Rossio e Manaus: as ondas se encontraram em Copacabana

Em 5 de dezembro de 2017 às 09:41, por Jeferson Garrafa Brasil.

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Não tenho dados estatísticos, mas meu feeling me diz que em cada 10 turistas que passam por Manaus, “aproximadamente” 100% visitam o Teatro Amazonas, na praça de São Sebastião. Creia-me, o ir a Manaus e não visitar o Teatro, é nossa versão cabocla do ir a Roma e não ver o Papa. No entorno dessa praça, há outras construções históricas, e, dentre elas, umas das principais igrejas da cidade, igualmente monopolizada pelo dito santo.

Rossio e Manaus: as ondas se encontraram em Copacabana Durango Duarte

Largo de São Sebastião

Quase ao lado da igreja, você pode/deve se reabastecer do tour – e do calor – com a cerveja gelada e o imbatível pernil do famoso Bar do Armando. De preferência, numa das mesas espalhadas pela calçada. Sendo no carnaval, melhor ainda: junte-se à irreverente BICA – bloco criado nas noites do Armando, por uma turma tão boa no copo quanto na caneta. Duvidas? Então ouça as marchinhas carnavalescas de rimas impiedosas, destiladas, principalmente, contra a turma da política. Ou seja, num espaço relativamente pequeno, temos artes, o sacro e o profano, o que tem lá suas vantagens para o caso de algum desses reles mortais arrepender-se de suas peripécias terrenas. Ao fim e ao cabo, o perdão divino e redentor estará disponível logo ao lado.

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Igreja de São Sebastião e Bar do Armando

Se entre um gole de cerveja e uma garfada no pernil, você for tentado a achar que as ondas em preto e branco que revestem a praça imitam o calçadão de Copacabana, desculpe, mas aí você se enganou feio. Segundo alguns historiadores, entre eles o escritor Mílton Hatoum, foi exatamente o contrário. Nada de desespero, pois a grande maioria dos manauaras que conhece Copacabana, também não sabe disso. O raciocínio inverso também vale para os cariocas.

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Rossio, Lisboa

É provável esse padrão, chamado de Mar largo, ter sido inspirado no Largo do Rossio, em Lisboa, que muito embora já existisse bem antes de Cabral por aqui chegar, só passou a adotá-lo a partir de uma reforma por volta de 1848. Em Manaus, a praça de São Sebastião foi calcetada com esse desenho pouco mais de meio século depois, por volta de 1900/1901. Na Terrinha, em homenagem ao encontro do Tejo com o mar; aqui, ao Encontro das Águas – rio Negro com o Solimões/Amazonas. E as ondas no calçadão de Copacabana? O eterno namoro do mar e suas areias. Se não for esse o motivo, me dê outro – de preferência mais romântico – que estamos conversados. Mas essa icônica calçada só foi construída por volta do ano de 1905, depois, portanto, de Manaus e Lisboa.

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Calçadão de Copacabana

Mas com a devida vênia, e o respeito que o Rossio e São Sebastião (o santo e a praça) me merecem, há outro ponto em que Copacabana, além do sol e do mar,  é simplesmente insuperável: são as mais de trocentas canções, versos e rimas a cantar e galantear seus lindos encantos cheios de luz. Portanto, é plenamente aceitável que a princesinha do mar e suas sereias sorridentes continuem rondando seu imaginário. E o nosso também. Então, peça ao garçom – com seu displicente pano de enxugar mesas jogado no ombro – para que ele coloque pra tocar o velho e riscado vinil de Copacabana, a canção. Se por acaso ele perguntar com quem você quer ouvir, não vacile, e ordene: “Dick Farney, e, por favor, desce mais uma cerveja e outra isca de pernil”.

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sobre o autor

Articulista-Jeferson-BrasilFoi baterista, segundo ele, do sofrível conjunto musical “Os Paqueras”. Jogou basquete, futebol e tênis de quadra. Admite, orgulhosamente, que seus dois irmãos jogavam muito mais. Sua vingança é hoje ser corredor de rua, com sonho de virar maratonista. É cronista bissexto.