Teria sido Nelson Piquet?

Em 13 de dezembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

compartilhe

O que deveria ter sido uma estreia gloriosa, transformou-se numa das situações mais constrangedoras porque passei. Àquela época praticamente não existiam chuteiras de qualidade, as que usávamos eram toscas, grosseiras, feitas de um couro que ia endurecendo com o passar do tempo. Existia uma, da marca brasileira “Gaeta”, que era bem melhor, mas inacessível aos nossos puídos bolsos. E o Téo tinha acabado de voltar, com sua família, de um “tour”, pela Europa. Coisa raríssima para um habitante de Lorena naquela época. Da viagem trouxe o primeiro par de chuteiras, da marca alemã “Adidas”, que foi vista em Lorena. Nesta época os jogadores da seleção brasileira começavam a usá-las. Quando soube que estrearia no Rodoviário, fez questão que eu estreasse com as chuteiras, que nem ele ainda tinha usado. Tratei de divulgar a dupla estreia, que ocorreria no Estádio Municipal, sede do Hepacaré Futebol Clube, que vinha a ser o time profissional da cidade, participante do Campeonato Paulista. Vários colegas de rua e escola aceitaram o convite e foram ver-me. Esperava já entrar como titular, desde o início da partida. Mas o técnico optou por deixar-me no banco de reservas, com a promessa de entrar no início do segundo tempo. Iniciado o segundo tempo, continuei no banco e ele, volta e meia olhava pra mim e dizia que logo seria minha vez. O tempo foi passando e nada. Nem tinha mais coragem de olhar para meus amigos na arquibancada. Já tinha desistido quando mandou que iniciasse o aquecimento. Lá fui lépido para junto do alambrado, lindamente calçado, e comecei os exercícios de aquecimento. E o tempo continuou passando, até que o juiz apitou uma falta a favor de nosso time, bola parada e finalmente entrei em campo. Posicionei-me conforme instruído, alguém bateu a falta, a bola passou longe da meta adversária. O goleiro adversário apanhou a bola, colocou-a na marca da pequena área, tomou bastante distância e chutou com força o tiro de meta, a bola passou bem alto e longe de mim; antes que tocasse o chão ou em algum jogador, o juiz encerrou a partida. Desejei que a terra se abrisse e me engolisse para sempre.

Em 1969 concluímos o ginásio. Alex e Téo foram estudar em outro colégio privado e eu voltei para a rede pública. Por mais um ou dois anos continuamos a nos ver e compartilhar, mas em 71 ambos se mudaram de Lorena. Para São Paulo e Rio respectivamente, onde no ano seguinte ingressariam nos cursos de Agronomia e Engenharia Química. Jamais voltei a encontrar ou ter notícias do Téo. Já o Alex voltou algumas vezes a Lorena. Visitei-o em São Paulo, em 1973, o diálogo ficou um pouco mais difícil, estava vivendo em outro mundo, com outras pessoas. Reduziam-se os pontos de contato. Brindou-me com um ingresso para o Grande Prêmio de Formula Um, que ocorreria em Interlagos, seria o primeiro no Brasil, mas ainda não contaria pontos para o Campeonato Mundial. Na pista nomes que hoje soam como lendas. Os brasileiros Emerson Fittipaldi e Jose Carlos Pace (Moco); o escocês Jack Stewart; o sul africano Jody Jody Scheckter; o sueco Ronnie Peterson e o argentino Carlos Reutemanm. Visitamos, no “padock”, a equipe de Carlos Reutemann. Não conseguimos ir na do Emerson, que venceu a corrida, de ponta a ponta, com uma vantagem de catorze segundos sobre o “escocês voador”.

Estávamos acompanhados por um amigo do Alex, que estava começando no automobilismo, que viria a ser mais tarde um dos melhores do Brasil. Chamava-se Ingo Hoffman. Outra curiosidade sobre este dia só pude me dar conta muitos anos depois. Como o Ingo já era do meio automobilístico, por onde ia falava com mecânicos e ajudantes, seus conhecidos. Na equipe de Carlos Reutemann, pedi um copo d’água, que me foi gentilmente servido por um mecânico que apertava parafusos nas rodas do carro. Um belo dia.

Vi uma matéria sobre Nelson Piquet, já tri campeão mundial, com uma foto dele trabalhando nas rodas do carro de Carlos Reutemann e o grande campeão argentino.  Reutemann dizia que jamais poderia supor que o moleque que apertava pneus de seu carro, em São Paulo, seria o mesmo que o derrotaria nas pistas. Levei um choque. Será que o carinha que me serviu um copo d’água era o Piquet? Acho que nunca saberei. Acho mesmo que vou preferir continuar sem saber, torcendo para que fosse. Nunca mais tive notícias do Alex.

 

 

Comentários

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.