Árabes somos nós: as origens que o Brasil desconhece

Em 13 de dezembro de 2016 às 07:36.

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Dossiê especial sobre a intensa onda de imigração de árabes e libaneses no Brasil na virada do século XX. Muçulmanos? Que nada: 85% eram cristãos. Tinham que aturar serem chamados de “turcos”, mas seus valores familiares a seu tino comercial garantiram boa acolhida nos quatro cantos da nova terra. Hoje mascates, amanhã industriais, então estudantes, depois os maiores linguistas do país, eles se sentiam em casa.

Por Oswaldo Truzzi

Seja por sua profunda influência em Portugal, seja pela forte imigração no último século, a cultura árabe tem presença garantida na história e na sociedade brasileiras.

Junto com os colonizadores, no século XVI, desembarcaram heranças de sua língua, música, culinária, arquitetura e decoração, técnicas agrícolas e de irrigação, farmacologia e medicina. É que os árabes dominaram por quase oito séculos a Península Ibérica. Significativamente, Granada, seu último reduto em solo europeu, foi conquistada pelos cristãos em 1492, mesmo ano em que Colombo chegava à América.

Foram os árabes que introduziram na Europa coisas tão básicas como os algarismos decimais – em substituição aos romanos, difíceis de usar para cálculos –, jogos, como o xadrez, e a própria arte caligráfica, pois encaravam a palavra escrita como o meio por excelência da revelação divina. Na culinária, difundiram o uso do café, de doces próprios e produtos de pastelaria, do azeite, em substituição à proibida gordura de porco, e de muitos outros temperos, como o açafrão, a noz-moscada, o cravo, a canela e pimentas.

Recebemos tudo isso indiretamente, via colonização, em uma ampla variedade de aspectos. Até mesmo o bom costume da limpeza pessoal, que muitos atribuem somente aos indígenas, deve um tributo aos árabes. Foi Gilberto Freyre, em seu Casa-Grande & Senzala, quem apontou o contraste da “higiene verdadeiramente felina dos maometanos com a imundície dos cristãos”.

Na música, o alaúde teve vasta descendência nas Américas, procriando verdadeiras famílias de instrumentos caribenhos, o bandolim e o cavaquinho brasileiros, a charanga do altiplano andino e o banjo dos negros norte-americanos. A gaita árabe é possível antecessora da gaita ibérica, e o adufe, precursor do pandeiro.

A aridez dos solos desérticos capacitou-os como mestres nas técnicas agrícolas e de irrigação, importando para a Europa o moinho d’água, avô do engenho colonial, e lá semeando o algodão, a laranjeira, a criação do bicho-da-seda, o cultivo do arroz e da tão “brasileira” cana-de-açúcar. As próprias técnicas construtivas, como a telha de barro do tipo capa e canal, ou ainda a taipa de pilão, tão dominante nos primeiros séculos do Brasil, são de influência nitidamente árabe.

O segundo movimento marcante foi a chegada direta de imigrantes, sobretudo sírios e libaneses, a partir do final do século XIX. É possível que a visita do imperador D. Pedro II a Beirute e a Damasco, em 1876, tenha servido como primeira aproximação cultural entre as áreas de origem da imigração árabe e o Brasil. Mas essa circunstância, por si só, não seria capaz de lançar tantos espíritos inquietos na aventura de uma odisseia tão distante. A pretensão inicial era uma migração temporária, para amenizar as dificuldades financeiras enfrentadas por suas famílias.

Viviam um tempo de restrições econômicas, por conta da entrada de produtos industrializados europeus (que minou a renda derivada da produção artesanal), de algumas pragas agrícolas e da necessidade de mais terras para a incorporação de herdeiros. Além desses motivos econômicos, outros fatores relevantes influenciaram a decisão de partir, como a competição por status entre famílias nas aldeias e os frequentes conflitos religiosos entre cristãos e muçulmanos. Preocupante também era o recrutamento militar obrigatório empreendido pelos turcos, em uma época de riscos provocados pela decadência do Império Otomano.

De qualquer modo, os migrantes não eram aventureiros isolados, mas indivíduos inseridos num contexto familiar, dispostos a acumular capital durante certo tempo e depois voltar ao seio da família e da aldeia de origem. Entretanto, o que pretendia ser provisório acabou se tornando permanente: em vez de o imigrante retornar, em muitos casos foi o restante da família que veio se juntar a ele no Brasil.

Redes de parentes, amigos e conterrâneos se articularam, fornecendo referências valiosas aos que decidiam vir. Na mente de cada emigrante formou-se uma geografia imaginária: um tio em São Paulo tornava aquela capital brasileira mais próxima de sua aldeia na Síria ou no Líbano do que a Espanha, ali do outro lado do Mediterrâneo. Interesses e favores dos muitos conhecidos propiciavam o início da vida no novo país: casa, trabalho, escola para os filhos.

Muitos dos já estabelecidos ofereciam um crédito inicial – sob a forma de mercadorias, por exemplo – aos recém-chegados. Esse intenso movimento migratório alcançou os rincões mais remotos do continente.

Onde quer que chegassem, eram chamados da mesma forma: “turcos”. Uma confusão que os ofendia duplamente – pelo equívoco geográfico e por referir-se a seus dominadores históricos. Culpa dos passaportes que usavam, até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) expedidos pelo Império Otomano.

No Brasil, a maioria era de origem libanesa ou síria. Sua principal ocupação nos países de origem havia sido a agricultura, mas por aqui abraçaram como profissão o comércio. Perseguiam a autonomia de gerir seu próprio negócio, ainda que este fosse minúsculo a ponto de caber em uma caixa de vendedor ambulante. A maior concentração ocorreu em São Paulo, mas os “turcos” se espalharam por todo o país. Exemplo curioso dessa abrangência geográfica: foi um mascate libanês quem filmou as únicas imagens conhecidas do cangaceiro Lampião, na década de 1930. Benjamin Abrahão, que era também fotógrafo e homem de confiança do padre Cícero, infiltrou-se no bando e gravou momentos do seu cotidiano, como narra o filme “Baile perfumado” (Paulo Caldas e Lírio Ferreira, 1996).

Os árabes mascateavam também pelas zonas rurais, mas fixaram-se sobretudo nas cidades, inicialmente em cortiços, moradias populares com cômodos para alugar, onde se aglomeravam famílias inteiras em espaço reduzido. A vida girava em torno da família e do trabalho. Loja na frente, casa nos fundos ou no andar de cima do sobrado, família “mourejando”, trabalhando “como mouros”.

Mas o balcão das lojas não seria o ponto de chegada de suas trajetórias. De mascates a pequenos comerciantes, depois varejistas, atacadistas e industriais. Vencidas as dificuldades da primeira geração, os pioneiros trataram de buscar para seus filhos a ascensão socioeconômica via educação. Queriam vê-los como doutores – especialmente médicos e advogados –, e assim muitos o fizeram, aproveitando-se, no início, de clientelas cultivadas na própria colônia, depois estendidas a outros estratos sociais.

A partir de então, a inserção privilegiada e o amplo conhecimento social angariado desde os tempos de mascate, aliados à legitimidade que um diploma conferia, frutificaram em carreiras públicas. Em todo o continente menciona-se o grande número de descendentes de árabes na política, como os presidentes Turbay Ayala na Colômbia, Abdalá Bucaram no Equador e Carlos Menem na Argentina. De posições destacadas em áreas como a linguística e a medicina, a presença árabe chegou ao que há de mais popular no Brasil: o futebol, o jogo do bicho, as escolas de samba. O que demonstra, apesar da origem cultural relativamente distante, uma extraordinária capacidade de adaptação à nova terra.

Outra peculiaridade que ilustra essa integração vigorosa é a incorporação de iguarias à culinária local. Em São Paulo, de acordo com o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares, um quarto das refeições servidas provém da culinária árabe. Algumas receitas difundidas pelos imigrantes integram hoje a dieta habitual da classe média brasileira, como o quibe, a esfiha, o tabule, a coalhada, o babaganouche, o pão sírio e a lentilha.

Restaurantes especializados em cozinha árabe (ou em adaptações inspiradas nela) proliferaram de tal forma que não há guia gastronômico sem uma seção dedicada a eles ou shopping center em cuja praça de alimentação um deles não esteja presente.

Até hoje, mais de um século após a vinda dos primeiros imigrantes, nas entrevistas colhidas entre os mais velhos, entre aqueles capazes de olhar para trás conscientes das dificuldades enfrentadas e do caminho percorrido, o balanço da trajetória e da vida não deixa de registrar depoimentos emocionados. “Na vida brasileira a gente adquire desde a infância uma tolerância que não existe lá (…) Eu estou satisfeito da minha vida, confio no Brasil, aqui é minha terra”.

Esse sentimento de gratidão e confiança, em geral embalado por uma considerável mobilidade socioeconômica, resume a bem-sucedida história dos imigrantes sírios e libaneses no Brasil, um país tributário da cultura árabe desde a alvorada da colonização.

Oswaldo Truzzi é professor da Universidade Federal de São Carlos e autor de Patrícios – Sírios e Libaneses em São Paulo (Hucitec, 1997).