A vida na casa “do calipeiro”

Em 17 de maio de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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De volta à vida na casa ”do calipeiro”, registre-se que a maior parte das famílias era de numerosos filhos, dez ou mais, como na nossa. Ainda se vivia em um Brasil predominantemente rural e produzir braços para a lavoura era o paradigma em vigor. E, claro, demonstração de macheza e fertilidade. As amizades ou companheirismos entre membros das diferentes famílias eram escalonados conforme as diferentes idades. Filhos de dezoito anos de uma família relacionavam-se com os filhos de dezoito anos de outras. E assim sucessivamente. Não raro, se me aproximava de um irmão mais velho, que conversava em sua roda especifica, era enxotado com uma frase como: ”cai fora moleque, isto não é conversa pra você”. Coisa que, é claro, reproduzi em relação a meu único irmão mais novo.

 Minhas irmãs brincavam de roda e bonecas, como todas as demais. Tínhamos uma vizinha (Dona Mirtes, acho) que era a grande costureira local. Fazia nossas roupas e, parece, não cobrava muito caro por isso, ou talvez fiasse. Maldosamente pensando, talvez o fizesse porque um de meus irmãos fosse o namorado de sua única filha, que era feia de doer. Ele por sua vez era um dos grandes e poucos partidos das redondezas. Diferente da maioria dos adolescentes daquela época, seguindo a filosofia educacional de meu pai, não parou de estudar ao fim do Científico e estava em vias de ingressar, assim como o irmão mais velho, na carreira militar. Vai daí que, futura sogra de um oficial do glorioso Exército Brasileiro, em Piquete, seria o sonho.

 Minhas irmãs frequentemente me encarregavam de ir à casa de Dona Mirtes para que esta lhes fornecesse restos de pano -retalhos melhor dizendo – que em nossa casa seriam transformados em roupas de bonecas. Com isso adquiri alguma intimidade com o tafetá, a cambraia, o gorgorão, o morim, o brim e o veludo. Assistia minhas irmãs em suas artes e acho que cheguei mesmo a dar alguns pontos, porcamente alinhavando dois pedaços de pano. Um de meus irmãos presenciou essa heresia e me enquadrou devidamente, informando-me que tais arroubos não poderiam ser permitidos a um macho da família. Que fosse brincar de bola, caçar passarinhos com estilingue ou nadar no ribeirão. Talvez aí a alta costura brasileira, mesmo internacional, tenha sido a mais prejudicada, dando chance para outros, menos talentosos, se projetarem mundialmente, como Denner, Armani, Chanel e Gucci.

Meu irmão, o que namorava a feia, era um exímio desenhista, à mão livre. Desenhava principalmente cowboys. Esse talento reapareceu também em mim, sem que, porém, jamais atingisse o nível dele. Mas era elogiado em casa e cheguei mesmo a acreditar que era bom naquilo. Em minha primeira semana de escola houve um concurso de desenho na minha sala de aula. Caprichei o máximo que pude e produzi uma gravura com cowboys e índios americanos, com seus cavalos e tendas piramidais. Os colegas que a viram antes de entregar para a professora ficaram admirados. Comentando em casa, todos foram categóricos em dizer que minha vitoria eram favas contadas. Não foi. Perdi para um outro coleguinha com um desenhozinho bem chinfrim (ó despeito!). Chorei como bezerro desmamado e exigi que alguém maior fosse chamar a professora às falas. Era uma flagrante injustiça. Após o confronto solicitado fui informado que meu desenho nem foi incluído na competição por ser bom demais, muito acima do nível máximo esperado. Acreditei e sustei meu pranto. Passado algum tempo comecei a achar e depois ter quase certeza de que mentiram, caridosamente, pra mim. O outro camaradinha é que era melhor mesmo. De qualquer forma nunca mais toquei no assunto e convivo com essa dúvida existencial grave até hoje.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.