As revoluções militares e o surgimento do estado-maior

Em 4 de outubro de 2016 às 07:00.

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Matéria de Pedro Henrique Luz Gabriel sobre um breve estudo do surgimento da origem do estado maior na história militar. Nas revoluções militares, o estado-maior constitui em algo maior e mais complexo do que uma simples organização funcional à disposição do comandante.

Por Pedro Henrique Luz Gabriel

Pouco se encontram publicados, mesmo na historiografia militar, textos sobre a origem dos estados-maiores e seu desenvolvimento. Essa constatação foi realizada pelo menos dois autores, o historiador norte-americano J.D.Hitle, no prefácio de seu livro de 1944, e o argentino Jorge Ariel Vigo (2005 p.7). O lapso temporal de 61 anos entre as duas obras é um indício de como o  assunto é pouco explorado, ao menos diretamente.

O surgimento do estado-maior na história militar ocorreu, como fora mencionado por Hitle (1944) no prefácio do seu livro, ainda que de forma simbólica, no primeiro momento em que “um chefe guerreiro solicitou ajuda ou conselho de um de seus beligerantes”. Essa é a lógica que orienta a existência do estado-maior, a do conselho, do assessoramento, correspondendo até os dias atuais a uma, se não a principal, de suas funções. O já mencionado Jorge Vigo (2005), em sua introdução, afirma que os líderes e comandantes dos exércitos, fossem eles os próprios reis, imperadores, monarcas ou mesmo os generais, se valiam de algum tipo de conselho para planejar as operações, executá-Ias e exercer o controle sobre os exércitos ao longo das campanhas e nos embates propriamente ditos. No entanto essas são afirmações de cunho filosófico e não histórico, uma vez que é realmente difícil precisar em que momento efetivamente foi instituído o estado-maior.

Em seu estudo sobre o estado-maior, Vigo (2005, p. 7) compreendeu que este se constituía em algo maior e mais complexo do que uma simples organização funcional à disposição do comandante, mas este seria possuidor de um lugar próprio na história militar, como as armas e os serviços’, e que, de forma similar a estes, havia experimentado um processo evolutivo ao longo do tempo, da mesma forma que a infantaria, a cavalaria ou a artilharia. Assim o estado-maior, como parte da estrutura organizacional dos exércitos, é um componente a ser estudado para a compreensão da evolução do pensamento militar ocidental, pois suas origens estão arraigadas na própria história bélica do ocidente.

Nesse sentido, este artigo se propõe a realizar um breve estudo do surgimento do estado-maior moderno, utilizando-se como pouco se encontram publicados, mesmo na historiografia militar, textos sobre a origem dos estado-maiores e seu desenvolvimento. Essa constatação foi realizada por ao menos dois autores, o historiador norte-americano J. D. Hittle, no prefácio de seu livro de 1944, e o argentino Jorge Ariel Vigo (2005, p. 7). O lapso temporal de 61 anos entre as duas obras é um indício de como o assunto é pouco explorado, ao menos diretamente.

O surgimento do estado-maior na história militar ocorreu, como fora mencionado por Hittle (1944) no prefácio do seu livro, ainda que de forma simbólica, no primeiro momento em que “um chefe guerreiro solicitou ajuda ou conselho de um de seus co-beligerantes”. Essa é a lógica que orienta a existência do estado-maior, a do conselho, do assessoramento, correspondendo até os dias atuais a uma, se não a principal, de suas funções. O já mencionado Jorge Vigo (2005), em sua introdução, afirma que os líderes e comandantes dos exércitos, fossem eles os próprios reis, imperadores, monarcas ou mesmo os generais, se valiam de alguma base os conceitos de “Revoluções Militares” e “Revoluções em Assuntos Militares” (RAM), uma vez que tais conceitos possuem a capacidade de sintetizar a evolução da arte da guerra sob o ponto de vista do pensamento militar ocidental. Procurou-se manter o foco de análise na identificação da incorporação do estado-maior na doutrina militar, ou seja, no momento em que este teve as suas funções sistematizadas. A evolução da arte da guerra é um tema complexo e extenso, pois está imerso no próprio processo de construção das sociedades. O conflito, as guerras, as revoltas e revoluções são parte e se confundem com a própria história humana bem como estão sujeitas às influências provenientes das ideologias e mesmo das paixões. No entanto, para que seja possível realizar uma breve apresentação, pressupõe-se que os conceitos de Revoluções Militares e de RAM sejam suficientes para atender ao propósito deste trabalho, mesmo com certo reducionismo que esses conceitos, por vezes, possam apresentar.

Dessa forma, para se atender ao objetivo delineado, de uma forma lógica e sistemática, inicialmente se faz necessário realizar uma breve discussão sobre os conceitos de Revoluções Militares e de RAM. Em sequência, apresentar o surgimento do estado-maior moderno e sua evolução com base nas revoluções militares.

Desenvolvimento Estudiosos da evolução da guerra, entre eles historiadores, militares e altos funcionários da administração pública de diversos países, têm buscado um conceito ou uma teoria que seja capaz de descrever o que ocorre quando a guerra tem seu caráter alterado de tal forma que, na prática, passa a existir um novo tipo de guerra. Comumente tem sido empregada a expressão “revolução”, pois, a partir da ocorrência de tal fenômeno, boa parte das praticas, equipamentos e táticas deixa de existir para dar lugar a uma nova forma de combate.

Para alguns, tais revoluções são frutos de modificações profundas na própria sociedade, como ocorrido na Revolução Francesa de 1789 e a consequente formação do exército revolucionário sob a liderança de Napoleão Bonaparte. Para outros, as Revoluções Militares são fruto das inovações tecnológicas que afetam de forma determinante as características da guerra. A discussão leva a uma série de outros questionamentos, dependendo do foco de análise.

Revoluções Militares x Revoluções em Assuntos Militares, além de uma simples semântica?

Os conceitos de Revoluções Militares e de Revoluções em Assuntos Militares (RAM) possuem origens distintas, mas com significados próximos e que se inter-relacionam.

Essas diferenças e semelhanças entre os conceitos são mais notadas por historiadores do que por militares e, para ambos os casos, possuem utilidade para o estudo da guerra.

Segundo o historiador e professor Leandro José Clemente Gonçalves (2013, p.148-149), o conceito de Revolução Militar é proveniente dos estudos acadêmicos de historiadores britânicos da década de 1950 que se dedicavam a pesquisar o desenvolvimento do Estado Moderno europeu no século XVII. Os estudos do professor Michael Roberts, em 1955, falavam em Revolução Militar a partir da transformação de quatro elementos: a revolução tática, pela mudança dos terços espanhóis, com suas formações em quadrados de piqueiros para formações em linha dos mosqueteiros; a revolução estratégica, pela formação de exércitos permanentes e regulares ao invés de temporários; o crescimento dos exércitos, pela formação permanente de formas regulares e ampliação dos objetivos políticos a serem conquistados com estes exércitos; e o impacto da guerra sobre a sociedade em razão dos custos mais elevados da guerra e pela necessidade de conscrição”.

Outro historiador, o britânico Jeremy Black, sustenta que, para a ocorrência de uma Revolução Militar, esta deveria ser precedida por uma mudança social que a permitisse ocorrer. Cita como exemplo que, somente após superadas as “cisões religiosas da Reforma Protestante e da Contrarreforma Católica é que os governos puderam organizar e disciplinar seus exércitos” (BLACK, 2007, p. 2, tradução nossa).

Além disso, as definições de Revolução Militar ofereceram muitas variações em aplicações da teoria, não somente em termos de duração, conteúdo e impacto, bem como variações na sua utilização entre os níveis tático, operacional e estratégico e entre as dimensões militares e não militares da guerra. As mudanças tecnológicas são apenas parte da história, que pode ser entendida por colocar essas mudanças em um contexto social e organizacional. (BLACK, 2007, p. 2, tradução nossa)

Ou seja, uma Revolução Militar, para ser considerada como tal, teria que ser precedida de uma revolução mais ampla nas sociedades, alterando o próprio curso da história e, portanto, muito além da esfera militar. Essa conclusão, tanto de Gonçalves como de Jeremy Black, não desconsidera o importante papel que os militares, a tecnologia ou a guerra evidentemente possuem no transcurso da história, mas a diferenciação entre o conceito de Revolução Militar e o de RAM é importante, uma vez que não é raro encontrar textos que fazem confusão entre esses conceitos.

De uma forma mais objetiva, em 1994, o analista de política de defesa Andrew Krepinevich escreveu para a revista The National Interest o artigo Cavalry to Computer: the pattern of military revolutions, no qual, segundo ele, uma Revolução Militar: [ … ] é o que ocorre quando há a aplicação de novas tecnologias em um número significante de sistemas militares combinados com conceitos operacionais inovadores e adaptação organizacional de tal ordem que altera fundamentalmente o caráter e a condução dos conflitos (KREPINEVICH, 2008, p. 364).

O autor traz ainda a ideia de que uma Revolução Militar deve trazer, obrigatoriamente, um alto ganho de eficácia militar, uma vez que tem de ser capaz de produzir uma vantagem de tal ordem que altere a própria guerra. De qualquer forma, uma Revolução Militar depende de uma alteração social de maior vulto, cujos impactos sobre as forças militares as colocam, via de regra, em vantagem sobre as demais.

Já o conceito de RAM, segundo Gonçalves (2013, p. 150), deriva (io antagonismo bipolar da Guerra Fria, quando, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), os chefes do Estado-Maior Nikolai Orgakov e Segei Akhromeyev desenvolveram o conceito de “Revolução Técnico-militar”, que estaria em curso pelo desenvolvimento de armas de alto grau de precisão e letalidade devido ao emprego de tecnologia de ponta dos países do bloco ocidental (Estados Unidos e integrantes da OTAN). A estratégia da OTAN e dos EUA para um possível conflito. convencional” com a URSS na Europa Ocidental, devido ao maior efetivo de pessoal e veículos blindados do bloco comunista, era compensar tal defasagem numérica com o desenvolvimento de armas superiores em qualidade, ou seja, com larga aplicação de tecnologia tornando os sistemas de armas, o comando e controle (C2), a inteligência e as comunicações muito mais eficientes”.

Com a avassaladora derrota de Sadam Hussein na Primeira Guerra do Golfo em 1991 diante as forças aliadas lideradas pelos EUA, muitos autores acreditaram que finalmente estavam testemunhando uma nova RAM. Neste ponto, Gonçalves (2013, p. 151) afirma que, em 1993, o analista Andrew Marshall havia cunhado o termo Revolução em Assuntos Militares (RAM), sendo este derivado do antigo conceito de “Revolução Técnico-Militar”, dos soviéticos; porém, diferentemente do que acreditavam os soviéticos, a RAM não estava circunscrita a uma revolução tecnológica, mas a todo um complexo de modificações com a necessidade de desenvolvimento de novo arcabouço doutrinário, de novas estruturas organizacionais e novas formas de emprego das armas.

Assim, Gonçalves (2013, p. 152) define a principal diferença entre Revolução Militar e RAM: a primeira “seria uma transformação de amplo escopo nas relações entre Estado, sociedade, economia e forças armadas”. Já uma RAM “ocorreria apenas no ambiente propriamente militar, conduzindo a novas formas de combate”.

O professor adjunto da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército dos EUA Scott Sthephenson (2010, p. 79) parece definir os limites entre os conceitos de Revolução Militar e RAM mencionando que: Uma RAM, segundo Murray e Knox, é um fenômeno menor e mais restrito, que exige a “reunião de uma combinação complexa de inovações táticas, organizacionais, doutrinárias e tecnológicas para a implantação de uma nova abordagem conceitual em relação à guerra ou a um sub-ramo especializado dela”. Murray e Knox sustentam que, se compararmos uma revolução militar a um terremoto, as revoluções em assuntos militares seriam os tremores secundários anteriores e seguintes – que o acompanham. (STHEPHENSON, 2010, p. 79) Esse limite entre os conceitos de Revolução Militar e RAM seria reafirmado pelo professor Gonçalves (2013) três anos depois.

É necessário observar que, diante dos conceitos de Revolução Militar e Revolução em Assuntos Militares explorados neste trabalho, ambos – além de interligados em relação de causa e efeito são capazes de promover alterações na doutrina, ou seja, adaptações e mesmo mudanças radicais na estrutura organizacional das forças armadas, entre elas o estado-maior. Assim, torna-se possível supor que ambos os conceitos são importantes para o foco de análise deste trabalho.