A brincadeira de empinar papagaio

Em 14 de fevereiro de 2019 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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A brincadeira de empinar papagaio de papel não era uma brincadeira radical, mas a negativa dos meus pais para sua prática era. Eles não precisaram ser incisivos, muito menos repetitivos, eu e meu irmão, Cadinho, absorvíamos as advertências como conselhos. Se não temos histórico algum nessa arte, tampouco carregamos traumas. Isso não quer dizer que eu não gostasse, gostava, e muito, apenas respeitava os fios elétricos de baixa e alta tensão, em sua maioria embandeirada de carcaças de papagaios, rabiolas e bole-boles.

Certa vez confeccionei um papagaio, claro que ficou mais pra “cangula” que pra bonitão; mais pra “casqueta” que pra carrapeta. Mas, amarrar aquelas talas de buriti com linha de costura, dar forma ao esqueleto com a mesma linha que uniu a tala vertical com as duas horizontais, depois vesti-lo, ainda que toscamente, com papel de seda colado com goma branca – a mesma do tacacá – e, finalmente, vê-lo produto acabado, emocionou o menino que eu era.

Também temia pelas consequências que a linha com cerol pudesse causar se decepasse um fio elétrico ou se, desgraçadamente, cortasse o pescoço ou braço de um inocente qualquer. Contudo não me furtava de apreciar o Fernando, um amigo lá da Vila Martins, na Rua Jonathas Pedrosa, a produzir um cerol campeão. Às vezes ele pilava vidro de garrafa, às vezes usava pó de aço de serralheiro ou do que as pilhas de rádio hospedavam, entretanto, o imbatível, o que fazia sucesso nas “tranças” era o pó obtido da lâmpada fluorescente pilada. Esse pó era misturado aos tabletes de cola branca ou amarela, comprados na Casa Renascença, lá na Rua Joaquim Nabuco, próximo ao Canto do Quintela – Av. Sete de Setembro com Joaquim Nabuco -, levados ao fogo, normalmente em uma lata de leite em pó, até derreter, pronto estava preparado o cerol.

Afinar o cerol era outra arte. Primeiro esticava-se as linhas oito, zero, um, ou dois zeros de um poste a outro quantas jardas quisesse – naquela época os ingleses monopolizavam o abastecimento de produtos têxteis no Brasil, por isso o uso dessa unidade de medida – depois, enquanto uma das mãos passava grosseiramente o cerol na linha esticada, a outra ficava embaixo com a lata de leite ninho a aparar as gotas para que não houvesse desperdício algum. Após isso, aí sim, partia-se para a parte mais aprimorada, a afinação. Vi neguinho a afinar cerol só com os dedos, outros com algodão, outros com papel de seda e até com a unha. Na única vez que experimentei afinar usei a unha, resultado: criou um túnel tão profundo na unha do meu polegar direito que eu só percebi quando senti a dor e vi o sangue a escorrer.

Ficava admirado de ver a aptidão de alguns na medição e confecção da barrigueira e peitoral; da sacada de botar uma “penseira” compensadora quando o papagaio pendia mais para um lado que para o outro; de cortar uma lamina de barbear ao meio, incrustá-las em palitos de fósforo, amarrá-las cuidadosamente com linha fina e depois prender o artefato resultante no fim da “rabiola” e assim dispor de mais um recurso para a disputa da rinha aérea.

A Vila Martins era meu segundo endereço, quando não estava na minha Rua estava lá, na casa dos meus avós. Era menino à beça: na entrada da Vila morava o João, um fortão, praticante de halterofilismo; em frente era a casa do Carlinhos, filho da dona Oscarina e do seo Alberto, salvo engano, gerente do guaraná Andrade; subindo a Vila tinha os irmãos Nonato, Ribamar, Neneca, Clidito, Tchoi e Graça – essa menina era bonita e cedo casou com o Nino Gato, um sujeito de olhos claros que primeiramente ganhou a etapa manauara do concurso de calouros da Buzina do Chacrinha e depois venceu a etapa nacional – ;a seguir vinha a dona Dionízia, uma tacacazeira das boas, cuja filha, Benvinda, tinha uma filha de nome Rose, mas que todos chamavam de carauaçu; após, minhas primas Helena, Betinha e Margareth; depois, penso que a Dona Odete, mãe da Graça, tia da Lenise Maria e da Leila Matos , a moça que abalou Manaus e quase mata a vó ao desfilar de top less no carnaval daqui – aquele sim, um air bag de espocar fecho-éclair – ; aí tinha os irmãos Lilito e Edmilson; os também irmãos, Dego – o cara que tocava violão e que uma vez engatou por aproximados trinta minutos os versos da mesma música “ …fez uma bolinha e jogou no chão e a chorar deixou-me sem dizer adeus” – , Beto e Renato; idem, Gilberto, Laurita e Magali; antes do fim da Vila residia o César, primo do Frederico e do Mauro Bundinha; no fim da Vila os irmãos Jorge e Zequinha; descendo, residia o Cleomir – Seo Dedé, pai dele, tinha um carro importado, tipo compacto, conversível e preto, era mais mimado que o Cleomir – ; e os irmãos Fernando, Laura, Mirtes e Reinaldo; dobrando o beco que a Vila acolhia, moravam os irmãos Geraldo, Gilson e Armínio; também, os filhos do Seo Eládio, acho que Eládio Filho e Marquinho; retornando do beco, na esquina, morava o Floriano, o “ Bitalina” , e o primo dele, o homem do sebo – o apelido, parece, residia no singelo detalhe de que ele não higienizava bem seu instrumento que, naquela tenra idade, só servia pra fazer xixi – ; descendo e dobrando a esquerda tinha a Bete o seu mano, Aníbal; os irmãos César e Sergio, o sujo, filhos do Seo João, dono da melhor loja de material esportivo de Manaus, o Bazar Maciel; meu primo irmão, Armando, o Pixote, e sua irmã, Elaine; finalmente ao lado, os irmãos Frank, Edmilson, o barriga, e o Vaquinha – esse moleque quando flechava papagaio o corpo flechava junto.

Fernando e Lilito eram os caras das “tranças” de papagaio, na maioria das vezes “cortavam” os concorrentes. A cada sucesso ouvia-se o coro: descai, agora colhe “queida”! “Esse foi no talo”! “Esse foi na mão”! E o melhor de todos os resultados de “tranças”, aquele em que eles “cortavam e aparavam” os papagaios oponentes, maravilha! E quando tinha “bolada”? Ganhava quem colhia mais rápido. Nunca vi ninguém colher mais rápido que o Fernando, era uma máquina. Reza a lenda que o Telemão, um cara que morava na Av. Sete de setembro e rivalizava na confecção de papagaio e cerol com o mais famoso, o Russo, tinha uma máquina de colher que o fazia ganhar todas as “boladas”. Se o Telemão colhia com máquina, o Russo tratava seus papagaios – verdadeiras obras de arte – de forma tão profissional que os personalizava ao colar, na ponta das barrigueiras, um minúsculo pedaço de papel de seda. Também achava um capricho as maçarocas de linha com cerol cuidadosamente enroladas por cima do carretel, devidamente acompanhado de um pedaço de tala enfiado no seu miolo oco.

Muito me agradava correr atrás dos papagaios “queidados”; às vezes munido de uma vara, às vezes de bole-bole (um pedaço de linha com uma pedra amarrada na ponta). O culhão de bole (um pedaço de linha com uma pedra amarrada em cada uma de suas extremidades) era utilizado para baixar a linha esticada e alcançável de algum papagaio empinado. Mas essa prática eu achava desigual porque traiçoeira, além do que, havia o risco do dono do papagaio identificar o local e o autor do feito, aí podia pintar, no mínimo, um cascudo. Pra quem já carregava, como eu, um mondrongo na cabeça, ganhar um galo por conta de um papagaio era uma estúpida escolha.

É claro que eu empinei papagaio, duas ou três vezes, nunca onde tivesse fios elétricos, sempre em campo aberto ou sítio. A sensação era mágica, de liberdade, a força do vento que o empinava e esticava a linha era comparável à resistência do peixe fisgado contra a linha e a força do pescador.

Nessas poucas vezes em que empinei papagaio, sonhador que sou, imaginava trocar de lugar, a ter o papagaio no chão a me sustentar por uma linha e eu a voar, flechar, subir, “embiocar”, brincar de riscar os céus e depois, cansado de tantas estripulias ao vento, de tanta coreografar, mansamente me recolher e dormir pendurado na escápula da parede do meu quarto, com o peito cheio de felicidade de tanto voar e a esperança de, no dia de por vir, novamente sentir o prazer da liberdade e voar, voar, voar…

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.