UMA VERDADE QUE INCOMODA

Em 29 de janeiro de 2019 às 09:13, por Gilson Gil.

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O governador eleito teve uma reunião, neste início de ano, com a equipe econômica do governo federal muito importante. Discutiram o futuro real da Zona Franca e sua viabilidade. Foram assegurados alguns direitos constitucionais e foi dito que ela continuará existindo. Porém, como em outras ocasiões, o governador tomou um “pito”. O ministro da economia disse que é hora do Amazonas achar alternativas e buscar outros caminhos para se desenvolver. Em outras oportunidades, especialmente no governo Collor, isso já foi dito. Infelizmente, a arrecadação espantosa do PIM e seu faturamento elevado deixaram que nossas elites política e econômica continuassem acomodadas e imobilizadas.

A singularidade do momento atual é que o governo federal não parece disposto a conceder benesses ou acalentar especificidades fiscais. O paradigma político e ideológico mudou. O credo liberal dos dirigentes da economia nacional não parece propício à manutenção de “enclaves” regionais. Certamente que a Zona Franca é um projeto vitorioso de desenvolvimento local, com reflexos positivos no meio ambiente e na economia. Contudo, certos impasses do país não permitem que, outra vez, se peça mais paciência e prazos.

Não é hora, entretanto, de desespero. É hora de trabalhar e planejar. É hora de inovar e buscar fórmulas criativas e sustentáveis de desenvolvimento. É preciso entender que medidas imediatistas e temporárias, como gastar milhões em obras localizadas e dispersas, não conduzirá a uma mudança no modelo econômico vigente. Abrir ramais ou asfaltar cidades pode ser algo interessante em nível emergencial, tirando comunidades do isolamento ou melhorando a vida de alguns bairros de cidades do interior. Porém, o que o Amazonas precisa buscar é inserir tais obras em planos maiores, que articulem logística, geração de energia, sustentabilidade, infraestrutura e geração de emprego.

Isso tudo sem falar em buscar meios que nos insiram na modernidade em termos de ciência e tecnologia. Há países como Israel, que apostaram em modelo que privilegiasse o desenvolvimento tecnológico, priorizando a quarta revolução industrial e seus desdobramentos digitais. As universidades e os governantes precisam mostrar resultados e apresentar planos que elaborem esse caminho. De que adianta formarmos milhares de advogados e pedagogos todos os semestres, citando apenas esses cursos como exemplo, sem uma reflexão sua real necessidade. Quais seriam os cursos realmente importantes para o estado? Quantos profissionais em cada área seriam necessários? Que áreas deveriam ser priorizadas? É necessário que certas metas sejam criadas e os meios para atingi-las sejam elaborados. E isso tudo sem falar em atividades como o turismo, a agricultura, a pecuária e a mineração, que sempre são mencionados como alternativas, mas nunca recebem a devida atenção das autoridades.

Em suma, é um momento ímpar de revisão de conceitos, no país e no estado. Ainda teremos o PIM e seu faturamento elevado por mais alguns anos. Contudo, o gargalo está cada vez mais estreito. Há possibilidades reais, mas o tempo corre e torna-se mais e mais um inimigo e não um aliado.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.