Será mesmo o tempo?

Em 29 de setembro de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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É verdade, o tempo pode ser visto como o nosso maior vândalo, visigodo e ostrogodo. É sempre constante e vem sempre como uma maré bárbara. Arrasa tudo que encontra. Gasta e desgasta. Ainda assim, é um artista muito sensível e decidido. Mas, é ele também que traz as inovações, as soluções para muitos problemas, inclusive o esquecimento.  Cria camadas e passagens, num ritmo que é somente seu e que só pode ser observada por alguns, não que seja totalmente abstrato, mas se apresenta com outro tipo de sensibilidades que não é óbvia, nem vulgar.

Arrasa não somente as coisas materiais, mas também apaga as ideias de cada tempo. Enterra tudo sob outras histórias. Apaga o que está posto e aprovado. Mas não se trata de ação de combustão. Nada instantâneo. Age no seu tempo. E como toda onda é também e passará, será apagada e esquecida.

Este vândalo que invade todos os tempos e espaços, tem muitos cumplices, que também invadem e ocupam todos os espaços. Não há como escapar dele. Segue com os homens, talvez seja o mais doloroso deles, ou seja, a guerra impiedosa e devastadora. Não discrimina ninguém, arrasa.

Outro cumplice cruel que o vandalismo do tempo, que tudo acelera e engana são os sistemas econômicos comprometidos prioritariamente com o lucro. São devastadores, como o capital, com sua ganancia insaciável pelo lucro.

Eu, pretendia destacar o aspecto artístico da parede, com sua prospecção revelada pelo tempo. Não era apenas uma parede desgasta, mas uma forte referência a obra do espanhol Antoni Tapies.  Tive que engolir minha observação e interpretação das camadas superposta. Das cores suaves e das texturas evidentes. Além disso, lembrava do aspecto de processo: construção e desconstrução. Nada figurativo ou obvio como ícone vulgar. Pensava ver algo artístico, nessas paredes descascas pelo tempo. Ainda que o artista seja mesmo ele, um vândalo e cruel com a juventude e a beleza.

De qualquer forma, recomendo que olhem com atenção a obra deste vândalo e artista. Ele não assina com caligrafias aprendidas, nem com nomes vulgares. Ele não se preocupa com o reconhecimento da massa. Certo que para a maioria as suas ações passam despercebidos. Oh! Tempo cruel, quanto grande artista. Me poupou de morrer moço, mas não me deu maturidade para não reagir as crianças.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

comentários

2 respostas para “Será mesmo o tempo?”

  1. Elvira Eliza França disse:

    Amei o final do texto, que qualifica bem o tempo: vândalo e artista, que não assina com caligrafias aprendidas, nem com nomes vulgares, e sequer se preocupa com o reconhecimento da massa. Assim, ele vai passando sem que o percebamos, lentamente, mas deixando marcas profundas em tudo o que faz. Parabéns, Otoni, por essa forma poética de comparar o tempo com o artista.

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