Transportamazon

Em 14 de fevereiro de 2018 às 08:00, por Durango Duarte.

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A empresa estatal Transporte Amazonas S.A. (Transportamazon) foi criada por meio da Lei nº 11, de 21 de março de 1957, na primeira gestão do governador do Amazonas, dr. Plínio Ramos Coelho (1955-1959). A fundação de uma sociedade de economia mista tinha como objetivo solucionar o problema de transporte nas três modalidades – terrestre, fluvial e aéreo -, tanto na capital quanto no interior. No entanto, a empresa somente atuou no setor terrestre em Manaus.

A cerimônia de entrega à população dos coletivos da empresa Transportamazon foi realizada em 31 de dezembro de 1957, na garagem do Departamento de Estradas e Rodagem do Amazonas (DER-AM), na Praça 14 de Janeiro. Os dez modernos coletivos adquiridos pelo governo do Estado receberam batismo simbólico do padre Valter Nogueira e foram entregues pelo governador Plínio Coelho, na presença de autoridades municipais, estaduais, federais e eclesiásticas. A Transportamazon foi inaugurada com a presença de seus três diretores: Stênio Neves, Cláudio Palha de M. Bittencourt e Almir José da Câmara.

O Serviço de Transporte Coletivo de Manaus foi organizado dois anos mais tarde, pela Lei Estadual nº 84, de 31 de dezembro de 1959. De acordo com essa norma, o serviço seria dirigido por um diretor-geral indicado pelo governador do Estado, sendo o trabalho executado por funcionários públicos estaduais. À época, a empresa já havia conseguido duplicar o número de ônibus em sua frota.

Em 17 de fevereiro de 1960, o engenheiro Walter Rodrigues Trancoso, secretário de viação e obras públicas, iniciou as obras de instalação da nova sede da Transportamazon, no térreo do Tribunal de Contas do Estado, onde antes funcionara o ateliê do Sr. Branco e Silva.

Apesar de dispor de uma frota constituída já por 27 ônibus no início de 1960, vinte deles estavam por merecer urgente recondicionamento, sob pena de solução de continuidade dos serviços de transporte coletivo da cidade. O necessário serviço foi autorizado pelo governador Gilberto Mestrinho e, segundo o diretor da empresa à época, Aron Ypiranga Benevides, o procedimento seria feito em um ônibus por vez.

A verdade é que, desde quando a população de Manaus precisou dos serviços de transportes coletivos, estes sempre foram precários. As queixas mais comuns eram: a longa espera nas paradas, a demora entre a saída e a chegada ao final da linha, superlotação, freadas bruscas por imperícia dos motoristas, discussão entre passageiros e cobradores, precariedade no atendimento e má-educação de motoristas e cobradores.

Em setembro daquele ano, foi anunciada a chegada de mais oito ônibus, de um total de quatorze, encomendados pelo governador Gilberto Mestrinho. Quando os seis restantes chegassem, a frota da Transportamazon saltaria de 27 para 41 veículos. Em outubro, o governo informa que os oito primeiros ônibus chegariam através do navio Loide Brasileiro. Quatro desses ônibus Mercedes-Benz chegariam com uma novidade, o “Rabo Quente”, modelo cujos motores agora vinham instalados na traseira.

Mas a empresa sofria duras críticas que partiam desde a Assembleia Legislativa, nos discursos do deputado Francisco Cavalcanti, até a própria imprensa, que adjetivava como constrangedor olhar um ônibus da Transportamazon, amassado, sujo, com assentos rotos, rodando aos pedaços, enquanto ônibus particulares eram vistos trafegando em ótimo estado de conservação.

Reclamava a imprensa, ainda, da falta de estoque de peças sobressalentes, que permitissem a recuperação imediata dos ônibus danificados, o que concorria para que logo se transformassem em sucatas. A queixa era pertinente, pois, naquele momento, diversos ônibus estavam encostados, aguardando a substituição de peças inexistentes em Manaus, o que se constituía em um prejuízo sem tamanho para os usuários.

Após essas denúncias, em dezembro de 1960, o governador adotou duas providências: destituir o diretor da Transportamazon, Sr. Aron Benevides, substituindo-o por Andrea Limongi, então oficial de gabinete do governador, e verificar, in loco, a situação dos veículos parados na garagem do DER-AM.

 Constatada a procedência das denúncias – dezessete ônibus sucateados e fora de circulação – o governador determinou que se fizesse um levantamento do que seria necessário para as suas imediatas recuperações. Limongi teve passagem meteórica à frente da Transportamazon. Empossado no dia 9 de dezembro de 1960, pediu demissão em 20 de janeiro de 1961, por razões desconhecidas. Em seu lugar, o governador nomeou o Sr. Ismael Benigno.

Agora sob nova gestão, em junho de 1961, mais um “Rabo Quente” começava a circular em Manaus. Além disso, Benigno trabalhava no programa de recuperação dos coletivos imprestáveis. Seu propósito era pô-los todos em circulação, tal qual ocorrera com o coletivo de número doze, que havia voltado a trafegar em perfeitas condições, atendendo a linha da Praça 14. Ainda em junho, quatro dos dezessete ônibus haviam voltado a circular.

A despeito da boa vontade de Ismael Benigno, a imprensa escrita e falada reclamava da deficiência e cobrava melhorias nos serviços, especialmente no bairro São Francisco, cujas artérias utilizáveis por veículos pesados estavam em obras, impedindo o tráfego dos ônibus da Transportamazon.

Outra queixa vinha da linha do São Jorge, referente ao descumprimento dos horários estabelecidos, por parte de alguns motoristas. A solução adotada foi determinar a permanência de um fiscal no fim da linha, para controlar as chegadas e partidas dos carros. A última reclamação vinha do bairro Aparecida, que era carente dos serviços de transporte coletivo. Para aquele bairro o governador determinou à Delegacia de Trânsito que providenciasse rodízio semanal de três expressos, diariamente.

Em 18 de janeiro de 1963, a partir da zero hora, em decorrência de um pedido de aumento das passagens dos coletivos e carros de aluguéis, o Sindicato dos Proprietários de Veículos declarou greve. A Transportamazon, agora aos cuidados de Lóris Cordovil, informou que não iria aderir ao ato de paralisação, pois o aumento concedido de quinze cruzeiros era necessário.

 Três dias após o início da greve, o presidente do Conselho de Trânsito e chefe de polícia, Klinger Costa, reuniu-se no Departamento Estadual de Segurança Pública (Desp) para se chegar a bom termo o impasse do supradito aumento.

A proposta apresentada pelo Sindicato dos Motoristas de Veículos Autônomos Rodoviários foi estudada por autoridades do trânsito que pugnavam pela adoção de alterações, uma vez que a tabela vigente continha preços exorbitantes. Mas, como quase sempre acontece, não houve recuo.

Em julho daquele ano, a precariedade dos serviços da Transportamazon, que não tinha trégua, voltava à pauta da Assembleia Legislativa, desta vez, por meio do deputado Ruy Araújo. Em sua mensagem, listava problemas da empresa que iam desde o funcionamento de apenas onze veículos, de uma frota de 41 existentes; dívidas com fornecedores; empréstimos não pagos ao Banco do Estado do Amazonas (BEA); dívida à Fazenda Pública e outros, que totalizavam vultoso débito. A Transportamazon encerraria o ano de 1963 com o Sr. Zildo Pantoja Naveca como novo diretor-presidente.

Em março de 1964, o governador Plínio Coelho determinou a gratuidade da passagem de ônibus aos alunos do Colégio Sólon de Lucena, recém-instalado no Ginásio Industrial, construído com recursos do poder público, no bairro São Geraldo.

Três meses depois, Plínio foi deposto pelo presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, que assumira a presidência da República após o golpe militar de 1º de abril daquele ano. Para o seu lugar, o presidente nomeou Arthur Cézar Ferreira Reis como governador, que encontrou a empresa de transporte em estado de falência e nomeou como interventor o Sr. Samuel Elgani, instruindo-o a levantar a situação e elaborar relatórios minuciosos.

Após vigorosa apuração, em julho de 1964, veio a lume roubos e assaltos ocorridos na empresa. À frente das investigações esteve o delegado de roubos e falsificações, George Jacob, que, por meio de inquérito, identificou os locais para onde haviam sido levadas borboletas e outras peças subtraídas dos ônibus, inclusive caixa de marcha. Após a oitiva de vários funcionários, o delegado chegou aos nomes dos chefes da quadrilha: o ex-diretor da empresa, Zildo Naveca, seu irmão, Argemiro Naveca, e um tesoureiro.

O último diretor nomeado, tão logo a intervenção chegou ao fim, foi Clearco Antony, que, em setembro de 1964, anunciou estar recebendo a empresa com 33 ônibus na garagem, porém, somente três estavam recuperados e em condições de trafegabilidade.

No final do segundo semestre de 1964, Arthur Reis adotou medidas que visavam o restabelecimento da empresa de transporte coletivo, dentre elas, o reajuste de salário dos servidores, eliminando a espoliação de que eram vítimas as trocadoras, motoristas e os funcionários das oficinas, que, em sua maioria, recebiam metade de um salário mínimo.

O governador também efetuou pagamentos de empréstimos realizados, na gestão anterior, junto à Secretaria de Finanças do Estado. As medidas pretendiam estimular a receita para prosseguir na recuperação dos ônibus e das finanças da companhia. A Transportamazon mudou de sede em maio de 1965 para a então avenida João Coelho, atual Avenida Constantino Nery.

Em mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, em 1967, o novo governador Danilo Duarte de Mattos Areosa apresentou as despesas e déficits no orçamento causados pela empresa, que à época, contava com apenas cinco carros em tráfego. De acordo com o balancete do ano anterior, embora a empresa ainda possuísse saldo credor, as facilidades e os serviços gratuitos prestados a vários órgãos, sem pagamento de passagem, prejudicavam as arrecadações.

De acordo com o diretor-geral Clearco Antony, era necessário que o Estado tomasse medidas que evitassem prejuízos, como: a recuperação de ônibus sucateados, a extinção de serviços especiais gratuitos, o abatimento de passagem e a vinculação de coletivos particulares na linha São Jorge, mediante taxa de cobrança.

No início de 1968, a direção da Transportamazon iniciou o processo de venda de sucatas (peças antigas de ônibus) pertencentes à empresa, que estavam amontoadas no depósito da oficina, no bairro Flores, pela quantia de NCr$ 1.905,00.

Nesse mesmo ano, por meio da Lei nº 747, de 2 de julho, o Serviço de Transporte Coletivo de Manaus foi extinto e teve seus servidores e patrimônio incorporados à Secretaria de Viação e Obras Públicas (a qual ele era subordinado), com exceção dos ônibus que ainda estavam em circulação, que passaram a pertencer, um, à Secretaria de Produção, e os demais à Polícia Militar do Estado.

Mesmo com toda essa trajetória de roubos, serviços deficientes, queixas e transtornos de toda ordem, em novembro de 1968 a empresa alardeava a encomenda de 115 novos ônibus para a cidade, com entrega prevista dos cinco primeiros veículos para o dia 15 de dezembro daquele ano. Os ônibus anunciados seriam de alto luxo, com ar-condicionado, janela panorâmica, toalete e lanche a bordo servido por rodomoças. Os veículos atenderiam a linha Manaus/Itacoatiara.

Desde o seu surgimento, os governos e algumas péssimas gestões da estatal foram a tônica da história de fracasso da Companhia de Transporte Coletivo de Manaus. Seu fim foi decretado em 29 de julho de 1971, quando a Comissão de Licitação da Secretaria de Viação e Obras Públicas tornou público, através do Diário Oficial, o Edital de Leilão do acervo irrecuperável da Transportamazon.

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sobre o autor

Articulista-Durango-DuarteGaúcho amazonense, militante estudantil nos anos 1980, empresário nas áreas de Marketing e Comunicação, consultor político, autor de diversas obras literárias, articulista, blogueiro, diretor presidente do Instituto Durango Duarte, apaixonado por história do Amazonas e de Manaus, às vezes torce pelo Grêmio.