Dossiê: História & Saúde no Brasil

Em 24 de maio de 2016 às 07:00.

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No dossiê, entenderemos melhor como as epidemias de doenças como varíola, febre amarela, malária e gripe espanhola, se alastraram pelo Brasil e ceifaram vidas em tempos que remontam o século XVI se estendendo até meados do século XX.

As Endemias e Epidemias que surgiram ao longo de nossa História nos ajudam hoje a compreendermos como se estruturou o sistema de saúde pública no país e o sistema de prevenção de doenças.

Por Aleidys Hernández Tasco e Cristina de Campos

A febre amarela chegou ao Rio de Janeiro em 1849 e logo se tornou um problema complicado para as autoridades sanitárias. Mas apenas com a chegada de Francisco Rodrigues Alves à presidência da República (1902-1906), a saúde pública é encarada como tema do debate político. O novo governo anuncia o propósito de combater eficazmente as doenças, não apenas com o intuito de melhorar a imagem pública do Brasil no estrangeiro, mas também para impedir a redução da imigração, elemento que então era essencial para a economia cafeeira, como demonstrou Jaime Larry Benchimol, entre outros pesquisadores.

Oswaldo Cruz, médico brasileiro, formado em microbiologia no Instituto Pasteur, foi o escolhido por Rodrigues Alves para liderar a campanha contra as doenças epidêmicas. Durante 1903 e 1907, Cruz concentrou-se na peste, na varíola e na febre amarela. Para esta última, preparou medidas estratégicas de ação: o extermínio sistemático do Aedes aegypti, conseguindo em quatro anos (de 1903 a 1907) debelar a doença que assolava a capital brasileira havia mais de 50 anos e já tinha sacrificado cerca de 60 mil vidas. Campanhas semelhantes foram eficazes para o saneamento de outras regiões do Brasil, como Vitória, Manaus e o estado do Pará, alcançando os mesmos resultados, permitindo afirmar que a doença estava regredindo.

Contudo, na década seguinte, a febre amarela mostrava resistência no Norte do país. Em 1923, a Fundação Rockefeller (FR), instituição filantrópica estadunidense, fez um acordo com o governo brasileiro para orientar a solução do problema da luta contra a doença no Brasil. Joseph White, que dirigia a campanha contra a febre amarela do conselho sanitário da FR –, iniciou essa tarefa com investigações e medidas de combate ao mosquito em todas as principais cidades do litoral entre o Estado do Rio de Janeiro e o Ceará, excetuando o Distrito Federal.

No entanto, ao não descobrirem evidências da doença, os funcionários da FR não conseguiram encontrar sinais da febre amarela do Ceará até o Sul. Desse modo, a FR concentrou sua atenção nas cidades interioranas das regiões compreendidas entre os estados do Rio de Janeiro e do Amazonas. Segundo a fundação, o declínio da doença era manifesto e, em 1925, a instituição anunciava como certa a proximidade da extinção do mal no continente americano.

Para contrariar a previsão, em 1926, ocorreu um surto no interior dos estados do Nordeste. De acordo com a fundação estadunidense, a causa do surto foi um movimento de tropas não imunes naquele território, mas não era motivo de preocupação. Fred L. Soper (Yellow fever: the present situation (October 1938) with special reference to South America) comenta que, no mesmo ano, o otimismo pelo extermínio da febre amarela voltou a aparecer, dado que o mal no Norte do Brasil era considerado em via de extinção, não sendo mais necessários gastos com recursos e técnicos para a América Latina.

Críticas nacionalistas

Não obstante, a febre amarela parecia um problema sem fi m. Em meados de 1928, abalou os estados de Sergipe e Pernambuco. Nove casos também foram registrados em Salvador. A FR combateu rapidamente esses casos, mas em maio daquele ano o otimismo da erradicação da febre foi abalado rapidamente pela descoberta de casos na capital do Brasil, onde a doença não fora detectada após a memorável campanha de Oswaldo Cruz. Nesse momento, não existia nenhuma explicação satisfatória para esclarecer como o vírus poderia ter chegado à capital, visto que “o Rio de Janeiro estava a quase mil quilômetros do ponto mais próximo em que os casos haviam sido observados durante os últimos 12 meses” (Soper). O episódio ilustrou como essa primeira tentativa de erradicar a febre amarela no Brasil (1923-1928) havia fracassado.

A ocorrência inesperada da epidemia de 1928-1929 no Rio de Janeiro, seguida da reaparição da doença em várias localidades brasileiras, levou a um questionamento dos princípios da base da campanha mantida pela FR, prestando maior atenção aos conhecimentos epidemiológicos e patológicos acumulados pelos médicos brasileiros.

Antes de começar a epidemia de febre amarela em maio de 1928 no Rio de Janeiro, Sebastião Barroso, diretor do Serviço de Profilaxia Rural do Departamento de Saúde Pública, destacava que a FR tinha sido uma entidade importante na orientação de estudos e das práticas de higiene modernas, mas em questões de febre amarela, não tinha a última palavra. Segundo Barroso, a eliminação da doença no Norte do país demorava por causa dos erros da FR, cujos técnicos se recusavam a usar os modelos brasileiros contra a doença. A rejeição à FR foi intensificada quando a Febre Amarela reapareceu no Rio de Janeiro. Os médicos culparam o poder público pela volta da enfermidade, alegando que as autoridades não tinham mantido a campanha de combate clássica e permitido a ingerência de um país estrangeiro.

Não era de se esperar outra reação. A FR era considerada líder no campo da febre amarela e mesmo assim, não conseguia extinguir a moléstia nos estados mais ao norte do Brasil, embora se mostrasse tranquila e insistisse em anunciar que a doença estava sendo erradicada do mundo inteiro. Essa suposta extinção da febre amarela trouxe consequências às políticas públicas do Brasil. O diretor do Departamento de Saúde Pública e o presidente (1922-1926) Artur Bernardes, entusiasmados pela FR, acreditaram de fato que o problema havia sido resolvido e que o dinheiro usado para o serviço de mata-mosquitos no Rio de Janeiro poderia ser empregado em outros assuntos, pois parecia ser um gasto em vão com uma doença que parecia extinta, como salientou José de Toledo Piza, em edição de agosto de 1928 da Revista Brasil Médico.

A principal crítica dirigida à FR foi o abandono das pequenas cidades do interior brasileiro, concentrando-se nas grandes ao norte. Esse modelo correspondia à teoria publicada por Henry Rose Carter (1914), sanitarista da Rockefeller, que condensou os conhecimentos acumulados nas campanhas de Havana e do canal de Panamá, formulando a teoria dos centros-chaves, a qual serviu de base para diversas campanhas contra a febre amarela durante as primeiras décadas do século XX. Com o surto do Rio de Janeiro, a teoria caiu em total descrédito, pois acreditava-se que o mal havia sido importado de cidades interioranas fora do foco da Rockefeller.