The Hell Angelis, os golden boys Manaós

Em 25 de novembro de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

compartilhe

A filosofia já falou exaustivamente sobre a verdade, tanto, que existem as teorias da verdade, essas categorizadas em substantivas e minimalistas. Muitas vezes penso que discuti-la leva a lugar nenhum. Bem, descendo do olho da sumaúma filosófica que me pus para o palco real de chão batido que agora me ponho, transcrevo trecho do poeta Zemaria Pinto, na apresentação do livro Sanatório Geral do meu caríssimo Simão Pessoa: “A crônica é um gênero essencialmente marginal: misto de ficção e história, não tem com esta o compromisso da verdade, nem com aquela as sutilezas da linguagem. Mas é preciso que haja verossimilhança – isto é: pode até não ter acontecido assim ou assado, mas do jeito como é contado, até que poderia ser verdadeiro…”. Então vamos lá.

Vinha da Rua Lobo d’Almada e se alastrava pela Rua José Clemente aquele som de guitarra elétrica, contra baixo, teclado e, especialmente, o rufar da caixa, a batida do surdo, o toque do tom-tom, o barulho do prato, a cadência do bumbo e o compasso do chimbau – aqueles dois pratos que se chocam ao comando dos pés – da bateria do amigo e vizinho, Douglas Lima. A partir daquele dia e pelos próximos seis meses, ouviríamos os ensaios daquele que prometia ser o melhor conjunto musical do Norte do Brasil.

Tudo começou quando o Douglas foi acometido por uma paralisia que durou três meses – diagnostico até hoje não sabido – e que o deixou prostrado em sua cama. Dias difíceis, pra esquecer. De bom só a solidariedade dos amigos que o visitavam. Bosco Spener, mais que presente, está guardado na caixinha reservada aos mais queridos do Douglas. Alguns tocavam violão, cantavam, riam…tudo pra minimizar tão preocupantes dias. A rotina acabou por estimular a criação do conjunto musical, nascia, assim, The Hell’s Angels (Os Anjos do Inferno): Antonio Pena Campbell, guitarra; Rafaelle Novelino, crooner; Douglas Lima, bateria; David, teclado; Aarão, contrabaixo; Fernandinho Bengala de Alma, aprendiz de contrabaixista; além do Fernando Tucandeira. Entusiasmados, tomaram emprestado o amplificador do renomado Conjunto The Blue Birds Band e começaram a ensaiar no porão da casa do Douglas, grande percursionista, cujo talento o credenciou a substituir, por três meses, o titular da Blue Birds Band, Irandi, durante suas longas férias cariocas.

Fernandinho Bengala de Alma era doido pra fazer parte do conjunto, como não tocava coisa alguma, foi incentivado a tomar umas aulas de contrabaixo com o Roberto Dibo, excelente músico da BBB. A pré-estreia do THA aconteceu no Colégio Auxiliadora, instituição de corpo discente exclusivamente feminino. Essa era a oportunidade que o Fernandinho teria pra mostrar todo o seu “potencial”. Casa lotada, as meninas em delírio e o aprendiz de contrabaixista o tempo inteiro de costas pra a plateia, fingindo que tocava alguma coisa, uma performance de mau gosto. Perdeu a oportunidade e foi sacado do grupo. Mas o show tinha que continuar, assim, os ensaios foram acontecendo dia após dia. No repertório, pelo próprio DNA do Rafaelle, cantores italianos: Ornella Vanoni, Pepinno di Capri, Bobby Solo, Gianni Morandi, Rita Pavone, Massimo Ranieri, Carmelo Pagano…

A simpática e comunicativa Dona Olga, tia do Evandro Farias e especialista na arte da “parola”, não estava nem aí pra sua rouquidão crônica, arregaçou as mangas, amadrinhou os golden boys manaós e arrumou tudo pra que a estreia do THA fosse apoteótica, não foi.

Atlético Rio Negro Clube abarrotado, expectativa enorme, atmosfera pra lá de favorável, conjunto ensaiadíssimo e o público feminino a se manifestar: Ão ão ão o Douglas é um pão! Pele pele pele eu quero o Rafaelle! David David David queremos tu aqui! tonio tonio tonio Antônio é um sonho! Aarão Aarão Aarão, é teu meu coração!

Chegara o momento, Geraldo, o eterno apresentador do Rio Negro, anuncia: “Senhoras e senhores, moças e rapazes, chegou a hora tão esperada, Manaus está em festa, esta casa tem a honra, o prazer, o privilégio de apresentar o grupo de jovens músicos que certamente fará história (gritos, assovios, ai Jesus!), com vocês: The Heeeeellllllll’s Aaaannnnngellllss!” (Histeria absoluta, o clube quase veio a baixo). Fecham-se as luzes incandescentes, projetam-se as luzes negras direcionadas exclusivamente para o THA, Rafaelle, aproveitando-se da ideia do Bengala, traja uma capa preta esvoaçante, segura o microfone na mão e posta-se de costas para o público. Douglas começa a rufar a caixa freneticamente (trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr), Antônio dá um acorde na guitarra, David o acompanha no teclado, Aarão dedilha o contrabaixo, Rafaelle se vira para a plateia e começa a cantar em alto e bom tom: L’amore se ne vaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa (público alucinado, gritos, palmas, fiu fiu, pai d’égua!!) e o aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa continuou até que ele o quebrou com um berro de morte: “Cocô fdp desliga essa poooorrrraaaaa!!!!”.

O choque de quase 140 decibéis não só o derrubou como o deixou com a mão grudada ao microfone. Cocô era o apelido do Wagner, o mais renomado “engenheiro de som” dessa região cortada pela linha do Equador. Muito mais preocupado com o amplificador da BBB que com o vitimado, cocôrreu feito o papa-léguas e desligou toda a aparelhagem. O equipamento foi salvo. Rafaelle, levado às pressas para o Pronto Socorro São José, lá na Rua Dez de julho, também se salvou, só o show não resistiu, acabou.

Quase meio século depois Douglas ainda conserva suas aptidões com as baquetas, entretanto fez a escolha certa, trocou a percussão pela medicina e como profissional da saúde é referência. Do Antônio, David e Aarão não tenho notícias. O Bengala de Alma desistiu do contrabaixo, rejeitou o apelido e tornou-se militar, hoje na reserva. Rafaelle, dizem, às vezes pensa que é um poraquê. Quanto ao Wagner, bem, esse eu também não sei, mas o apelido continua a cheirar mal.

Os anjos desistiram do inferno, voltaram a ser mortais e um dia irão pro céu.

Juro pela luz negra que alumiava aqueles rapazes, que ainda ecoa, lá pelas bandas do Rio Negro Clube, o som da bateria do Douglas e a voz do Rafaelle a plenos pulmões:  L’amore se ne vaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

Comentários

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.