Quem me representa?

Em 27 de outubro de 2016 às 13:56, por Gilson Gil.

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Um dos impasses das democracias atuais está no sentimento de representatividade que o eleito possui junto ao eleitor. A legitimidade de suas falas, ações e posicionamentos passa por sua representatividade. Porém, eis um problema: em uma cidade com mais de um milhão e duzentos mil eleitores, o que faz um vereador eleito com cerca de dois mil votos?!

De onde fala um vereador com dois mil votos em uma cidade com mais de dois milhões de habitantes e mais de um milhão de eleitores? Que segmento ele representa? Que bairro ele representa? Qual a zona da cidade que ele representa? Em uma zona eleitoral com mais de cem mil eleitores, como a 32ª, o que significa um vereador com dois mil votos?!

Não vou defender votos distritais, proporcionais ou mistos. Quero apenas mostrar, com o exemplo de Manaus, a complexidade desse dilema. Elegemos representantes com dois mil votos. Isso dá cerca de 0,0016% do eleitorado. O que exigir dessa pessoa? A quem ele deve se reportar diante de votações mais divididas? No senso comum, se diria que ele deveria “ouvir seus eleitores”. Contudo, como ouvir 0,0016%?

Quando um vereador possui uma votação localizada espacialmente, ainda se pode “argumentar” que ele “representa” aquela localidade. Entretanto, e aqueles que possuem uma votação espalhada? Como “ouvir” eleitores distribuídos por todas as zonas?

Na prática, já sabemos como vai se movimentar a Câmara: uns ficarão do lado do prefeito (seja quem for) e outros, contra. Os que forem do “a favor” arranjarão argumentos para isso, votarão em tudo que for apresentado e tentarão mostrar ‘as suas supostas bases que isso “foi para melhor”. Os oposicionistas dirão que não puderam fazer nada, que tudo que propuseram foi negado e que foram “massacrados” pela bancada do governo. Os quatro anos se passarão e, na próxima eleição, todos voltarão aos bairros pedindo votos e “mostrando” seus trabalhos ou “justificando” os insucessos.

O que tudo isso significa para o morador de Manaus? Nada. A vida segue sua rotina, os eleitos ganham seus salários, nomeiam seus assessores e a normalidade prevalece. Um antigo comercial de uma companha de mudanças dizia: “o mundo gira e a Lusitana roda”. Algo de estranho ronda nossa democracia. O espectro da falta de sentido nas representações é real. O que importa votar em alguém que nem sabemos quem é ou que nunca ouvimos falar?! No máximo, estaremos dando um bom emprego a um desconhecido por quatro anos. Quando vemos a cidade feia, suja e desorganizada, esquecemos que votamos nos líderes e representantes que irão dirigi-la. É só uma reflexão, mas que precisa ser levada em conta, nesse período de balança pós-eleitoral.

sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.

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