Xerife Glêz x Xerife Bosco Spener, uma porrada dos vera

Em 9 de dezembro de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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O mais importante poeta do Arcadismo de Portugal – século XVIII – foi Manuel Maria Barbosa du Bocage. Bocage participou de uma espécie de associação de poetas chamada Nova Arcádia com o pseudônimo de Elmano Sadino, depois cansou, abandonou a poesia artificial e começou a falar de seus dramas amorosos e existenciais. Junto com Camões e Antero de Quental, Bocage é um dos maiores sonetistas líricos da literatura portuguesa. Acusado de satirizar o clero e a nobreza, foi processado e preso pela inquisição. Deixou fama de poeta satírico e, com o tempo, seu nome tornou-se sinônimo de contador de histórias picantes e obscenas. No Brasil não foi diferente, meus contemporâneos sabem muito bem do que eu estou a falar. Toda e qualquer piada “pesada” era ou não era a ele atribuída? As novas gerações o desconhecem, nós não, e como aqui só seus “filhos” me “curtem”, um soneto dele: Soneto do gozo vitorioso.

Que abrimentos de boca! Tens preguiça?

Hospeda-me entre as pernas este malho

Que eu te ponho já tesa como um alho.

Assim como as piadas e sonetos de Bocage dormiam nos arquivos da minha memória, as peripécias do Bosco Spener descansavam na petisqueira da minha saciedade. Até que a grelina me atacou sem dó. Ora, caboco quando tá com fome só literatura não lhe basta, o bucho carece de sustança, aí o cardápio pode lhe negar bobó que ele se contenta com Bobô (apelido do Bosco); sonegar charuto árabe que ele se esbalda com Charuto (outro apelido) Spener, foi o meu caso. Com todo respeito, ilustre Bocage, a iguaria de hoje é Bosco Spener.

Nossa Arena da Amazônia era o campo do Ezagui e o cara bom de bola, pião, papagaio, bolinha e porrada era o Bobô. Wyatt Earp, o lendário xerife do oeste americano, por exemplo, também foi um jogador – de cartas – notável, mas precisava de armas de fogo pra detonar seus desafetos, sua frase célebre era: “eu sou a lei e isso acaba aqui”. Já o xerife do norte brasileiro enfrentava bandidos, xerifes malvados e não precisava de armas de fogo, fazia justiça, literalmente, com as próprias mãos, sua frase lapidar era: “se frescar leva porrada”.  O americano é lendário, o Bosco não.

Glêz era o temível xerife do Beco da Bosta, sua jurisdição abarcava o Bairro de Aparecida todinho, que vai desde o Igarapé de São Vicente com o Rio Negro até o Igarapé de São Raimundo e prossegue até o Igarapé da Castelhana; em terra firme encontra limite na Rua Luiz Antony e vai até o início da Rua José Clemente – onde começa o Colégio Militar -, depois retorna ao Igarapé de São Vicente até se encontrar com o Rio Negro novamente. O perímetro jurisdicional era esse, mas sua marra e fama não tinham fronteiras. Baixo, forte, largo e nariz aberto – a cara do Dr. Zaius, o orangotango da primeira versão do Planeta dos Macacos – e bom goleiro, diariamente avançava a fronteira pra treinar ou jogar futebol de salão no Atlético Rio Negro Clube. Xerife Glêz era perverso e, como nas histórias do Wyatt Earp, o duelo dele com o xerife Bobô era uma questão de tempo.

Dia após dia o desempenho do goleiro Surubim – gracioso apelido de menino do competente médico Douglas Lima –, a jogar pelo time juvenil, chamava a atenção de todos e já se apresentava como uma ameaça a hegemonia do titular absoluto, o espetacular Flavio Lapiseira.  Conta-se que inúmeras vezes o Lapiseira, ao mirar-se no espelho com aquele equipamento todo preto, via refletir a incomoda imagem da jovem promessa.  A qualidade do goleiro Douglas era tamanha que logo barrou o Glêz. Ora, isso não poderia ficar confinado entre os muros do Rio Negro Clube por muito tempo, assim, o intrépido goleiro revelação foi exibir suas habilidades na quadra do General Osório. Por razões que não eximem a inveja, Glêz, sem que nem porquê, quase fura a cabeça do Douglas com um cascudo daqueles em que o agressor sobressai o anelar com o auxílio do polegar. Nosso goleiro abriu o maior berreiro e, de pronto, recebeu o acudimento dos amigos. O melhor remédio pra galo na cabeça de menino chorão não é gelo na cabeça, é picolé na boca. Assim, abatidos, os meninos da Rua rumaram em direção à sorveteria do seo Severino, porque apenas e tão somente o picolé de banana poderia represar aquela torrente de lágrimas e dor do agredido e amainaria a enorme frustração de seus pares. Foi aí que… tcham tcham tcham tcham, tal qual um super herói, eis que surge o xerife Bosco Spener, o poeta das porradas de rua, presidente da Associação dos Meninos Carentes de Proteção – AMCP, defensor de Barrigas, Belmiros, Pepinos, Papinhas, Chapeletas, Pombos e Surubins.

-Por que que tu ta chorando Surubinha?

-O fdp do Glêz me deu um cascudo, buáááááááááááá!

-Engole esse choro e vamos lá!

O xerife Charuto Spener era bom de porrada, mas o oponente era atarracado e tinha uma fama aterrorizante.

Preocupado, o Barriga indagou:

-Porra Surubim, tu és foda! E se o Bobô rodar na porrada pra aquele orangotango?

 -Ele vai dar porrada naquele veado e pronto.

Ao chegar a quadra o xerife Bosco Bobô Charuto Spener perguntou pro Glêz:

-Por que que tu bateste no Douglas, Glêz?

-Porque quis, ora porra! Bati, tá batido e ninguém tira. Se quiser tinir, bota pra cima.

Bosco tinha uma técnica única de tirar a camisa: com os braços em x ele segurava a ponta debaixo da esquerda da camisa com os dedos da mão direita e da direita com os da mão esquerda, a camisa saia tão rápido que nem parava. Descamisado, partiu pra cima do Glêz a balançar as mãos como se fosse o Tigre da Amazônia em noite de telequete. O oponente se abestalhou e levou a primeira porrada na ponta do queixo; o impacto o deixou meio leso e o Bosco partiu pra cima; o infeliz xerife do Beco da Bosta caiu de braços abertos no primeiro dos dois degraus da quadra, aí o Bobô danou-se a enforcá-lo sem piedade. Enquanto isso a turma da Rua gritava:

– Num mata não, Bobô, enche de porrada o nariz desse fdp.

O facínora foi salvo por uma legião de soldados do 27 BC- Batalhão de Caçadores. Em seguida o Sargento Ritta, amigo da garotada, chegou e bradou que nem o Jango no comício da Central do Brasil: Deixem os garotos! O problema já foi resolvido, os dois são machos e está tudo acabado.

Ao meio-dia o relógio da Matriz bateu e a meninada foi pra casa, quatro horas depois estourou uma notícia bombástica no Beco da Bosta e que logo se alastrou por todo o Condado de Aparecida e adjacências, Robertinho Caminha assim a recebeu: Barriga o Bosco deu tanta porrada no Glêz que ele ficou doido. Tu acreditas que ele se vestiu de mulher, passou batom vermelho nos beiços e rouge nas maçãs do rosto, pintou as unhas, colocou bobs no cabelo e está desfilando igual uma mulherzinha lá na estância? Não tem quem faça ele colocar o calção e ir pro treino do Rio Negro. Daquele dia pra frente – e isso não é piada do Bocage – os calções foram doados e seu guarda-roupas passou a receber saias e vestidos.

Não se subscreve o que um passarinho conta, um me disse que ele passou uma temporada no Rio de Janeiro, lá frequentou a Galeria Alaska e virou Pantera. Pois bem, um orangotango transformado em pantera pode até parecer satírico, já o Bosco Spener, na base da porrada, ter feito a primeira cirurgia de mudança de sexo do mundo, não tem nada de lírico. A poesia pode estar na derradeira pergunta: Teria o episódio cirúrgico influenciado o Douglas a se tornar o grande ginecologista que é?

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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