Xica da Silva – um mito brasileiro

Em 24 de novembro de 2017 às 07:00.

compartilhe

O que a invenção da personagem tem a dizer sobre a mentalidade do Brasil.

Por Dimalice Nunes

Existem duas mulheres cujo nome tem o mesmo som, mas grafias e significados diferentes. Uma é Xica com xis. A escrava que venceu todo tipo de dificuldade para se tornar uma das mais poderosas mulheres da América de seu tempo. A devoradora de homens que, por meio de sua irresistível magia sexual e pura força de caráter, pôs de joelhos uma das figuras mais poderosas da era da mineração. Com o que conseguiu inimagináveis privilégios – como uma igreja só para ela depois que foi, por sua cor, barrada da capela local. Uma mulher que imporia sua aceitação pela sociedade branca, numa vingança, exibindo a força de uma sensualidade que as europeias não tinham.

E há a Chica com eh. A figura histórica, não a fantasia de carnaval. Assim como seu nome respeita a ortografia da língua portuguesa, sua vida está dentro das possibilidades da realidade do século 18. Não contestadora, nem vítima. Uma mulher de sua época, cuja história seria usada para construir um mito, parte importante da própria identidade da nação brasileira. Mas um mito que ainda assim precisa ser revisto.

HISTÓRIA TÍPICA

Francisca da Silva de Oliveira nasceu no povoado de Milho Verde, no Arraial do Tijuco, região que hoje é a cidade mineira de Diamantina. A data é imprecisa, entre 1731 e 1735.

Era filha de branco português, o capitão do Exército Antônio Caetano de Sá, e da negra Maria da Costa, que veio da África ainda criança, da Costa da Guiné. Como a mãe não havia sido alforriada e a relação era ilegítima, pouco importavam seus genes europeus, ela herdou a condição de escrava.

Minas Gerais havia surgido numa corrida do ouro e pedras preciosas, menos de quatro décadas antes. O Brasil colonial era visto como uma terra hostil pelos portugueses, quente demais e civilizado de menos. Era uma aventura, não um lar. Não um lugar para onde alguém traria uma esposa europeia para constituir família. A maioria das mulheres eram índias, nativas, e negras, que não estavam aqui por opção. Os portugueses se relacionavam com elas por serem quem estava disponível.

O censo de 1738 da comarca do Serro do Frio, que incluía o distrito diamantino, revela que, do total de 9.681 habitantes, 83,5% eram homens e 16,5%, mulheres. Entre os escravos, o sexo feminino representava apenas 3,1%, já que o trabalho da mineração era prioritariamente desempenhado por homens. Mas, entre os forros, a proporção se inverte e as mulheres são maioria. O mesmo documento informa que, dos 387 forros, 63% eram do sexo feminino, contra 37% do sexo masculino.

A razão ficará clara em breve. Chica era escrava de Manuel Pires Sardinha, que a tomou por amante quando ela ainda era adolescente.

Foi com ele que Chica teve seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha. “Ao contrário do que sempre pensamos, havia muitas ‘Chicas’ na região e no período; ela apenas foi a mais paradigmática. Quase todos os homens brancos na área diamantina e do ouro eram amasiados publicamente com negras”, afirma Ana Miranda, autora do mais recente livro sobre a vida de Chica, Xica da SilvaA Cinderela Negra.

Como conta a escritora, escravas de 12 ou 13 anos já eram, para todos os fins, mulheres adultas. Pelo trabalho extenuante que desempenhavam, e também pela situação degradante de abusos sexuais a que eram submetidas. “Esse sofrimento redundava em maturidade ou, algumas vezes, em malícia, astúcia e dissimulação.”

Em 1753, com pouco mais de 20 anos, Chica foi comprada por João Fernandes de Oliveira, recém-chegado negociante de diamantes. Era comum na época que senhores de escravos alforriassem suas amantes – depois de anos, não em dois meses, como no caso dela. Imediatamente, a relação dos dois passou a ser pública.

Nessa parte, costuma entrara narrativa da sedução, da “compra” da alforria por meio do poder sexual. A historiadora Júnia Furtado, professora da UFMG e autora de Chica da Silva e o Contador de Diamantes, acredita que não era assim. João Fernandes teria tido desde sempre a intenção de comprar uma esposa, antes de fechar negócio. Tanto que o casal viveu junto por 17 anos e teve 13 filhos. Quando ele mudou-se para Portugal, levou seus filhos homens.

CONSTRUINDO XICA

A história de Chica da Silva sobreviveu exclusivamente na cultura oral por mais de 100 anos. Até 1868, quando o advogado diamantinense Joaquim Felício dos Santos, que trabalhou para seus descendentes, escreveu sobre ela em suas Memórias do Distrito Diamantino.

O mito de Xica da Silva surgiu bem diferente do que conhecemos hoje. Era uma figura grotesca. Assim a descreveu seu autor: “Tinha as feições grosseiras, alta, corpulenta, trazia a cabeça raspada e coberta com uma cabeleira anelada em cachos pendentes, como então se usava; não possuía graça, não possuía beleza, não possuía espírito, não ti­ vera educação, enfim não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão”.

Segundo a historiadora Júnia Furtado, o autor reconstruiu a personagem conforme a visão que predominava em sua época, projetando suas impressões sobre o século anterior. Joaquim Felício se baseou em cenas de seu cotidiano social, em que a mulher e a família deviam seguir à risca a moral cristã, e onde imperavam os preconceitos contra ex-escravos, mulheres negras e uniões consensuais – isto é, fruto da paixão, não do acordo entre as famílias. Era natural para ele, naquele contexto, demonizar a relação entre Chica e seu companheiro, descrevê-la como a encarnação de todos os estereótipos negativos da mulher negra: perversa, hipersexualizada, manipuladora e autoritária. Mas a versão popular, livre desses traços moralizantes, continuou viva no mito. Nos anos 1950, em Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles escreveu: “Nem Santa lfigênia, toda em festa acesa, brilha mais que a negra, na sua riqueza. Contemplai, branquinhas, na sua varanda, a Chica da Silva, a Chica-que-manda!”. Surgem aqui os traços de uma mulher voluntariosa, que apostava na ostentação, e tinha todos os desejos realizados pelo contratador de diamantes.

Mais de um século depois, o sobrinho-neto de Joaquim Felício, João Felício dos Santos, revisitou a história e escreveu, em 1976, Xica da Silva, já com xis, romance que serviu de inspiração para o filme de Cacá Diegues, realizado no mesmo ano. Segundo Júnia, João Felício reatualiza o mito e lhe atribui características ainda mais ao gosto da liberação sexual da década de 1970. A sexualidade, no lugar de torná-la um monstro, fazia dela libertadora.

De uma lenda da cidade de Diamantina, Xica da Silva tomou o país. “O cinema democratizou o mito e o tamanho da tela foi proporcional às dimensões que ele alcançou tanto no Brasil como no exterior”, diz Júnia Furtado. O filme modificou até agrafia do nome e fez com que a figura da ex-escrava se mantivesse eternamente associada à sensualidade e à beleza. E rompeu definitivamente a imagem detestável que Joaquim Felício compusera e que a historiografia ainda não havia contestado.

“Por não estar vinculado a essa tradição, e tendo como missão conquistar o espectador, o cinema, ao enfatizar a sensualidade da mulher negra, construiu um mito que se ajustava ao imaginário coletivo da época”, conclui a historiadora. A novela da extinta Rede Manchete, de 1996, reforçou essa imagem.

MÃE EXEMPLAR

Das Memórias de Joaquim Felício à novela, Chica da Silva sempre foi descrita como lasciva e dominadora, uma mulher insaciável e capaz de controlar qualquer homem com o poder de seu corpo. Mas façamos um teste de realidade aqui: o período da vida de Chica descrito na literatura, no cinema ou na TV é aquele em que ela viveu com João Fernandes, o contratador de diamantes. Foram 17 anos em que ela teve 13 filhos. Faça as contas: ela esteve grávida por mais da metade de todos os dias passados no período.

Documentos de instituições de ensino atestam o cuidado de Chica e João Fernandes com a educação formal dos filhos. Enquanto os quatro meninos frequentaram a escola na infância e seguiram com os estudos até a universidade, depois que foram como pai para Portugal, as nove meninas foram internadas no Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Monte Alegre de Macaúbas, o melhor educandário da capitania, destinado às filhas da elite mineira.

Após sua partida, João Fernandes deixou para Chica bens suficientes para que ela e as filhas vivessem com conforto até o fim dos seus dias. Não há registros de quaisquer outros relacionamentos amorosos.

Note-se a história de uma mãe e dona de casa exemplar para os padrões da época e, dadas as vicissitudes da biologia, provavelmente com um aspecto bem mais caseiro que as sex symbols da TV e do cinema. E, mesmo sendo assim tão dedicada, a inserção dessa mulher exemplar na sociedade branca não foi tão fácil quanto nos filmes. Segundo os estudos de Júnia Furtado, percebe-se a desigualdade do relacionamento entre Chica e João nas certidões de batismo dos filhos. Lá constam nomes de padrinhos pouco notáveis socialmente, o que não era razoável diante da riqueza do casal. Isso quer dizer que ninguém da alta sociedade quis se comprometer batizando os mestiços. Além disso, documentos importantes omitem o nome de Chica como intuito de apagar a ascendência africana dos filhos do casal.

A fama não veio tampouco da rebeldia, de uma personalidade explosiva. Os registros históricos levantados por Júnia Furtado mostram que Chica buscava a inserção mais convencional possível. Ela adotou ao máximo os valores da elite para poder pertencer a ela de alguma forma, inclusive sendo proprietária de escravos. Os registros apontam que ela chegou a ter 100 deles e teria alforriado quase nenhum.

Como conta Júnia, as escravas forras como Chica procuravam imitar os hábitos e costumes das mulheres brancas, reproduzindo, nunca renegando, o mundo daqueles que a submeteram à escravidão. Nesse sentido, a alforria não tem papel de afirmação de identidade, mas de início de um processo de inserção no mundo dos brancos. “Sua trajetória revela a tentativa de branqueamento como forma de se inserirem mais favoravelmente na sociedade preconceituosa que, longe de ser uma democracia racial, apresentava mecanismos de exclusão baseados na cor, na raça e na condição de nascimento”, explica Júnia em seu livro.

Nem a sensualidade nem a força do caráter, mas o dinheiro. Esse foi, sem dúvida, o maior aliado de Chica. Dinheiro não tem cor. Ser membro de irmandades religiosas era parte das funções de uma mulher colonial honrada, e Chica cumpriu a exigência à risca. Foi por meio de gordas doações que ela se associou não a uma, mas a quatro irmandades religiosas: as do Carmo e de São Francisco de Assis, que eram exclusivas para brancos; das Mercês, reservada aos mestiços; e do Rosário dos Pretos, o domínio dos negros.

Chica da Silva morreu em 1796 e foi enterrada na igreja de São Francisco de Assis, que só admitia brancos endinheirados. Os historiadores afirmam que essa honra final talvez seja o principal indício do quanto Chica da Silva conseguiu se inserir na elite da sociedade.

O ELEFANTE NA SALA

Xica da Silva, o mito, participou da reafirmação de outro mito muito caro ao nacionalismo brasileiro – a democracia racial. A ideia de que o racismo é inexistente ou ir relevante por aqui. “A sustentação simbólica desse mito de nação passa pela seleção de símbolos que reforçam a crença na fraternidade racial, marcada por uma suposta igualdade nas relações sociais. Chica da Silva é um desses casos”, explica a socióloga Flávia Rios, especialista em relações de gênero e raça e estudiosa de mulheres negras na história do Brasil.” É ainda mais mar cante porque envolve a dimensão íntima e sexual das relações raciais no Brasil.”

A representação de Chica por meio de Xica também foi parte da construção da imagem da mulher negra no Brasil. Como explica Flávia, “ela é nossa matriz nacional da feminilidade negra, e esse padrão estético a inda marca o imaginário publicitá­rio”. Segundo a socióloga, a Xica com xis – e o que surge daí – é um problema: “Combater esses estereótipos, penso, faria emergir variadas experiências de vivência das mulheres negras”, conclui.

O tema da democracia racial também é abordado por Júnia Furtado em se u livro. Para a historiadora, “sob o manto de uma pretensa democracia racial, sutil e veladamente a sociedade mestiça procurava se branquear e escondia a fria exclusão social e racial”. A suposta ostentação de Chica maquia os detalhes sobre as injúrias que sofreu.

A tentativa de branqueamento acompanhou seus descendentes. O destino de seus filhos foi paradoxal. Houve ocasiões em que a fortuna que herdaram, assim como a importância do pai e dos ascendentes paternos, foram determinantes. Em outras, a cor que herdaram da mãe e sua condição de ex-escrava pensaram negativamente. “Por mais fluida que parecesse ser, a sociedade em que viviam ainda valorizava a situação de nascimento, estigma que era transferido por diversas gerações”, afirma Júnia.

João Fernandes de Oliveira Grijó, o primogênito masculino, é um caso exemplar. Foi nomeado o principal herdeiro de seu pai e recebeu dois terços de tudo que ele deixou quando morreu. Como seu pai tinha por meta dar prosseguimento ao processo de tornar a família cada dia mais notável, as cláusulas de sucessão impediam o livre casamento até os 30 anos, e eles seriam obrigados a se casar com mulheres mais nobres do que eles mesmos. Grijó se casou com 28 anos com uma filha de lavradores. Mesmo contrariando a vontade explícita do pai, o casamento foi autorizado pelo governo português. Sob dois argumentos: o primeiro, de que a noiva estaria grávida e era necessário reparar sua honra. O segundo, o que importa aqui, foi que, em sua condição de mestiço, seria praticamente impossível conseguir um casamento como o exigido pelo pai, com uma moça branca e nobre.

Quanto às filhas, conseguiram, como a mãe, se casar com jovens brancos. A herança recebida do pai foi suficiente para o pagamento dos dotes. E, ainda assim, algumas delas jamais legitimaram suas relações.

Ao longo dos anos, e até bem recentemente, Xica da Silva foi encarada como uma história exemplar daquilo que é supostamente único e positivo no caráter nacional brasileiro. Sua história mostrava que tudo era possível no país da democracia racial. Sua mística sexual falava a certo romantismo exótico, dos mestiços como uma espécie de produto do terroir nacional. Da figura carnavalesca da “mulata” – essa é a única vez que a palavra apareceu na matéria, e por boas razões.

A nova Chica, com ch, surge da revisão de velhas ideias que o Brasil tinha a respeito de si próprio. “Quanto mais avança a produção científica, mais sabemos dos processos sociais que produzem diferenças e desigualdades raciais na formação de nossa nação”, conclui Flávia Rios.

Revista Aventuras na História.