciosos líquido. Constatou-se, ainda, que a árvore podia ser sangrada em dias alternados durante o ano inteiro, obtendo-se uma produção anual de aproximadamente um quilo por árvore, produção essa que crescia à medida que a árvore se tornava adulta.

O resumo da vida desse inglês desastrado e quixotesco, obcecado com sonhos de grandeza, que supunha que o roubo das sementes era uma ação nobre em prol do bem comum da “humanidade, do império britânico e da rainha”, é que, com a ajuda do consulado britânico em Belém, conseguiu contrabandear para a Inglaterra, com sucesso, 70.000 sementes da Hevea brasiliensis.

A biopirataria de Wickham teve muitos desdobramentos, além da ruína econômica amazônica, deu à Inglaterra o monopólio global sobre um produto estratégico.

Apesar dos serviços prestados à rainha, Henry não viu recompensado o seu feito e tampouco teve reconhecimento de pronto, ao contrário, foi esnobado pela aristocracia britânica por não ter educação formal e teve barrada sua ambição de coordenar as plantações de borracha nas colônias asiáticas pelo diretor do Jardim Botânico, que o considerava um picareta. Seu espetacular feito rendeu-lhe, tão somente, 700 libras.

Depois disso ele perambulou por Belize, Austrália e Papua Nova Guiné, onde voltou a colecionar fracassos, até ser abandonado pela esposa em Nova Guiné, numa região habitada por canibais.

Trinta e sete anos depois, quando as árvores nascidas das mais de 2.700 sementes germinadas passaram a produzir a rica seiva, ele conseguiu, enfim, provar que estava certo.

Finalmente em 1920 seu feito teve reconhecimento, quando recebeu da rainha Vitória o título de Cavaleiro do Império Britânico. A partir de então, o filho de uma família de classe média, empobrecida de repente por causa da morte súbita do pai advogado, que convenceu toda a família a se mudar para Santarém, lugar onde tentou estabelecer uma plantação de seringueiras, mas que viu seu projeto fracassar; que em três anos viu sua mãe, sua irmã e a sogra de um irmão morrerem, passou a ser tratado por sir Henry Wickham e a ser conhecido como o pai da indústria da borracha.

Sir Henry Wickham morreu em Londres, no dia 27 de setembro de 1928.