Um passeio de Natal

Em 23 de dezembro de 2016 às 14:19, por Gilson Gil.

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Confiante no dito popular de que os bairros teriam produtos natalinos mais “em conta” e verificando a confusão nos shoppings, fui atrás de presentes e adereços nessas localidades “populares”. Escolhi o bairro da Alvorada, pois possui ruas comerciais e muitas lojas, com grande variedade de produtos dos mais diversos tipos e valores.

Foi uma das mais infelizes ideias que tive nos últimos tempos. Além da questão dos preços, uns altos, outros similares aos dos shoppings, senti na pele o que é andar em um bairro populoso e rodar por várias de suas ruas.

As calçadas praticamente inexistem. Quando havia, coisa rara, era irregulares no tamanho e altura. Os lojistas, invariavelmente, colocam suas mercadorias na rua, desrespeitando qualquer tipo de postura municipal. Tanto faz o tamanho do empreendimento, desde pequenas lojas até as grandes lojas de departamentos, todas ocupam livremente as calçadas. É uma verdadeira lei “do mais forte”. Os ambulantes que lidam com comidas oferecem suas mercadorias abertamente, sem qualquer tipo de cuidado com a higiene. O lixo se acumula livremente, sem obstáculos ou pudores.

Percorri as ruas do comércio em suas diferentes etapas. Cada quarteirão é pior do que outro, do ponto de vista do cidadão. Alguns restaurantes limpavam suas mesas, fogões e grelhas nas calçadas, sujando tudo e acumulando moscas e baratas de forma aberta e sem empecilhos.

Foi um passeio chocante e triste. É triste ver que uma população faça isso com sua cidade. Não adianta cobrar dos governantes mais lixeiros ou médicos, se o povo suja as ruas, alastra doenças, joga lixo nas calçadas e oferece comida ao ar livre sem preocupações. É enxugar gelo. O poder público é culpado? Sim. Culpado por não fiscalizar, não multar, não apreender e não proibir. Há uma respeitosa e cúmplice omissão, que colabora para esse cenário de devastação e barbárie.

Isso nos leva a refletir sobre o que significa “amar” sua cidade. Não adianta reclamar quando um habitante de outro estado critica Manaus ou fala de seus defeitos. Isso é apenas posse ou, no máximo, ressentimento. Amar, de verdade, é cuidar, vigiar, zelar e se preocupar. O que vi nesse simples passeio foi aterrador e serviu para que repensasse várias ideias que tinha sobre os habitantes, seus hábitos e sentimentos.

É muito difícil pensar uma cidade dessa forma. Em primeiro lugar, temos de gostar de nossas ruas, calçadas e pessoas. Sem pensar que o lixo traz doenças, que as mercadorias nas ruas dificultam idosos, cadeirantes e crianças e que essa desordem só acentua o clima de insegurança reinante, nada mais se tem a fazer. Os governos parecem ser cúmplices, pois fingem não ver essa selva urbana e se dedicam a paliativos respeitosos, sem enfrentar ou admitir tal situação calamitosa. Enfim, preferem contratar mais médicos e lixeiros e abrir mais postos de saúde do que prevenir e realmente zelar pela cidade em que todos vivemos. É algo a refletir: até aonde vai nosso sentimento pela cidade em que levamos nossas vidas e de nossas famílias?

Feliz Natal.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.