10 batalhas: guerras que desfiaram o Brasil

Em 27 de dezembro de 2016 às 16:29.

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Dossiê que reúne informações históricas de Dez batalhas decisivas para a formação do Brasil.

Por Vivi Fernandes de Lima

A última vez que terras brasileiras serviram de palco para uma ação militar contra estrangeiros foi no século XIX, na Guerra do Paraguai (1864-1870). Esta afirmação pode dar a entender que o Brasil não é muito de briga, principalmente se for comparado a países que vivem em estado de alerta, como Iraque e Estados Unidos. Mas, contrariando o senso comum, esses dados não são suficientes para se reconhecer o país como pacífico. Em matéria de paz, a língua portuguesa pode provar que há uma série de termos entranhados na História do Brasil cujos significados chegam muito perto de uma guerra.

Dependendo do contexto, alguns vocábulos podem ser considerados sinônimos – rebelião, motim, sublevação, insurreição e sedição. Mas o pesquisador português Caetano M. de F. Albuquerque já alertava, em 1911, para as diferenças de algumas expressões em seu Diccionário Téchnico Militar de terra: “Entre batalha e combate há grande diferença: aquela envolve ao mesmo tempo uma ideia abstrata e concreta, é um ato de concepção que pode não ter completa execução; o combate é o fato material e a execução do ato de concepção”. Apesar destes significados, no mesmo verbete o autor define “batalha” como um “combate geral entre dois exércitos ou qualquer que seja sua melhor definição, não resta dúvida de que é a mais solene e grandiosa de todas as ações de guerra, a pedra de toque da capacidade dos vários comandos superiores, e Bonaparte dizia que nada desejava tanto como uma grande batalha”.

Com nuances de significados aqui e ali – “insurreição”, por exemplo, é mais apropriado para o caso de levante contra a autoridade, e “rebelião” pode ser uma resistência à mão armada às ordens superiores –, o fato é que os brasileiros esbarram nestas palavras durante todo o período escolar. Os episódios conflituosos são tantos que está para ser lançada a quarta edição do Dicionário das batalhas brasileiras: Dos conflitos com indígenas aos choques da reforma agrária (1996), de Hernâni Donato. O escritor, que se dedica ao tema desde a adolescência, está preparando quatrocentos novos verbetes. Quando começou a elaborar o dicionário, há cerca de 60 anos, Donato não tinha ideia de que conseguiria listar mais de dois mil episódios históricos. É que, para ele, batalhas não precisam ser aquelas que envolvem milhares de homens. “Considerando a ‘pequenês’ do evento, sempre que algumas pessoas foram à luta em defesa de uma ideia, houve uma batalha. Os conflitos agrários, por exemplo, geralmente têm poucas vítimas”, exemplifica.

Dentre esses novos verbetes, alguns são do período da invasão holandesa em Pernambuco (1630-1654). “A cada semana descubro mais um evento da guerra contra os holandeses realizado no interior das capitanias”, diz Donato, que, diante de tanto trabalho, fica indignado com uma máxima brasileira: “Infelizmente, essa pesquisa contesta a máxima que diz que o brasileiro é pacífico”.

Mesmo sem consultar os livros, é possível perceber esta, digamos, falta de talento para se viver em paz no Brasil. A Amazônia que o diga… Até o fechamento desta edição, cinco trabalhadores rurais haviam sido assassinados em emboscadas – mais um termo violento comum em nossa história – em menos de três semanas, e os jornais estampavam reportagens que mostravam uma tendência ao agravamento da situação.

De acordo com o Global Peace Index (Índice de Paz Mundial), o Brasil ocupa a 74ª posição num ranking de 153 países. Numa escala mundial, isto significa que somos muito mais pacíficos do que nações como a Somália, que aparece em último lugar, Iraque (152º), Israel (145º) e Afeganistão (150º), mas não estamos tão longe assim dos Estados Unidos (84º). Se a comparação for feita com os vizinhos, o Brasil não tem do que se gabar. O Uruguai, que já foi disputado a tiros de canhão, hoje é o país mais pacífico de toda a América Latina, ocupando o 21º lugar mundial. Argentina, Paraguai e Chile também nos ultrapassam com facilidade.

Se Poliana, a personagem otimista do clássico infanto-juvenil, soubesse disso, talvez ela recuperasse um livro do escritor Oliveira Lima (1867-1928), no qual era exaltado o caráter pacífico do país, em comparação exatamente com os nossos vizinhos. Os tempos eram outros – mais precisamente 1914 – quando ele publicou o seguinte: “O Brasil imperial constituiu um modelo de liberdade e paz para a América Latina e forneceu pelo menos uma imagem real de civilização, emanada do trono, ao tempo em que as sociedades hispano-americanas se debatiam em meio à desordem e selvajaria”.

Mas quando Oliveira Lima fez esta afirmação, o mito já estava criado havia tempo. O Grito do Ipiranga sem derramamento de sangue, escolhido como símbolo da Independência, contribuiu para esta visão, mesmo sendo seguido por uma guerra [Ver RHBN nº 48]. A ideia de país pacífico foi fortalecida durante a Regência (1831-1840), década em que diversas rebeliões contestaram o poder central. Associar a imagem pacifista a uma fase turbulenta da História soa, no mínimo, contraditório. No entanto, o discurso da vitória da monarquia sobre liberais e separatistas era feito “em nome da paz”. Pelo menos esta foi a conclusão a que chegou o brasilianista norte-americano Henry H. Keith. Em artigo publicado em 1970 no livro Conflito e continuidade na sociedade brasileira (Civilização Brasileira), ele se refere ao período como sendo de “paz forçada”. E chama atenção para o fato de que, durante o Império, defensores do regime, como o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), “arranjaram uma série impressionante de argumentos contra a violência rebelde e em defesa da conservadora e disciplinada tradição da monarquia”.

O mito estava criado, atravessando o Império e chegando à República. E a tal “paz forçada” continuou sendo um recurso usado pelos governos. Em nome dela foram abafados movimentos como a Revolução Federalista (1893-1895), no Sul; Canudos (1896-1987), na Bahia; a Revolta da Chibata (1910), no Rio de Janeiro, e a Revolta do Contestado (1912-1916), no Paraná e em Santa Catarina, entre tantos outros. Já durante as ditaduras, a impressão que se tem é de que a força tinha muito mais importância do que a paz, já que tortura e assassinato eram práticas comuns.

Keith também aponta que o historiador Sérgio Buarque de Holanda reforçou o mito da não violência quando explicou a boa índole própria do brasileiro, a teoria do “homem cordial”. Mas parece que o brasilianista não entendeu o que Buarque de Holanda desenvolveu em seu Raízes do Brasil (1936):  “Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez”, escreveu o historiador, que ainda definiu essa mesma polidez como “um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções”. Portanto, a cordialidade não tem relação com a ideia de paz, e sim com o tratamento emocional. Por isso, nada impede que o “homem cordial” seja violento.

Apesar de não ser polido, o Brasil tem bastante experiência em diplomacia, talvez tanta quanto tem em conflitos. A conciliação volta e meia aparece na pauta das relações exteriores do governo: em 1998, o Brasil foi um dos mediadores do acordo de paz entre Equador e Peru, envolvidos em conflitos em suas fronteiras havia décadas; em 2009, o país ofereceu apoio para a construção de um processo de paz entre israelenses e palestinos.

Entra governo, sai governo, a tentativa de se buscar a paz permanece, pelo menos no discurso. Recentemente, na comemoração do Dia do Exército (19 de abril), a presidente Dilma Rousseff lembrou esta particularidade do país, afirmando que se trata de “um país de vocação pacífica e democrática” – atenção: ela não disse “país pacífico”. Tomara que ela esteja certa, mas, por via das dúvidas, o escritor Hernâni Donato já está treinando seu filho e seu neto para darem continuidade ao seu Dicionário de Batalhas Brasileiras.