A Conspiração Amazônica

Em 18 de abril de 2017 às 08:00.

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A grande depressão de 1920 abalou as estruturas da economia americana, a qual Ford criticava chamando-a de as “cidades e os bancos”. A queda do consumo foi brutal, descortinando toda a vulnerabilidade das sociedades urbanas e rurais que estavam sob um novo regime de capitalismo de consumo. Empresas quebraram, bancos fecharam e desempregados se multiplicavam, vagando pelas ruas em busca de comida e abrigo.

Esse período serviu para que Ford chegasse a uma grande conclusão: passaria a dedicar boa parte de sua vida e de sua riqueza à resolução do problema tanto na indústria como no campo, buscando harmonizar as duas. Disse ele: “Não podemos comer nem vestir nossas máquinas”; “se o mundo fosse uma vasta fábrica, ele morreria. Quando a questão é manutenção da vida, vamos aos campos. Com um pé na agricultura e outra na indústria a América estará segura”.

Sempre pensando em eficiência, Ford não poderia continuar dependente da Ásia, onde as plantações britânicas de seringueiras produziam a maior parte da oferta global de borracha. Assim surgiu a ideia de Ford produzir borracha.

Quando Henry Ford manifestou interesse em investir na plantação de seus próprios seringais, inúmeros interessados surgiram, tentando atraí-lo para o Brasil, mais especificamente para a Amazônia, que amargava a decadência pós-ciclo da borracha. O principal deles era o diplomata, inspetor consular do Brasil em Nova York, José Custódio Alves de Lima que, aliás, já havia enviado a Ford amostras de borracha, minerais e madeiras da Amazônia. Em audiência com o industrial em 1925, havia conversado sobre concessão de terras, impostos e salários no Brasil.

William Schurz, diplomata, adido comercial de Washington no Rio de Janeiro, teve importante papel na vinda da Ford para a Amazônia, quando se aliou a Jorge Dumont Villares, paulista, herdeiro de uma afortunada família cafeeira de São Paulo que vivia na Amazônia desde o início da década de 20, e ao conhecido oportunista Maurice Greite, um inglês que também vivia na Amazônia. Foi Maurice quem apresentou a Villares o prefeito de Belém, Antônio Castro, e o governador do Pará, Dyonísio Bentes, o qual declarou que concederia terras gratuitamente a quem desejasse plantar seringueira.

Estando a serviço do governo americano, Schurz não poderia solicitar concessões de terras, mas Villares não tinha impedimento nenhum. Assim, em setembro de 1926, o governador concedeu a Villares cerca de 10 milhões de hectares na região do Vale do Tapajós. Coube a Schurz tentar atrair empresários americanos. Sua primeira tentativa foi com Harvey Firestone, mas quando este optou pela Libéria, ele voltou sua atenção para a Ford Motor Company. O diplomata fazia uso do expediente de escrever cartas para Henry Ford e Ernest Liebold, seu secretário, exagerando as possibilidades da borracha na Amazônia.

Após o encontro com Custódio Alves de Lima, Ford pediu a William McCullough que estudasse a possibilidade de se investir em seringais na Amazônia. Apesar do resultado desencorajador do estudo de McCullought, o industrial enviou a Belém dois de seus funcionários, W. L. Reeves Blakeley e Carl D. LaRue, com a missão de pesquisar qual seria o melhor local para a plantação de seringueiras. Na ocasião, Villares entrou em contato com os dois, e ofereceu US$18 mil para que o ajudassem a fechar um acordo com Ford. Não há evidências de que Blakeley recebeu dinheiro, mas documentos indicam que McCullough o fez. Pouco tempo depois, em 1926, Villares estava em Dearborn, sede da Ford Motor Co., para encontrar-se com Henry e Edsel Ford. A proposta do brasileiro incluía um contrato em que ele seria o executor do projeto e concedia, à empresa, o direito de extrair ouro, petróleo, madeira, diamantes, construir hidrelétricas e importar e exportar qualquer coisa sem impostos.

As investidas de Schurz e Villares surtiram efeito e, em julho de 1927, Blakeley e O. Z. Ide, funcionário da divisão jurídica da Ford, chegaram a Belém para providenciar terras e documentação para que o projeto de implantação da Ford na Amazônia fosse iniciado.