As comunidades islâmicas no Brasil e a segurança nacional

Em 9 de agosto de 2016 às 07:00.

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Artigo de Giovani Dalarosa Amaral sobre a formação da comunidade islâmica no Brasil e suas diversas ondas migratórias. Aborda ainda, conceitos sobre a religião islâmica, terrorismo internacional e segurança nacional, procurando esclarecer as características do mundo muçulmano sob a ótica ocidental.

Por Giovani Dalarosa Amaral

 

A presença islâmica no Brasil remonta ao descobrimento. Pedro Alvares Cabral contou com a ajuda de dois árabes muçulmanos, Chuhabidin Bin Májid e o navegador Mussa Bin Sáte, que acompanhavam as embarcações que cruzaram o Atlântico (JERRAHI, 2003). Além disso, o Brasil recebeu diversas ondas migratórias motivadas por incentivos internos ou externos, de acordo com acontecimentos da história mundial.

Em um esforço de reação à possível perda de identidade religiosa e cultural, os imigrantes muçulmanos formaram comunidades e iniciaram a fundação de centros religiosos, associações beneficentes e a construção de mesquitas e escolas. O polo inicial desse processo foi a cidade de São Paulo (JERRAHI,2003).

Para que se possa compreender melhor a discussão deste artigo, serão abordados alguns conceitos básicos sobre a religião islâmica, terrorismo internacional e segurança nacional, procurando esclarecer as características do mundo muçulmano sob a ótica ocidental.

As bases das tradições islâmicas estão contidas no Alcorão, nos costumes árabes e nas interpretações dessas fontes pelos teólogos islâmicos. Em árabe, Al’Qur’an, significa “A Recitação”. Esse livro sagrado muçulmano é composto por 114 suratas (ou capítulos) e registra “a palavra literal de Deus Altíssimo, transmitida aos seres humanos no idioma árabe e revelada ao Profeta Muhammad” durante 23 anos” (IBEI, 2014).

A palavra Islã, cuja transliteração correta a partir do idioma árabe é Islam, significa “submissão”. Para o islamismo, “a submissão sem reservas à vontade de Deus Altíssimo é a verdadeira fonte de paz” (IBEI, 2014).

A Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de janeiro (SBMRJ) afirma que o Islam não é só uma religião, mas um sistema de vida completo. O islamismo fornece diretrizes escritas sobre todos os assuntos relevantes para o ser humano, tendo o seu próprio sistema político, econômico, jurídico, penal, social e moral (SBMRJ, 2014).

Fala-se também do radicalismo islâmico'” ou fundamentalismo islâmico,” como forma de combater a agressão, que supostamente seria feita pelos ocidentais à identidade árabo-muçulmana. Além disso, o fundamentalismo tem a finalidade de transformar um sistema político e social de um estado usando a sharia, ou seja, a interpretação unívoca imposta à sociedade (ÉTIE NE,2003).

O vocábulo jihad significa “esforço ou empenho”. De acordo com a crença islâmica, existem dois tipos: o jihad maior e o jihad menor. O primeiro, e mais difícil, se refere à luta que o ser humano trava consigo mesmo no seu cotidiano, ao tentar manter-se na senda reta, resistir às tentações de pecados e evitar cometer faltas. O segundo caso é mais abrangente, pois se refere ao comportamento de um indivíduo perante seus semelhantes. Esclarecer o Islã, ajudar um necessitado ou visitar um doente são exemplos do segundo tipo (SBMRJ, 2014).

Outro aspecto do jihad menor é o direito à autodefesa pelo confronto armado, permitida por Deus aos seguidores do Islam. A tradução do Alcorão diz que: “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores” – Alcorão 2:190 – (SBMR], 2014).

No século XXI, vários países do mundo, que têm grandes comunidades islâmicas em seu território, tiveram sua segurança nacional abalada por atentados oriundos de grupos fundamentalistas radicais. Entre eles, os EUA sofreram os ataques às torres gêmeas do centro financeiro do World Trade Center e ao Pentágono americano, em 11 de Setembro de 2001, e na Maratona de Boston, em 2013; a Espanha sofreu a explosão de bombas em seu sistema ferroviário da capital, em 2004; a Inglaterra sofreu um atentado a bomba no metrô de Londres, em 7 de julho de 2005, e teve um soldado morto e quase degolado no meio da rua, em 2013; a França teve, na cidade de Toulouse, soldados e outros cidadãos mortos, em 2012, e sofreu recentemente o ataque ao periódico Charlie Hebdo, na capital, por vingança a uma publicação alegada pela comunidade muçulmana internacional como desrespeitosa. Todos esses países e seus aliados vivem em alerta contra o terrorismo.

A mudança da modalidade de terrorismo internacional, que passou de sequestros para atentados por explosivos contra alvos indiscriminados e inocentes, torna a população civil cada vez mais vulnerável e insegura.

Os agentes do terror se utilizam da mídia internacional para divulgar seus atos e mais rapidamente atingir seus objetivos. A transmissão via satélite, a Internet e a presença da televisão em praticamente todas as camadas da sociedade no mundo contribuem para o aumento do potencial publicitário do terrorismo. A repercussão da mídia serve tanto para aumentar o medo e a sensação de insegurança na população, quanto para fazer propaganda e incentivar o recrutamento de novos militantes muçulmanos adeptos a essa modalidade de protesto. Os grandes eventos, como as olimpíadas, tornam-se atrativos para o terrorismo internacional, pois se estima que mais de dois bilhões de espectadores assistam ao vivo aos eventos esportivos (SIMIONI, 2012).

Apesar do histórico pacífico das políticas interna e externa brasileiras, a proximidade das Olimpíadas de 2016, a ascensão do Brasil como ator global e as portas de entrada à possível presença de extremistas entremeados nas comunidades islâmicas podem gerar impactos à Segurança Nacional”.