A 1ª Feira de Incentivo ao Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas – FIDEA

Em 13 de maio de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Tudo acontecia no quadrilátero: deu duas misses Amazonas; promoveu o primeiro carnaval de rua de Manaus; chorou com a explosão da caldeira da Santa Casa; organizou corrida de rua entre vizinhos; deu shows de futebol na calçada; concentrou grupos folclóricos; foi rota de procissões e é dono da esquina que pariu histórias sem fim. Foi nesse ambiente que numa tarde de maio de 1967, eu corri pra abelhudar o que tantos operários, telhas de zinco, compensados de madeira e latas de tinta faziam amontoados na calçada da Rua José Clemente. Isso tudo distribuído no trecho compreendido entre a Av. Eduardo Ribeiro e a Praça São Sebastião, ao longo de toda a extensão lateral do Teatro Amazonas. Não tinha como conter minha curiosidade, na idade que eu tinha agitações assim só ocorriam durante o Festival Folclórico. Fora isso alguns arraiais em bairros com direito a pescaria, bingo de galinha assada entregue ao vencedor em um prato de papelão coberto por papel celofane de cor e, especialmente, os impagáveis anúncios nos autofalantes: “alguém de camisa azul oferece para a moça de vestido rendado cor de rosa, a música Because I love; os desfiles escolar e militar de 7 de setembro; carnaval de rua na Av. Eduardo Ribeiro e a malhação de Judas durante a semana santa. Fora isso era um tanto fazer sem tecnologia alguma, que nossos filhos e os filhos dos nossos filhos – gerações de condomínios – não acreditariam.

A agitação decorria dos preparativos para a 1ª Feira de Incentivo ao Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas – FIDEA, um evento promovido pela recém-criada Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA, acontecimento que contou com o apoio do Governo Estado, Prefeitura e Federação das Indústrias. Em uma área de 7.000m² foram montados 130 stands a expor todos os produtos saídos das fábricas instaladas em território amazonense. Durante um mês, do dia 21 de maio a 20 de junho, entre as 18 e 23 horas, foram mostrados ainda, couros silvestres extraídos da imensa fauna amazonense e beneficiados em Manaus, e diversos outros produtos comercializados na praça local.

A Feira trouxe atrações musicais especialíssimas: Agnaldo Timóteo, Zimbo Trio, Brazilian Beatles, Maritza Fabianni, Renato e seus Blue Caps e um Conjunto da Guiana Inglesa com nome que, se não era esse, se aproximava, Des Glasford`s and The Combo 7. Os caras arrasaram cantando Only You e See You in September, e deixaram todos boquiabertos com os sons que extraiam de camburões de ferro.

Um torneio internacional de luta livre trouxe os brasileiros Átila, o ” matador árabe”, Arnaldo, Braz “Cangaceiro”, Búfalo, Manhães e João Isaac, o talvez peruano Romero, o chileno Arturo e o portuga careca chamado Barrigana. As lutas eram diárias e as preliminares ficaram por conta dos lutadores locais: Lobo Selvagem, Umbelino, Boy do Ringue, Alberto, a ” Bomba”, Tigre da Amazônia, El Cholo, Argos, Demolidor, Mini Maciste, Tourinho…

Aportado no Rodway estava o transatlântico Rosa da Fonseca. Lá foram montados stands para atender empresários paulistas, embaixadores dos Estados Unidos, Japão e representantes de alguns países europeus, que vieram prestigiar a Feira e, naturalmente, prospectar as vantagens que a ZFM prometia. Completavam o pacote para agradar aquele seleto público, belas mulheres, bebidas, música e acepipes.  Membros do governo, obviamente, assinaram presença.

Se os curumins e cunhatãs só tinham os eventos antes citados, os adultos não podiam reclamar, os acontecimentos sociais naqueles dois meses efervesceram a capital. Em nota pelo Ideal Clube o colunista Nogar informava ao Grand Monde manauara o Baile do Companheirismo em homenagem ao Lions clube Vitória Régia, Centro, Uirapuru e Rotary, que ele promoveria no dia 27 de maio para apresentar ao mundo social amazonense as treze Rosas de Maio. Os interessados deveriam ir ao clube e lá contatar o Geraldo, claro. No dia 24 do mesmo mês, com cenário idealizado por Roberto Carreira, o RIAMA Club apresentou, no Atlético Clube Barés, a escolha da Rosa de Maio Riamista, festa animada por Domingos Lima e seu Conjunto; de 18 a 29, no campo do General Osório, o Festival Folclórico; de 19 a 22, sob os cuidados do Departamento de Promoção Social – DEPRO, tendo como titular o querido Joaquim Marinho, a II Festa da Juta; e, finalmente, em 09 de junho ocorreu a escolha da Miss Amazonas, com Nelma Batista desbancando seis beldades, dentre elas Irene Toscano e Zeina Chamma.

Dois fatos sobressaíram: enquanto todos os olhos se voltavam para as candidatas a Rainha da Juta que lá desfilavam em trajes feitos daquela fibra vegetal, eis que o colunista Nogar, provavelmente para agradar o honrado diretor presidente da Brasiljuta, Dr. Mário Guerreiro; talvez para provar que a juta servia, inclusive, para vestuário, surgiu, todo prosa, dentro de um paletó de juta, que tal? Não sei o que mais chamava a atenção, se o pavoroso paletó ou o suor que encharcava seu rosto. Exclamaria o saudoso colunista Gil: ploft! O outro foi durante a última luta livre, o portuga Barrigana tomou distância e correu para finalizar o Cangaceiro com uma cabeçada, sua especialidade. O que ele não contava era que o oponente não faria o previamente combinado. Cangaceiro, como autentico cabra da peste, se esquivou e o Barrigana, coitado, arrebentou a cabeça no poste do ringue. Abriu uma brecha tão grande que dava pra ver o céu da sua boca.  Esse episódio deu tanta popularidade ao lutador português, especialmente entre a meninada, que o amigo Arnaldo Russo, de vez em quando, ainda chama o Robertinho Caminha de Barrigana.

Convido quem teve saco de ler essa crônica até aqui a fechar os olhos e imaginar a Feira com seus 130 stands, mesas e cadeiras distribuídas ao ar livre, serviço de restaurante, desfile de candidatas a Rainha da Juta, cantores a interpretar seus sucessos, lutadores a se enfrentar, o Nogar, suadíssimo, a trajar um paletó de juta, um portuga com a moleira rachada, gente à beça e uma lua que só por aqui há. Isso tudo na Rua que igual não há. Égua, fala sério! Aquele quadrilátero não tem par!

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.