Uma meia maratona e três patinhos na lagoa

Em 11 de agosto de 2017 às 14:00, por Jeferson Garrafa Brasil.

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Tenho uns mantras pra me segurar naqueles momentos da prova em que as pernas vacilam, a cabeça fraqueja e vem aquela vontade danada de jogar a toalha. Vou usando cada um de acordo com a situação. Vai do “falta pouco”… passa por “treinei pra isso” e faz escala no “é pros meus filhos”. Por aí.  Acredito piamente que a grande maioria dos corredores, tenha um.

No final de julho, saí de Manaus pra fazer a 21K Golden Run, no Rio, dia 30.  Meu treinador e parceiro – o competente Sidney Arruda – mais que a correta estratégia da prova, deu o mote: “Garrafa, faz essa meia pra curtir, te divertir. Tamo junto”.  Com percurso feito  em grande parte “tendo o mar por testemunha”, foi extremamente fácil atende-lo.  Motivo da recomendação: há cerca de um ano estou tratando um carcinomazinho na córnea direita, e isso atrapalhou “um pouco” minha rotina de treinamento.

Há quem não concorde – e eu respeito – mas, prova no Rio, que começa no Leblon, segue a orla, belisca o Centro, e fecha  a conta no Aterro do Flamengo, não tem como não ser gostosa de fazer.  Principalmente com o clima e ambiente ótimos na hora da largada, às 7h.

Estava tudo dentro do script, quando lá pelo Km 12 uma dorzinha aguda no lado externo do joelho esquerdo, deu sinal de vida. “Putz! Falta quase a metade da prova!”.  2 Km´s depois eu já não conseguia correr direito, e, pior, não tinha mantra que desse jeito. É quando se pensa em tudo e nada ao mesmo tempo. “Aborto, não aborto? Será que dá mesmo?”… Reduzi bem o ritmo e, no meio dessa confusão,  veio à luz o mantra salvador –  quase uma sentença  divina: “garoto, essa é aquela situação que separa homem de menino”. E VQV! Tinha momentos em que o menino queria pedir arrego…  o homem seguia em frente. Em outros, invertia tudo. Essa simbiose homem-menino me fez terminar os 21K da Golden, mas, confesso, os últimos Km´s foram feitos na raça!  O tempo? Longos 2’22” – os três patinhos na lagoa.

Peguei a medalha. Feliz. O joelho? Doendo tudo o que tinha direito. E eu? Feliz. Encontrei um casal de Manaus, os amigos Alexandre e Cíntia Hossokawa, que também estavam felizes. Ele, top 100, com 1’24”; ela, por ter feito tempo abaixo de sua última meia maratona. Pegamos um táxi e fomos pro hotel deles. Café, bater papo, relaxar. Só alegria.

Voltei pro meu hotel caminhando pelo calçadão do Leblon. Mancava, pois, a cada passo, o joelho doía – quem teve essa dor, sabe do que estou falando.  Mas, continuava feliz.  Vá entender. Coisa de corredor, meu amigo.

Refletindo, cheguei à conclusão de que não corri contra os longos 21K; não corri contra alguém especificamente; não corri nem mesmo contra mim. Minha corrida foi contra aquela dor. E, afinal, venci.  Aquele sol,  aquele mar, trouxeram à mente o verso final de um sambinha que a turma dos tempos de faculdade desafinava pelos botecos de Manaus:

“E lá vou eu dia de sol, de futebol pela calçada de chinelo” “Encontro logo o caricaturista Otelo” “Que mora em Ipanema e vive no Leblon” “Porque o Leblon é muito bom”.

Valeu demais e até a próxima.  Fui!

Uma meia maratona e três patinhos na lagoa Durango Duarte
Uma meia maratona e três patinhos na lagoa Durango Duarte
Uma meia maratona e três patinhos na lagoa Durango Duarte

sobre o autor

Articulista-Jeferson-BrasilFoi baterista, segundo ele, do sofrível conjunto musical “Os Paqueras”. Jogou basquete, futebol e tênis de quadra. Admite, orgulhosamente, que seus dois irmãos jogavam muito mais. Sua vingança é hoje ser corredor de rua, com sonho de virar maratonista. É cronista bissexto.

comentários

6 respostas para “Uma meia maratona e três patinhos na lagoa”

  1. Geraldo A Jr disse:

    Meu amigo, você é um arretado! Ler suas palavras é viajar junto e sentir a mesma emoção. Mas acredito que isso também não seja novidade pra ninguém. Parabéns por mais essa vitória (para o seu joelho), pois sei bem do que é capaz esse adversário. Grande abraço! !!

  2. Thiago disse:

    Esse Bottle é um exemplo de superação e disciplina a ser seguido. E além de tudo ainda é o meu tio mais bonito… Haha! Sabe tudo! Tamo junto.

  3. Garrafa disse:

    Mais bonito, com certeza hahaha vamos marcar uma corridinha juntos

  4. Garrafa disse:

    Grande Gera, essa vou tirar de letra rs rs rs Abraço.

  5. Paulo Medeiros disse:

    Articular um comentário para um artigo de um articulista, é particularmente complicado:

    primeiro porque, ao escrever, ele registra no papel, reflexões, lembranças, sentimentos e posições pessoais, ou não;

    segundo: porque cada artigo é uma fotografia no tempo, um instantâneo obtido através de uma máquina única, exclusiva, só
    dele;

    e, por fim, terceiro: porque avaliar uma amigo de longa data pode nos tornar inclinados a conceder vários “descontos” capazes de descaracterizar, e/ou empobrecer, a avaliação.

    Emboramente, como diria Odorico Paraguassú, as complicações de percurso apresentem-se, à primeira análise, simples e
    banais, não o são. Com certeza!!

    O articulista se nos apresenta sobretudo, um momento crítico, seu, que o leva a confrontar-se compulsoriamente com o
    possível, o provável, o impossível e o improvável. Ao tatear no escuro de si mesmo, em busca de forças para superar-se, não
    para vencer e sim, para chegar à Vitória, descobre que a mente controla tudo. Simples assim.

    A intenção da mensagem contida no artigo, evidencia-se acima de tudo de forma clara e inequívoca: “AS MEDALHAS CONTEMPLAM
    APENAS OS PRIMEIROS COLOCADOS. A VITÓRIA CONTEMPLA TODOS AQUELES CAPAZES DE SUPERAR SUAS FRAQUEZAS, DORES, LIMITES E CRENÇAS.

    Garrafa, mano velho. Parabéns por seu artigo, pela harmonia das palavras e pela mensagem.

    Grande abraço..
    2017.
    Agosto, 21o. dia. – segunda-feira.

  6. Garrafa disse:

    Dileto amigo Paulo, sem sombra de dúvidas seu comentário só me aumenta a responsabilidade. Sou eu quem lhe parabeniza pela sua escrita que, reconheço, vai muito além de minhas modestas palavras. Abração fraterno.
    Garrafa. 🙂

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