Terminou em pancadaria a decisão do futsal do JUA’S de 1977

Em 3 de abril de 2017 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

compartilhe

Os Jogos Universitários do Amazonas eram um evento de elevada repercussão na cidade de Manaus. Deles participei ativamente, jogando futebol de salão pelo time que representaria a Faculdade de Ciência da Saúde, que reunia Medicina, Odontologia e Farmácia. Na verdade a base do time de 1977 era da minha turma do segundo ano de Medicina. Favoritos disparados eram os times da Educação Física ( óbvio!) e o da Economia, sendo que neste brilhavam os irmãos Garrafa. Nosso time nem zebra era considerado, corria muito por fora.

Administração e Engenharias tinham pedigree na competição, mas naquele ano estavam fracos. Os demais eram todos coadjuvantes inexpressivos. Pura festa para os favoritos que goleavam todos com que se deparavam. Principalmente o da Educação Física. Este era fortíssimo. No gol, não me lembro do nome, um loirinho baixinho, que viria a ser goleiro do Rio Negro, tendo participado até de Campeonato Nacional, na série B. Na defesa tinha o Bandeirante, negro forte, chute poderoso e também habilidoso, sempre de cara amarrada. Na frente o Passarinho e o Careca. O primeiro era um negrinho driblador (ainda hoje meu cliente, assim como seus familiares); o segundo, era uma máquina de fazer gols. Lembro-me da primeira vez que o assisti jogar e fiquei imaginando como alguém poderia marcá-lo. Chutava forte com os dois pés e de qualquer parte da quadra. Do jeito que a bola viesse, com um toque se colocava em posição de chute e pregava fogo, acertava na maioria das vezes. Era um ídolo dos seus pares e temido pelos adversários.

Nosso time base tinha no gol o Álvaro Cebolinha, estudante do quarto ano, que hoje é cardiologista no interior de São Paulo. Na defesa eu e Odair. Eu pouco driblava, acho que minhas melhores qualidades eram a marcação e o chute forte. Fiquei honrado quando, muitos anos depois, o Passarinho me disse que eu tinha sido um dos mais difíceis marcadores com quem já tinha se deparado. Talvez fosse falsidade para filar um consulta dermatológica. Minha jogada favorita consistia em, quando do escanteio favorável ao meu time, postar-me mais ou menos na linha de meia quadra e esperar o lançamento da bola pelo ar (naquela época as cobranças de lateral e escanteio eram assim), ir ao seu encontro e chutá-la antes que atingisse o solo. Quando acertava o prazer do gol era orgástico.

Já o Odair era um figuraço. Alto, louro, esbelto, branquelo queimado de sol amazonense e um bigodinho, também louro, que pela sobreposição de cores iguais, só se percebia muito de perto. Arrogante como um argentino, se achava de uma raça superior (característico, aliás, da maioria dos paulistas que aqui estudavam Medicina), teria feito sucesso na Alemanha de Hitler. Vivia vestido impecavelmente de branco, da cabeça aos pés. Era casado com Ana Barrela, filha de um médico/advogado famoso na cidade, Odair era uma espécie de Dunga da época. Pegava pesado, mas era leal. Muito duro, odiava perder mesmo em discussão sobre sexo dos anjos. Posteriormente seria prefeito de Coari, interior do Amazonas, condição na qual morreria assassinado. Seu assassino confesso está livre até hoje.

Na frente tínhamos Iran e Martiniano. Iran era filho de um funcionário de altos coturnos da Receita Federal, era um dândi, pretensamente sedutor. Trocava de carro todos os anos e se vestia impecavelmente. Ele achava o máximo da criação divina, se amava mesmo. Gostava de prender a bola e tentar dribles humilhantes, o que eventualmente funcionava. Hoje é oftalmologista em Boa Vista, membro do Conselho Federal de Medicina e deputado federal por Roraima. Mato-grossense e canhoto, Martiniano era do tipo resolutivo, um estilo parecido com o do Careca. Desconheço o seu paradeiro. Nosso técnico era o Jaime Barreto, estudante de medicina e locutor esportivo de futebol na Rádio Baré. Jaime militou na homeopatia e hoje é médico no Programa Saúde da Família, em Manaus.

A campanha de nosso modesto time foi diametralmente oposta a do time da Educação Física. Enquanto eles arrasavam todo mundo, nós não perdíamos, mas só ganhávamos por placares magros: 1 x 0, 2 x 1, e por aí íamos avançando, para a surpresa de nossos colegas de faculdade, que lentamente começaram a ir assistir nossos jogos. No fundo, ninguém, em sã consciência, poderia imaginar uma final outra, que não Educação Física versus Economia, o que acabou não ocorrendo.  Um dos irmãos Garrafa quebrou uma perna e a Economia perdeu um jogo que era considerado fácil. Derrotamos por um a zero os algozes da Economia e avançamos para a final, até aí o melhor resultado da Medicina em muitos anos. Não achávamos que poderíamos ir mais longe e já nos contentaríamos com o segundo lugar. O feito fez com que a nossa república passasse a ser visitada por muitos, que achavam ter a fórmula infalível para superar a blitzkrieg da E. Física. Por meu lado, eu era um cagaço só.

Na véspera do jogo final minha chapa ao Diretório Universitário tinha conseguido uma vitória acachapante, vencemos as demais quatro chapas (quase todas de alunos de Direito) com larga frente. Começava a me tornar uma pessoa conhecida em toda Universidade, tinha recebido uma votação maciça dos alunos da E. Física, assim como nos demais cursos instalados no Campus, Ciências Exatas, principalmente. Nenhum mérito pessoal, mas fruto da militância dos seguidores do Eronildo e do Cardoso, que ali eram lideranças incontestes. Acho até que nem fui pedir votos no Campus. Possivelmente todos os jogadores que iria enfrentar naquela final, mesmo sem me conhecer, tinham votado em mim.

Plateia inicialmente modesta, aquém de nossas expectativas iniciais. Contudo se justificava, pois, simultaneamente, vários outros eventos de outros esportes estariam ocorrendo, mas depois lotou. Principalmente quando os jogadores e torcedores do basquete chegaram. Nosso time tinha sido derrotado pela mesma E. Física e, parece, estava mordido. Vieram torcer por nós e trouxeram a sua torcida junto. Eram predominantemente alunos dos últimos anos do Curso. Tirso, que já apresentei em crônica anterior; Edson Grampão; Neé Andrade, glória da Medicina amazonense, pneumologista renomado, ex-presidente da Fundação Cecon e do Conselho Federal de Medicina, por duas gestões; Levino, hoje empresário da Saúde em Rondônia, dono de hospital, fazendas, gado e gente (como diria Geraldo Vandré) e outros.

Jogo nervoso, principalmente para nós. Tínhamos  combinado uma estratégia, meio covarde é certo, com vistas a evitar uma derrota humilhante ( como a que se deu entre meu querido Santos contra o Barcelona, de Messi). Iran deveria se abster de suas firulas e dar o primeiro combate, ao Passarinho e Careca. Se o Careca conseguisse se livrar, eu ou Odair, tentaríamos a antecipação, não deixando-o tocar na bola, com falta, se necessário. E começou a dar certo. Para felicidade de nossa torcida, assombro dos demais e profunda irritação dos adversários. Principalmente do Careca, que não estava acostumado a ser anulado. Como o Neymar hoje.

Mas o que mais estava irritando mesmo o Careca, era a Ana Barrela. De seu lugar na plateia, não parava um minuto de xinga-lo e nos aplaudir quando o desarmávamos. No que era seguida por vários de nossos torcedores. Para piorar, o Martiniano conseguiu uma escapada milagrosa e abriu o placar.

De repente o impossível começou a se delinear, até que o Careca, não aguentando a humilhação, dirigiu-se para a cerca em direção à Ana, aos gritos, os quais não posso reproduzir. Nisso o Edson, que estava ao lado dela, aproximou-se dele por cima da cerca, puxou-o pela gola e desferiu um potente direto, lançando o Careca, de costas, no meio da quadra. O mundo veio abaixo.

Como se movidos por uma única mola, ambas as torcidas pularam para a quadra e o pau quebrou. Lutadores de judô, jiu-jítsu, remadores… os alunos de E. Física eram amplamente superiores a nós. No caos que se instalou só me lembro de duas coisas: não fui sequer tocado e pensei que tinham matado o Levino. Vi-o de relance, sendo soterrado por uma avalanche de musculosos remadores. Não sei o que fez ou que milagre se deu, mas saiu daquilo tudo ileso, lépido e fagueiro. Meia hora depois a polícia chegou e a paz voltou a reinar. Jogo encerrado e depois anulado. Todos para o Pronto Socorro do Hospital Getúlio Vargas, onde os não lesionados ou pouco lesionados ajudaram nos curativos e suturas, até os da E. Física, que eram poucos.

Na nova decisão, remarcada para dias depois, muitos atos de cavalheirismo esportivo e pedidos de desculpa. Arrancamos um empate de 0 a 0 e eles, pelo saldo de gols, foram campeões.

 

 

Comentários

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.