Renatinha, deu o que falar…

Em 11 de dezembro de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Ontem, tarde de domingo, voltava pra casa sob um chuvisco dezembrino, vinha pelo caminho usual quando notei uma pichação vermelha sobre a parede azul da casa do J.G Araújo. No quarteirão anterior havia registrado a bela cena do tapete magenta estendido pelo jambeiro. Um pouco indignado com os diferentes usos do vermelho, quase a contragosto resolvi registrar e postar no Face bock a tal imagem. Rapidamente escrevi uma tirada qualquer. Três minutos depois retornei ao post pra excluir e fazer uma outra legenda, mas qual foi minha surpresa; três ou quatro pessoas já haviam se manifestado indignadas com o fato. Então deixei rolar. Não queria provocar uma polêmica, nem esperava que gerasse tanto. Depois de muitos comentários decidi me deter um pouco mais sobre a tal assinatura. Creio que nem se trata de um picho, pois é apenas uma assinatura precedida por uma estrela de David, sem qualquer elaboração.

Especialmente depois de alguns comentários que criticavam as críticas ao gesto. Tive intenção de fazer um texto irônico e elogiar o gesto da Renatinha, ou de seu namorado ou namorada. Pensei que gostariam que elogiasse a sua rara expressividade e ressaltasse a sua coragem rara ao se manifestar de maneira incontestável, sobretudo se se tratasse mesmo de uma garota, querendo de colocar, disputando com os garotos, que em geral são apontados como pixadores ou simplesmente emporcar. Mesmo que não se tratasse de um protesto, poderia ressaltaria a força da juventude, a originalidade do gesto e a espontaneidade da manifestação. Poderia buscar uma reverência na arte polvera e aplaudir a sua rusticidade. Poderia falsear e apontar o discernimento da criatura ao se localizar no mundo, demarcando o seu pedaço e contestado com os poderes instituído. Ai que lindo! (Lembrando que ainda estou sendo irônico). Ao abordar o caráter artístico desta obra, apontaria como algo muito raro, original e extremamente corajosa. OH! Convidaria aos jovens reproduzi-las por todos os cantos da cidade, sobretudo em suas próprias salas. Poderia complementar com as expressões: Que original! Que belo! Estão refletindo e protestando, poderia complementar.

Não, não há como abdicar da minha franqueza de esteta e usuário da cidade, que é muito mais forte que qualquer convicção teórica que eu possa ter abraçado. A cidade para mim e muitos outros é mais que um cenário teórico, é espaço vivido e cheio de histórias, é parte de nossas vivências e afetividades. São espaços e caminhos por onde transitamos e mantemos parte da identidade e da memória. Sem dúvida, somos capazes de ver o lixo espalhado nas ruas e mercados, a degradação evidente de muitas edificações, quase esquecidas por uma sociedade que corre em busca do lucro incessante, transformando tudo em material descartável.

 Contudo, Renatinha, a sua assinatura ou clamor de sua pessoa amada, sugere que o autor não entendeu ou percebeu que a cidade é nossa, mas temos limites. Onde você está nesse momento? Resguardada no seu quarto cor de rosa? Aquela parede azul fazia alguma diferença para sua ação? Ou o muro do estádio daria no mesmo? Talvez sim, mas pode ter sido um ímpeto ou quem sabe apenas uma aposta entre colegas adolescente. Vai lá saber o que se   passou em sua cabeça. Será que tinhas alguma razão precisa?

Como veja com certa frequência algumas garotas fardadas e arrumadinhas, dividindo o cigarro, naquele pedaço, fui levado a deduzir que seria uma delas. Vai lá saber. Me lembrou uma história antiga, que envolvia a vizinha adolescente, sufocada pela avó autoritária. A garota rasgava todos os avisos fixados no mural hall do edifício como um protesto contra a autoridade doméstica. Podemos deduzir muitas Renatinhas e variadas razões. Se ela o fez e não explicou, podemos atribuir a ela muitas outras coisas he he he. A primeira dela é o desconhecimento do bem privado, mas cuja face se encontra no espaço público. Não se trata de um Pasquim: Jornalzinhos, de formato nanicos e muitas vezes manuscritos que tiveram uma longa tradição nas cortes opressivas. Em geral denunciavam e protestavam. Não é o caso. Talvez esteja ensaiando a assinatura. Quem sabe? Talvez um protesto pelo aspecto conservador do prédio. Será? Não são tantos assim. Basta se afastar um pouco do centro e terá uma diversidade maior de improvisação e muitas coisas feias. Mesmo sobre estas construções modernosas encontrará muitas pichações que as tornam mais feias ainda. Tudo bem que não querem o belo e isto seria uma maneira de desfazer uma estética dominante. Então me sinto no dever de perguntar; por que não começam a materializar esta proposta em suas próprias casas? Depois nos apresentem. Vá lá, deve estar cada coisa em seu lugar. Que outra razão plausível terias? Já sei provar o seu amor, considerando o risco de ser flagrado e talvez advertido ou advertida, sabe-se lá. O mais provável é que não tenhas nenhuma razão plausível. Quem sabe uma vontade de acontecer para o seu grupo, pode ser. Pra falar a verdade, Renatinha, já não me importo com o porquê, mas muito me incomoda o como. O seu gesto ficou marcado em nossos caminhos e muitos de nós não gosto dessa sua expressão. Por um lado, remete mesmo a uma cidade abandonada, vandalizada e em parte por uma tendência a libertinagem. Onde tudo pode.

Pessoas opinaram, xingaram e te defenderam, quase te transformaste numa Joana D’Arc, mesmo que sem visões e sem uma bandeira lambuzada de vermelho, sem uma causa aparente, ganhastes seguidores, defensores e muita desaprovação. Desaprovada fostes por uma grande fatia, diria que a maioria. As pessoas mais comprometidas com a cidade de Manaus, de outros tempos talvez, mas que carregam consigo a noção de pertencimento. Coisa que pra ti, talvez ainda não tenha batido, nem faça qualquer sentido. Provavelmente nem sabes que rua é essa, que prédio é esse. Quiéquitofazendo aqui. Poderás perguntar.

Apenas registrei a imagem e postei, mas pensei que a florada do jambeiro seria algo muito mais inspirador e belo, e realmente é, mas infelizmente Renatinha, o seu gesto feriu o amor de muitas pessoas pela cidade. Apesar de tudo, achei positiva a reação de muitas delas. Se expressaram espontaneamente, com suas emoções de ofendidos. Algumas se sentiram impelidas a xingar e o fizeram de forma contundente. Interpretei isso como uma reação natural, uma expressão do quanto elas se sentiram agredidas pelo teu impensado gesto. Os teus defensores podem até taxá-los de caretas, conservadores e autoritários. Não importa. Do meu ponto de vista eles tem tanto direito quanto você. Escrevestes, agora leias.

É bom lembrar que o teu gesto Renatinha é que foi imposto, uma manifestação de caráter egocêntrico e autoritário, típico daqueles que priorizam a expressão pessoal em detrimento da vontade daqueles que usam os espaços da cidade e tentam manter nela alguns aspectos harmônicos e humanos, que possa nos acolher. Poderemos sempre contestar, protestando contra obras públicas e monumentos que não nos atende. São muitos e grandes os gastos. Mas não se trata disso. Não atendem nossas necessidades, nem desejos. Certamente nos encontramos num estado de insegurança, quase geral e caiba resgatar a noção de uma cidade para todos, com o senso democrático. Nessas horas a discussão de gabinete não faz muito sentido, sobretudo quando os teóricos citados jamais experimentaram nossa realidade. Somos cidadãos e usuários da cidade e queremos ter direitos sobre ela, mas que seja democrática. Se for para cada um fazer o que der na veneta é melhor aprovar o senado, que já faz isso, sem nos ouvir.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.