Sobre glosas e gozos

Em 11 de abril de 2016 às 15:52, por Hélio Dantas.

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“Não há mais que o rumor assíduo da repetição, que pode nos transmitir aquilo que teve seu lugar não mais que uma vez”. (Michel Foucault)

Eis que que cá estou na rede, e dessa vez como articulista: escrevente de artigos de opinião. E, por mais voltas que eu dê, o assunto não poderia se afastar muito do campo de saber que é minha paixão: a História e sua escrita. Sim, sei que corro todos os riscos da pletora e da tautologia, palavras difíceis para explicar que não tenho receios em repetir, afinal de contas, disse Nietzsche em um de seus aforismos que “quem vê mal, vê sempre menos; quem ouve mal, ouve sempre algo mais”. Ora, e não é esse o dilema de todos os que se articulam através de textos? Em tudo o que escrevemos, lidamos com essa angústia do bem ver e do bem ouvir que nos faz sempre querer redizer.

Vivemos hoje num momento onde se corre desesperadamente atrás da next big thing. Notem, porém, que tal busca é marcada por repaginação e reaproveitamento (muitas vezes ilícito e malfeito por sujeitos de pouca imaginação…) de coisas e ideias que já foram feitas. A se crer no sábio autor do livro de Eclesiastes, nada há de novo debaixo do sol.

É o mesmo sábio que também afirma não haver limites para escrever livros. Sobre isso dizem alguns que este é o tempo da bricolagem, do hipertexto, da transversalidade, da obra aberta. Pois não é assim a interminável Biblioteca de Babel? “Se um eterno viajor a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem”, diz o bibliotecário ao final do conto do grande Borges.

Se pensarmos que durante a Idade Média, nos manuscritos e nas traduções feitas nos mosteiros, era comum a prática da glosa – espécie de apontamento ou comentário à margem dos textos, com interpretações sobre o mesmo – podemos nos perguntar se hoje, no tempo dos sites, dos blogs, das comunidades online, das enciclopédias coletivas, não seriam essas as novas formas de glosa? A ideia não é minha… você pode conferir neste link, um artigo muito interessante que reflete sobre essa questão.

De qualquer forma, me agrada essa imagem de um abade copiando manuscritos, e ao mesmo tempo, glosando o texto, na solidão de seu claustro. Aqui, a glosa serão os meus posts, que serão então manuscritos que poderão também ser glosados. O claustro é um quarto com um notebook, e a biblioteca de Babel é a cada vez mais infindável nuvem da internet.

Contudo, creio que a solidão do monge copista, glosando textos em seu claustro, é uma busca por empatia, por contato. É como a utopia que Roland Barthes propunha para o ato de escrever nos seus Fragmentos de um discurso amoroso: “A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras”. A glosa pede o gozo.

Esse jogo de glosa e gozo, é um jogo de afeto, de sedução. Gilles Deleuze, um filósofo francês que gosto muito, dizia existir algo que ele chamou de “intercessores”, que nos levam a sair da nossa paralisia e… criar. Um intercessor pode ser uma pessoa, ou uma música, uma obra de arte, um filme, um livro, um encontro, um acontecimento… então esses intercessores nos sacodem e nunca mais somos os mesmos depois deles. A sedução pode gerar um afeto que pode gerar uma mudança. O prazer do diálogo e da troca de ideias vale mais do que acreditar que você é dono da verdade definitiva. “Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança”.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.