A AMAZÔNIA E SEUS DILEMAS

Em 4 de setembro de 2019 às 08:32, por Gilson Gil.

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O mundo fala da Amazônia e seu desmatamento. Fotos da floresta em
chamas inundam os jornais do globo. Nas redes sociais, aparecem fotos as
mais diversas, retratando a suposta “verdade” sobre a Amazônia. Adversários
políticos se xingam pela internet, trocam acusações e ofensas diariamente.
Contudo, falta equilíbrio e reflexão. O ânimo dos debates está inflamado e
interesses das mais variadas espécies se cruzam atualmente.
Alguns pontos precisam ser pensados. Em primeiro lugar, as queimadas
e o desmatamento que tanto falam são essencialmente de Rondônia, estado
que há anos investe no agronegócio e no desenvolvimento econômico. Isso
reflete no sul do Amazonas. Locais como Apuí e Novo Aripuanã sofrem com
esse avanço capitalista. No restante do estado, a situação é razoavelmente
controlada. Outros estados, como Pará e Roraima, sofrem com dilemas
diferentes, tais como o garimpo e os venezuelanos.

Arrisco a dizer que o maior problema daquela região não é ambiental,
mas econômico. As opções do interior amazonense são reduzidas. A
perspectiva que o agronegócio abre para essas comunidades é real. Não se
pode desprezar o poder atrativo que os negócios abrem para essas cidades
com pouco potencial de crescimento. No momento em que a proximidade com
Rondônia e o com os estados do centro-oeste abre tal possibilidade, não
podemos pensar essa questão na batida moralista do bem x mal.
Por outro lado, o governo federal fica, especialmente o presidente,
preferindo acusar ONGs, fazendeiros e indígenas do que trabalhar e refletir
sobre o modelo econômico da Amazônia. Pensar a questão ambiental
amazônida é indissociável da questão econômica. Não dá para pensar uma
sem tocar na outra. Quando o presidente e o ministro do meio ambiente se
recusam a entrar diretamente nessas questões mais profundas, preferindo ficar
no espaço do bate boca improdutivo pela internet, abrem o espaço para críticas
de pessoas insólitas no ambientalismo brasileiro, como Madonna e Cristiano
Ronaldo, ou das fotos mais improváveis, como aquelas que exibem girafas e
falam ser das queimadas na Amazônia.

Enfim, penso ser necessário ver o tema de maneira mais prática e
profunda. Trocar xingamentos pela internet é algo improdutivo e desnecessário.
Os países europeus ficam ameaçando cortar verbas, impondo punições, algo
que só estimula o nacionalismo, coisa que o governo patrocina em larga
medida. Aliás, essas verbas são uma caixa preta. Seria interessante que esses
governos dissessem quais os projetos que seriam afetados, onde eles atuam e
quantas pessoas serão atingidas. Seriam dados importantes nesse debate.
Pelo lado do governo federal, penso ser necessário que se passe do
xingamento à ação. Se o presidente e o ministro querem mudar o modelo
ambiental da Amazônia, é válido. Contudo, precisam criar projetos, leis e
códigos novos. Devem levar ao Congresso tais projetos e dialogar com os
partidos e com a sociedade. Caso tenham a maioria, que aprovem suas ideias.
O que não adianta é ficarem enviando insultos pela mídia aos adversários
políticos. O país precisa de empregos, renda e também de um meio ambiente
equilibrado. Trocas de ofensas, fotos demagógicas e xingamentos recíprocos
não resolverão os problemas do Amazonas e do Brasil, em especial de suas
comunidades interioranas necessitadas e vulnerabilizadas.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.