A emigração cearense para o Amazonas

Em 27 de setembro de 2016 às 08:00.

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No ano seguinte duas ocorrências significativas abalaram o Nordeste do Brasil:  a queda do preço do algodão – grande produto de exportação da região – devido à concorrência norte-americana e, principalmente, a impiedosa seca que o atingiu, entre 1877- 1879. Foram “três anos seguidos sem chuvas, sem semeaduras, sem colheitas, os rebanhos morrendo, os homens fugindo para não morrer”. O evento acabou com quase todo o rebanho da região, dizimou entre cem a 200 mil pessoas só no Ceará e promoveu um êxodo sem precedentes de cearenses para a capital e para outras cidades da Província.

A população cearense, à época, era de 800 mil habitantes. Desses, 120 mil (ou 15%) emigraram para a Amazônia e outras 68 mil pessoas saíram para outros Estados, seduzidos que foram pela intensa propaganda fantasiosa dos governos locais.

Os governos dos Estados da Amazônia que tinham interesse na mão-de-obra nordestina, trataram de organizar serviços de propaganda e conceder subsídios para gastos de transporte. Dessa forma, formou-se uma grande corrente migratória.

O último polo de recepção de migrantes foi a Província do Amazonas, a maior unidade da federação em extensão territorial e aquela que tinha a maior carência de trabalhadores para a produção agrícola e a extrativista.

No início das grandes ondas migratórias cearenses, a expectativa não era necessariamente a exploração da borracha, “muitos retirantes buscavam oportunidades em atividades tradicionais, tais como a produção agrícola ou o trabalho em obras públicas. O isolamento do seringal foi um dos últimos recursos quando outras possibilidades lhes foram sendo negadas”. (*)

Sobre a situação da produção agrícola, Arthur Cezar Ferreira Reis afirmou: “De 1860 até a República, manifestou-se a decadência, que se acentuou dia a dia. O café, que em 1830 se expressava em 6.200 arrobas, nesse ano desceu a 270; o tabaco, em 1830 em 5.643 arrobas, caiu para 2.270”. Somente o trato com cacau, “em muitos pontos encontrado nativo, manteve-se em prosperidade”. Alguns produtos extrativistas (breu, cravo, estopa, piaçava, salsaparrilha e castanhas) mereciam destaque, mas a “todos se sobrepujava a Borracha”.

FONTE:

Retirantes cearenses na província do Amazonas: colonização, trabalho e conflitos (1877-1879) – Edson Holanda Lima Barboza.