A novidade está na praia

Em 18 de março de 2019 às 08:46, por Gilson Gil.

compartilhe

A novidade está na praia- Em 1986, os Paralamas do Sucesso lançaram, com muito sucesso, a música “A novidade”, no álbum (o antigo LP) “Selvagem”. Falam, entre outras coisas, que a novidade poderia ser um “sonho”, mas poderia virar “um pesadelo”. Tinha jeito de “sereia” e de uma “deusa maia”. Enfim, a novidade seria uma incógnita, algo a ser descoberto.

Em tempos de novidade na política, certos temas reaparecem, outros desaparecem e o cenário se reorganiza. Assim como o país, o Amazonas precisa enfrentar seus demônios e superá-los. A crise persiste, renitente como só ela sabe ser. A inflação foi contida, mas o crescimento econômico não veio e o desemprego volta a crescer. O Brasil continua parado, esperando que chovam demandas chinesas por commodities ou que o agronegócio fique mais “pop” e continue sustentando nossa economia.

As questões morais continuam em voga. Dominam o cenário nacional. Os assuntos mais debatidos permanecem os vídeos eróticos do presidente, o moralismo inusitado da esquerda e o significado de termos sexuais. Nada, nem uma linha, sobre o desemprego que voltou a crescer. São milhões de brasileiros sem emprego, sem renda e sem esperança que continuam embalados pelo kit gay, pelas críticas à mídia (tanto de esquerda como de direita) e por um apelo constante à “resistência”. Contudo, seja a “resistência” ou o moralismo nacionalista dominante, em uma coisa todos concordam: ninguém fala de desemprego, desenvolvimento, indústria, agronegócio ou livre comércio. Os debates econômicos parecem estar censurados. No máximo, um genérico apelo aos “direitos trabalhistas” aparece de vez em quando. O superministro reage com a mítica afirmativa de que a “reforma da previdência fará o Brasil crescer 3% em 2019”, sem explicar de onde tira tais cálculos.

A novidade, nacional ou estadual, precisa começar a falar sobre esses assuntos chatos, mas importantes, como economia, desemprego e tecnologia. Quatro anos passam rapidamente, caso passemos o ano discutindo religião, sexualidade ou carnaval.

Enfim, é hora de pensarmos em alternativas maiores. Seria bom falarmos em uma política industrial, impostos (as promessas de campanha de que eles baixariam sumiram?!), uma reforma que simplifique a arrecadação e a tributação, ou seja, é o momento de se pensar em saídas reais para esses problemas. A própria reforma da previdência precisa ser melhor detalhada. Seus efeitos reais devem ser explicados. Os cálculos sobre suas vantagens precisam ser explícitos e bem esmiuçados.

A relação desses temas maiores, incluindo outros, como meio ambiente, agronegócio, mineração, logística e infraestrutura, com o Amazonas e nossos impasses também deve ser prioridade na pauta política local. Visitar hospitais e falar de buracos é importante, sem dúvida. Porém, é hora de avançar nos debates e nas propostas. A novidade pode virar um pesadelo em poucos meses, se não achar respostas. Os brados de que tudo é “problema de gestão” têm um prazo de validade, assim como os iogurtes na geladeira.

Mais adiante, vamos trazer tais dilemas para nossa realidade. Ver o que se pode pensar para o “nosso quintal”, como diria Voltaire.

 

Articulistas Gilson Gil 

Comentários:

sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.