• Durango Duarte - Antigo Cemitério São José
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    Antigo Cemitério São José

    Vista do antigo Cemitério São José. In: O Estado do Amazonas, 1899.

    De acordo com o Dicionário da origem das palavras (2001), o vocábulo cemitério, que em latim se escreve coemeterium, tem origem do grego koimetérion, que significa dormitório ou quarto de dormir. Como os cristãos acreditam que os mortos na graça de Deus não estão verdadeiramente mortos, mas sim, adormecidos até a ressurreição (APOCALIPSE, 14:13), passaram a utilizar a palavra cemitério para designar lugar de repouso.

    Registra-se que os primeiros cristãos não tinham cemitérios próprios. Ou enterravam os seus mortos nos terrenos que possuíam ou os sepultavam em necrópoles comuns, também utilizadas pelos pagãos. Eles somente passariam a realizar os enterros dos seus defuntos abaixo da terra na primeira metade do século II (FORGANES apud BARBOSA, 2004).

    Esses espaços no solo, denominados catacumbas, são antigos cemitérios subterrâneos onde os cristãos se reuniam para a celebração dos rituais fúnebres e para os aniversários dos mártires e dos mortos. Excepcionalmente, na época em que os cristãos sofriam perseguições, essas catacumbas eram utilizadas, também, como locais de refúgio temporário para a celebração da Eucaristia (EDUARDO apud BARBOSA, 2004).

    Os sepultamentos passariam a ser realizados nas igrejas – ou em cemitérios próximos a essas – entre os séculos V e XVIII. Nessa época, “as igrejas eram desprovidas de bancos ou cadeiras e os fiéis assistiam às missas em pé, de joelhos ou sentados no chão, sobre as sepulturas” (ROSA, 2003).

    Havia um motivo para que se fizessem os enterramentos dentro de igrejas, próximo aos túmulos dos santos: os cristãos criam, assim como hoje, que os santos possuíam lugar garantido no “Céu” e, portanto, ser enterrado próximo aos mártires significava proteção no dia do Juízo Final (COE, 2005).

    Em artigo publicado na Revista de História Regional (2006), Petruski diz que, na primeira metade do século XVIII, iniciou-se, na Europa, a preocupação dos higienistas quanto à proximidade dos mortos com os vivos em razão dos miasmas – vapores e fumaças que emanam dos corpos em decomposição, responsáveis por doenças. Por esse motivo, a partir de 1780, começaram a ocorrer, na França, as primeiras emigrações dos campos santos das áreas centrais das cidades para as periferias. Ainda segundo Petruski, foi nesse período que os cadáveres passaram a ser enterrados em fileiras. Era o início da divisão dos cemitérios em quadras, com espaços mais definidos, o que melhorou os aspectos de saúde pública e de fiscalização por parte dos Órgãos Públicos.

    Os campos santos foram cercados, as quadras ganharam números e as sepulturas receberam os nomes dos falecidos e suas datas de óbito. Surgiram, também, as primeiras regras cemiteriais: abertura somente durante o dia, inspeções regulares e registros em livros.

    No entanto, a administração das necrópoles continuaria com a Igreja, devido aos campos santos serem considerados como espaços sagrados.

    Ao longo dos anos, outros países europeus passaram a adotar o sistema de sepultamento utilizado pelos franceses (PETRUSKI, 2006). Com as novas regras, logo apareceram, nos cemitérios a céu a aberto, os grandes mausoléus, verdadeiras obras de arte em mármore e pedra, como forma de ostentação da condição econômica, política e social do defunto.

    No Brasil do século XVIII, os enterramentos fora dos limites das igrejas já aconteciam, mas para os mortos de famílias menos abastadas – independentemente de serem católicos, protestantes, judeus, muçulmanos –, para os escravos e para os condenados (VALLADARES, 1972).

    Em 1801, o príncipe regente D. João criou a Carta Régia nº 18, primeira lei colonial que regulamentava os sepultamentos e proibia qualquer tipo de enterro dentro da área urbana. Contudo, essa legislação seria contestada pela população, que temia “não alcançar a graça divina” se não enterrasse seus mortos em lugar sagrado, e também pelas irmandades, responsáveis pelos “preparativos” do sepultamento dos “escolhidos” nas igrejas e que viam nessa medida higienista a perda de receita.

    Essa determinação somente começou a ser cumprida a partir do fim da década de 20 do século XIX, quando D. Pedro I promulgou a Lei Imperial de Estruturação dos Municípios, de 18 de outubro de 1828, quando as Câmaras Municipais passaram a ser responsáveis pelas questões de Saúde Pública, entre as quais, a construção de cemitérios longe das igrejas.

    Até a primeira metade do século XIX, Manaus ainda não possuía um cemitério adequado. Em Mensagem de 1º de outubro de 1853, o presidente da Província, Herculano Ferreira Penna, já expressava a necessidade de se construir um cemitério público, medida que exigia certa urgência, principalmente porque as inumações continuavam a ser realizadas no entorno do largo da Trincheira e nas imediações da igreja dos Remédios – locais desprovidos das mínimas condições possíveis – em covas rasas e à mercê dos animais que por ali circulavam.

    Após acordo entre a presidência da Província, a chefatura de Polícia e o vigário da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, aquele administrador provincial mandou que se cercasse a área próxima ao templo para que o local passasse a servir de necrópole pública até que a Província pudesse providenciar um campo santo em local apropriado. As obras de adaptação do terreno da igreja ficaram prontas em 1854.

    Com sua criação, os enterramentos passaram a ser realizados nesse cemitério, sendo vedadas as inumações nas igrejas e áreas próximas, como aparece na edição de 24 de junho daquele ano do jornal A Estrella do Amazonas, onde o juiz de Direito da Comarca, doutor Manoel Gomes Corrêa, utilizando-se do Código de Posturas Municipaes, proibiu “enterrar-se cadáveres nos templos, ou átrios destes, sob pena de ser multado o infrator em vinte mil réis, ou oito dias de prisão”.

    Chamado de Cemitério dos Remédios – ou da Cruz –, essa necrópole localizava-se no entorno das ruas da Cruz, atual Leovegildo Coelho, e dos Andradas. Em 1856, os sepultamentos passariam a ser realizados no Cemitério São José, hoje extinto.

    Além do Cemitério São José, esse Capítulo trará a síntese histórica do também desativado Cemitério São Raimundo (dos Variolosos); dos cemitérios São João Batista e Santa Helena, que, “oficialmente”, devido à falta de espaço livre, recebem somente enterros em sepulturas perpétuas, e dos cemitérios Parque de Manaus, particular, e Nossa Senhora Aparecida, público.

    O Capítulo contém, ainda, informações sobre o Cemitério Nossa Senhora da Piedade, o Cemitério São Francisco e o Cemitério Santo Alberto, além dos quatro campos santos que existem na Zona Rural: Santa Joana do Puraquequara, São José do Jatuarana, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora da Conceição das Lajes.

    URNAS FUNERÁRIAS INDÍGENAS

    Muitos povos indígenas do Brasil tinham o costume de enterrar seus mortos em potes de cerâmica, conhecidos como urnas funerárias ou igaçabas. Alguns desses povos realizavam o que os arqueólogos chamam de enterramento primário em urna: colocava-se o morto dentro delas e, em seguida, enterravam- nas com vários potes menores e oferendas para que os deuses “recebessem bem” o índio falecido. Outras tribos sepultavam seus entes queridos dentro das próprias malocas, cujo chão, normalmente, era de terra. O local era regado com água por vários dias. Decorrido algum tempo, quando já restavam somente os ossos, o corpo era desenterrado e colocado dentro de uma grande urna, com os objetos pessoais do morto. Esse pote era enterrado em um local específico, em um ritual que os especialistas chamam de enterramento secundário em urna. Manaus é considerada pelos estudiosos no assunto como um grande cemitério indígena em razão dos mais de cinquenta sítios arqueológicos urbanos aqui existentes. Ao longo da história, a área onde tem ocorrido o maior número de descobertas de urnas funerárias indígenas localiza-se no espaço compreendido pelas praças Nove de Novembro e Dom Pedro II, no Centro (ver Capítulo Praças). Em 2003, durante a reforma da praça Dom Pedro II, e mais recentemente em 2008, quando da restauração do Paço Municipal, foram encontradas igaçabas de, ao menos, 1.500 anos de idade. Na Zona Norte, em 2001, durante a construção de uma das etapas do Conjunto Residencial Nova Cidade, no bairro Cidade Nova, encontrou-se um sítio arqueológico de, aproximadamente, 250 mil metros quadrados, com cerâmicas, artefatos e parte de um cemitério indígena.

    Imagem e texto retirados do livro Manaus, entre o passado e o presente do escritor Durango Duarte.

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