Sobre os nós que a nós nos ligam

Em 12 de Janeiro de 2018 às 09:59, por Hélio Dantas.

compartilhe

Há nós que prendem. Mas existem nós que ligam. Nós que formam laços. Essa parece ser uma das capacidades mais admiráveis da humanidade: a habilidade que temos de nos relacionar, e, de maneira empática, encontrar afinidades. Desenvolvi ao longo da vida um interesse por histórias, e acredito que, quando contamos e ouvimos histórias, nós realizamos essa mágica da empatia, estabelecendo vínculos mesmo quando viemos de experiências sociais díspares, ou ainda que estejamos afastados no tempo e no espaço.

Tenho dois exemplos para ilustrar isso. O primeiro vem do ano passado, de um dos espetáculos teatrais mais legais que assisti, chamado Autobiografia Autorizada, monólogo de Paulo Betti, onde o ator discorre sobre a história de sua família e de sua trajetória pessoal. O título da peça por si só já é cativante: alguém que permite se dizer, assumindo abertamente a fala, e, ao fazê-lo, retoma o caminhar para si, vislumbrando os rumos e desrumos tomados na própria vida, as experiências que construiu enquanto membro de um grupo, os caminhos que “optou” trilhar pelo fato de não estar sozinho, perceber as estratégias de alguém inserido em uma coletividade para sobreviver às vicissitudes da vida, não só materialmente, mas conservando/reatualizando seus vínculos simbólicos, valores e projetos coletivos.

O segundo exemplo é mais recente, e vem do já célebre discurso de Oprah Winfrey na 75ª edição do Globo de Ouro ao receber o prêmio Cecil B. DeMille. Para conferir força à mensagem de protesto em sua fala, ela compartilha, de maneira emocionante, aspectos de sua trajetória pessoal. Um dos pontos altos de seu brilhante discurso foi quando ela declarou que “eu tenho especial orgulho e inspiração por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente, empoderadas o suficiente para erguer a voz e compartilhar suas histórias pessoais. Cada um de nós nesta sala somos celebrados por causa das histórias que contamos. E, este ano, nós nos tornamos as histórias. Mas não é apenas a história que afeta a indústria do entretenimento. É uma que transcende cultura, geografia, raça, religião, política ou ambiente de trabalho”.

Concordo com Winfrey, porque, mesmo não conhecendo pessoalmente tanto ela como Paulo Betti, quando escuto as histórias por eles contadas, sinto-me irmanado a eles. É algo transcendente, que meu pendor crítico de historiador tem dificuldade de compreender, mas que não consigo negar enquanto ser humano. Cada história contada, quer seja por uma pessoa célebre ou por uma pessoa comum, é um nó. Nesse longo cordão da existência, são esses os nós que a nós nos ligam, através dos tempos e dos espaços. Contar histórias nos faz humanos. É a nossa forma de escapar à fugacidade da existência. Todos nós precisamos de espelhos, para lembrarmos quem somos, quem fomos. Todos nós buscamos, no corpo e no caminho, cicatrizes e marcas, e também mais algumas palavras, ainda que parcas, para provar que existimos. Por isso insistimos em criar algum sentido, esticando esse segundo espremido e inventando a nós próprios.

sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *